quinta-feira, 2 de agosto de 2018

|A lésbica e o amor|

Tem uma amiga minha que sempre que escuta uma história de um amor que não deu certo para homossexuais, ela diz: "é muito difícil isso de amor entre homossexuais dar certo".

Só à título de informação, digo: essa amiga é hétero, no geral é uma pessoa boa e escolheu não se envolver com mais ninguém e há mais de uma década vive assim (e tudo bem!).

Mas por que essa frase?
Por que a insistência de alguns em dizer que são os relacionamentos entre homossexuais que NÃO dão certo?

Eu digo uma coisa: ser fiel à sua orientação afetiva ou de gênero não é simples.
(leia mais sobre isso aqui)

Não vou romantizar ser homossexual ou transexual.
Mas, juro, que só não vou romantizar porque acho que precisamos viver sempre em um estado de consciência.

Em outras palavras: creio que somos seres políticos e precisamos nos posicionar politicamente no mundo. 

Ou seja: precisamos fazer a nossa parte em lutar por aquilo que acreditamos ser certo. E precisamos ser TUDO o que somos.

Mas falo com a autoridade de quem é: SER HOMOSSEXUAL NÃO É MOTIVO DE INFELICIDADE OU FRACASSO NO AMOR.

Realmente acho que a gente tem uma noção errada do amor.

Acho que a maioria de nós foi contaminada pelas histórias de "E viveram felizes para sempre..." dos contos de fada!

O amor não é isso.
Pelo menos eu não creio que seja.

Creio que o amor seja veículo de transformação.
(vá aqui para ler mais sobre)

Creio que o amor seja mãos dadas até que faça sentido - e por mãos dadas eu quero dizer uma infinidade de coisas: porque é possível que um amor amante se transforme um dia em um amor fraterno - e tudo bem!

É possível amar de várias maneiras.
E cada delas é linda e nos significa - nos ajuda a ter um senso de pertencimento ao mundo e nos preenche de enriquecimento de vida e de experiências de reflexão.

Não acredito em uma vida sozinha!
Entenda: ninguém é ilha! Precisamos de nossas pessoas!
É através do outro que nos significamos no mundo.

Mas isso não quer dizer que se eu não tiver uma namorada ou esposa eu não possa ser feliz!

Claro que sonhamos com alguém com quem possamos compartilhar a vida.
É natural que tenhamos esse sonho. Até porque é - idealmente - o tipo de relação mais íntima que possa existir. Dividir uma vida, dividir anos - quiçá décadas - com outro ser humano é de uma riqueza de vida muito grande. Poder crescer juntas ao longo do tempo é mesmo um tipo lindo de amor!

Mas não é o único, gente!
Não faça disso uma infelicidade!

Porque a vida é tão linda!
E há tanto a ser experienciado!
Há tantos sorrisos a serem partilhados.
Há tantas mãos a serem recebidas!

Não deixa que UMA falta te roube todas as outras presenças!

E não compra a ideia de que nós, por sermos homossexuais ou transexuais, não podemos ser felizes no amor! Não se alinhe com quem nos diminui!

Somos como quaisquer outros seres humanos: e se relacionar é sempre um desafio!

São dois mundos tentando se conciliar em união!
Isso nunca será simples! Para ninguém!

Agora, por sermos parte de uma parcela da população que AINDA sofre sérias consequências sociais por sermos quem somos, claro que isso nos faz ter que administrar mais elementos no cotidiano.

Isso requer de nós uma resiliência maior de vida.
Um escudo maior de autoproteção.

E isso às vezes nos faz ter um elemento à mais para gerir dentro de um relacionamento.
MAS É SÓ ISSO!

Se não temos mais exemplos de casais felizes dentro do universo homossexual ou transexual é porque faltam canais que nos mostrem essas pessoas.

Mas elas estão por aí!
Amando lindamente e construindo, com todos os desafios, uma vida real para si e para sua família
!

E mesmo os amores que acabaram depois de um tempo, foram sim MUITO felizes enquanto estavam alinhados.

Gente, o amor vem para nos iluminar!
Ele joga luz, lubrifica tudo, arruma a casa, reacende esperanças e belezas e às vezes ele vai embora.
Simplesmente porque já cumpriu o que tinha que cumprir.

E tudo bem!

Vamos parar de viver ou morrer pelas coisas!

A gente vive e morre pelo percurso de nossa própria vida.
Pela gana de viver tudo o que temos que viver.
Por usar este tempo de vida ao máximo! (lê esse textinho sobre o mundo ser um sex-shop!)

Mas não por outra pessoa!
Não porque uma relação não deu certo. (vá aqui para ler mais sobre)

Por que permanecer em algo que obviamente já não consegue ser luz para nós?
Que já se esvaiu? Que já mostrou que não é mais para ser?
Que já cumpriu seu tempo e função?

Esta lésbica aqui lhe diz:
Somos seres lindos!
Em especial aqueles de nós que creem, que se fazem o exercício de se orgulhar de quem são, que lutam por suas liberdades e expressões de amor, aqueles que juntam todos os dias coragem para enfrentar o mundo e poderem viver suas vidas como sonham: sendo exatamente quem são.

O amor é o que nos significa.
É o que nos cura.
É o que nos amplia.
É o que nos faz crer na vida.
É o que nos bombeia a força vital de não desperdiçar vida.

Não desperdicemos vida!
Que o amor nasça primeiro em ti.
E que você saiba reconhecê-lo todo ao teu redor.
Você não está sozinha!






segunda-feira, 30 de julho de 2018

| Aprendendo a ser lésbica |

Para quem está chegando agora, deixa eu dizer: comecei este blog no ano de 2008 ao me perceber lésbica - perto de completar 30 anos de idade. Na época foi um desmantelo me descobrir homossexual! Até ali eu vivera uma vida hétero, veja bem - embora sempre tenha me sentido inadequada dentro daquela vida...

No passado, eu já escrevi sobre isso de estar aprendendo a ser lésbica (clica aqui e clica aqui), mas resolvi voltar a escrever sobre isso por alguns motivos:

1. continuo aprendendo a ser lésbica! ha-ha

Já casei, já me divorciei, já meio que me ajuntei, já tive filhos, já militei de tudo que é maneira possível, já falei para tudo que é público perto e longe, já amei e desamei e, olhe, moça, ainda estou aprendendo sim a ser lésbica!

Pelo mesmo motivo que já disse anos atrás: ainda estou aprendendo a ser ser humano!

Ademais, cada uma de nós sabe dos taannntos enfrentamentos diários que temos que fazer por sermos quem somos.

2. Somos ainda incrivelmente invisíveis!

Aonde estão as lésbicas? Aonde vivem? Do que se alimentam? Como copulam (ops, não, essa resposta eu sei SIM! hahaha). Que idioma falam? Como se comunicam? Aonde se encontram?

Há muito mais do que o cheiro de couro nessa história toda! kkkk

Veja: há MUITO ainda a ser conquistado por nós, filhas de Lesbos!

A primeira conquista é que amemos!
Amemos MUITO!


Não apenas à distância (óh minha nossa Senhora da sapatice!), mas que não censuremos a nossa própria vida!

Que sejamos exatamente quem devemos ser! Que ousemos as ousadias possíveis e que lutemos muito para que as impossíveis um dia também possam ser vividas!

Há toda uma nova geração aí de sapinhas que não sabem aonde ir porque nós, que viemos primeiro, ainda não construímos nossos palcos.

Precisamos seguir vivendo TUDO.
Cada uma de nós que se permite ser feliz constrói um pouco do mundo seguro para todas nós.

3. Precisamos falar sobre ser lésbica!

 Lésbica! Lésbica!
Grito ao mundo sim: SOU LÉSBICA!

"Mas, Lana, para que essa necessidade de divulgar isso? Por acaso os héteros chegam nos cantos dizendo que são héteros?" -- exaustivamente me perguntam isso.

Eu respondo:

Ninguém precisa dizer que é hétero porque TODO MUNDO é automaticamente entendido como hétero! Em especial se o nosso jeito de ser for "passável" no mundo hétero.

Eu, que sou até bem feminina, sempre recebo um cair de queixos quando digo que, na verdade, sou sapatão. SAPATÃO, SIM!

Ainda brinco: Sou sapatão até nos pés mesmo, porque calço 39!

Ora veja, no dia em que eu entrar em um ambiente e não automaticamente presumirem que eu sou hétero, aí sim, eu deixarei de anunciar que sou lésbica! Porque já não será mais necessário conversar sobre isso. Já teremos evoluído à ponto de entendermos que eu, ser humano, posso me apaixonar por outro ser humano qualquer.

Até lá, falemos tudo.

Isso também vale para o racismo e para todas as fobias e preconceitos sobre a diversidade humana - seja ela corporal, de gênero, de classe, estética, funcional ou o que for.

Tudo o que oprime a existência precisa ser discutido.

Então, ora veja, continuarei aprendendo a ser lésbica.

Continuarei anunciando que existo e que outras como eu também existem.

Continuarei achando um absurdo que pais e mães não acolham seus filhos homossexuais e transexuais.

Continuarei conversando o que acho que deve ser conversado porque acho que a comunicação é o que mais se aproxima da cura.

E continuarei dizendo para outras sapatãs que venham, venham dar as mãos! 

Porque juntas, filhas de Lesbos, juntas somos muito mais fortes!

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O Sapatilhando está de volta!
E terá sempre novos textos às segundas e às quintas!
Espalha aí pras sapinhas de todas as idades, tá? :)

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segunda-feira, 23 de julho de 2018

Sobre conflitos, pessoas e vida

Há um presente constante em minha vida: as pessoas me escrevem para falar o que sentem, para me contarem suas histórias, para me falarem sobre algo pelo qual estão passando e como estão se sentindo a respeito.

Uma das frases de Clarice Lispector que mais amo está em seu livro Água viva. 
Ela diz: "Esta é a vida vista pela vida".

Esta é a vida vista pela vida.

Escute: uma vida é pouco. 
É pouco para aprendermos tudo o que poderíamos aprender sobre a vida. Então, ao ouvir outras pessoas, me sinto presenteada porque ganho novos pares de olhos.

Saio de minha própria perspectiva e entro na perspectiva de outra pessoa.
Vejo a vida pela vida dela.
E, assim, ganho vida.
Ganho experiências. Ganho contextos de reflexão sobre o existir.

De vez em quando me perguntam:

Por que as coisas não podem ser mais fáceis?
Por que há tantos conflitos?
Por que é tão difícil encontrar alguém que nos entenda como queremos ser entendidas? Que nos alcancem como queremos ser alcançadas?

Olha, eu sou uma das que acha que viver é mesmo difícil.
Não há nada de fácil em existir porque o simples fato de estar viva e de conviver com outras pessoas já nos traz tantos desafios a serem superados que parece mesmo que não há muito espaço para simplesmente relaxarmos.

No entanto, relaxar é também um dos exercícios, entende?

Lembro-me da passagem que há anos atrás postei aqui no Sapatilhando: 

"Disse o mestre ao discípulo: 
— Limpa o jardim! 
O discípulo varreu limpo o jardim. 
Disse o mestre: 
— Não basta. 
O discípulo espanou limpo as ramagens e os troncos das árvores. 
Disse o mestre: 
— Não basta!
O discípulo lavou limpo as pedras ao longo do caminho e disse:
— Nada mais resta a fazer.
O mestre sacudiu as árvores. Suaves, caíram folhas sobre a areia. Disse o mestre ao discípulo:
 — Limpar é deixar ser"

-- Mestre do Tao

Essa frase de vez em quando pulsa forte em mim como uma lembrança do movimento da vida:

"Limpar é deixar ser"

Entenda: cá estamos para SEMPRE fazermos a nossa parte.
A vida exige de nós engajamento.

No entanto, engajar-se ou não, é uma escolha sua.
Sempre tudo será uma escolha sua.
Para cada uma dessas escolhas, claro, haverão consequências.

Que consequências você escolherá para si?
É aí que está a questão.

Penso que o "deixar ser" consiste em trabalharmos em nós a sabedoria de identificar em quais momentos devemos nos engajar e em quais devemos apenas "deixar ser".

(aqui coloco em destaque o "apenas" porque francamente não é uma ação fácil. Deixar ser requer uma confiança muito grande na inteligência da vida, requer fé na ação do tempo. Confiar nem sempre é fácil ou simples)

No outro dia alguém postou uma frase da Clarice que eu não conhecia:
"Tudo é perfeito, porque seguiu de escala a escala o caminho fatal em relação a si mesmo".

Até onde sei esse é um princípio zen-budista: as coisa serão. A vida será. 

Façamos parte ou não disso tudo. Aí está o paradoxo da nossa existência.

A vida está para além de nós.
Mas viver é algo que só pode se dar por meio de nós mesmos.

Você é o seu instrumento de vida.

Para Joseph Campbell o sentido da vida é a experiência do estar-se vivo.

É sentir o sabor da tua própria língua, olhar o que vêem os teus próprios olhos, é encantar-se e deixar-ser ser transformada por aquilo que for capaz de te transformar.

Isso é engajar-se com a vida.

Quando nos poupamos da vida, a negamos.
Quando evitamos experiências por medo de nos machucarmos, negamos oportunidades de vida.

Não, viver não é simples.
As intenções das outras pessoas em relação à nós nem sempre são boas.
E infelizmente é muito mais fácil que outras pessoas nos machuquem do que saibam de fato ser por nós, sair de seus próprios olhos e tentar enxergar as coisas pelos nossos é algo raro.

Em geral a maioria de nós caminha míope e tonto pela vida.
Tentando sobreviver. Tentando ser entendido. Tentando achar alguém que lhe dê senso de segurança e que lhe ame como acha que merece ser amado.

E, em face de conflito, é muito mais fácil achar quem se arme inteira, quem entre no modo da defensiva, cheia de defesas e preparada para o contra-ataque, do que quem se dispa da agressividade e vá de fato ao encontro da outra pessoa.

A vida é feita de ação e reação.
Talvez se parássemos para pensar mais sobre isso, perceberíamos que cada uma de nós tem mais poder do que o que supomos para encerrar conflitos e modificar desfechos.

Mas, olha, cada idade que ganho é nova para mim.
No momento, estou com 39 anos.
Nesta vida, pelo menos, essa é primeira vez que tenho 39 anos.
Estou aprendendo ainda.
Mas uma das lições que guardei até aqui é que de fato tudo passa e tudo se transforma.
Pessoas vêm e vão.
Pessoas não são ideais.
Pessoas pertencem a um tempo do qual compartilhamos - às vezes mais longamente, às vezes apenas por um período.

Eu cá penso que é necessário achar nosso próprio caminho.
É necessário pensar sobre o que nos importa.
É necessário saber quem nos faz bem e quem nos faz mal.
É necessário saber quem nos ajuda a crescer e quem nos quebra e aprisiona.
É necessário saber quem é bálsamo e quem é veneno.
É necessário saber quem sabe cuidar e quem só quer ser cuidada.

"Esta é a vida vista pela vida"

E  nada é tão sério quanto saber com quem dividir seu tempo, seu afeto e sua vida. 

Não, não há ninguém perfeito.
Mas que a soma do bom seja sempre maior que a do ruim.

Dor e caos não podem ser naturalizados em nenhuma relação.
Que você saiba se retirar daquilo que não te alcança.
Que você saiba se afastar daquilo que não te gera muitos e tantos abraços de paz.
Que você saiba deixar ser para que aquela pessoa siga o seu próprio curso das transformações que lhe são necessárias.


Lana Nóbrega (Helena Paix)
Peço que quem for usar este texto, que não esqueça de citar a autora.

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PS: o Sapatilhando está de volta! :)
Por favor, venham sempre e divulguem o blog.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Não me fale de você

“O que gosto em vocês duas é que vocês são discretas”. 
“Já vou avisando que NUNCA quero ver ela aqui em casa!”. 
“Não tenho nada contra, mas não quero ver homem beijando homem não”. 
“Minha filha, quero saber do seu 
emprego, dos seus estudos, mas não quero saber da sua vida não”.
“Desde que eu não saiba de nada, tudo bem.”


Existem várias maneiras de se negar amor a uma pessoa. Mas tenho descoberto que uma das maneiras mais cruéis de fazer isso é “disfarçar” esse não-amor, de amor.

É enfeitar a não aceitação de “aceitação”.
É fazer-se de nobre quando não há, de fato, nada de honrado em tal agir.

Existe uma problemática na palavra TOLERÂNCIA.
Ela é sinônima de suportar. De aceitar com indulgência: ou seja, é tachar de errado aquilo, mas em nome de uma “bondade extrema”, suportar.


Pensemos sobre o que é “tolerar” alguém.
Pensemos sobre o ato enjoativo e aborrecido que é SUPORTAR outro ser humano. 

Isso não cabe em uma aceitação. Não é (a não ser que evolua em um acolhimento real) de maneira alguma um ato de amor. Não é colo. Não é abraço. Não é a benevolência de rir com o sorriso do outro. Não é a generosidade de aprender com a subjetividade do outro.

Eu não quero ser tolerada.
Quero ser celebrada por todas as pessoas que eu amo.
Quero que o meu sorriso ecoe e a minha felicidade se multiplique no coração dos meus.


Quero poder ser eu mesma: em minha completude.
Quero que me permitam isso: quero não: exijo que me permitam isso.

Mas, acima de tudo, quero não precisar exigir.

Quero o acolhimento verdadeiramente nobre daqueles que amam e que, por amar, acolhem. Mesmo no medo e na fragilidade daquilo que não conhecem.

Não admito ser tolerada. Não mereço isso – ninguém merece.
Não quero fazer parte dessa grande encenação de relacionamentos: aonde ninguém se conhece de fato, aonde tudo é superficial e mesquinho. E, por isso, frágil demais.

Aonde te dizem: meu amor só vai até aqui: daqui para frente não quero saber.
Aonde te demandam: enfeite-se de quem eu quero que você seja, ou não quero saber de você.
Aonde te mostram sempre o quão difícil é para eles que você seja como você é.
Aonde silêncios ensurdecedores espalham vales de abandono e distância.

Eu quero que parem para refletir que só sofrem pela não aceitação de seus familiares aqueles que queriam estar mais perto, aqueles que queriam poder amar tão mais, aqueles que desejam poder se entregar completamente, que querem ser sempre presença e colo.

Para que haja amor, é preciso que esse amor não nos silencie.
É preciso que esse amor cresça junto com os desafios que toda relação traz em si.

Relacionar-se é um ato mútuo de entrega e de troca.


O que se propõe na tolerância é que se fique distante dos olhos, é o desinteresse e o não querer saber, é que não se pratique a troca, é que não se adentre na cumplicidade que todo amor deve trazer em si.

Não querer saber é isso: é não querer.
É não desejar o conhecimento. É não querer o envolvimento.

E como amar alguém sem envolver-se?

Como se deseja um(a) filho(a) só em partes?
Como se fragmenta uma pessoa e exige aceitar apenas pedaços dela?

Eu proponho relacionamentos reais: eu proponho só ter em minha vida íntima aqueles que me sejam íntimos.

Não quero encenações.
Não quero “fazer de conta”. Quero o que é real.
Quero pessoas que, de coração, falem: QUERO SABER DE VOCÊ!

E se o real é a vontade de não saber: que não se saiba.
Que a distância de fato se faça e que somente deixemos em nossas vidas aqueles que nos querem como somos.

Você pode achar que dá para conciliar apenas metade de você mesma(a) com aqueles que só querem isso: mas a vida lhe mostrará que não dá.

À medida que você for ficando mais velho(a), seu tempo vai ficando mais precioso.
E passar tempo com alguém deve ser um ato voluntário e desejado: não uma obrigação.

Quando o Natal chegar, você vai querer estar com quem esteve com você o ano todo.
Quando os aniversários chegarem você só quererá que lhe cante “Parabéns” quem de fato lhe parabeniza sempre por você ser quem você é.
Quando os filhos(as) vierem você só vai querer estar perto de quem ame a sua família no formato exato dela: sem vergonha, sem culpa, sem apontar dedos e temer o inferno.

Aceitar é aprovação, é concordância.
Não existe aceitação pela metade.

Não existe a infame frase: “Aceito, mas não concordo”.
Não quando estamos falando de vida, de sentimentos, de famílias.

Pode-se não concordar com uma ação, com uma escolha, mas não com uma existência.

Quem não concorda com a sua existência não pode exigir sua presença: estar-se com é um ato pleno: de entrega, de existir junto, de serem cúmplices através da única forma de ser-se cúmplice: através do conhecimento.

Então, esteja perto de pessoas que ressoem com afeto: “Me fale de você!”. De você inteiro(a)!
Porque o amor necessita dessa benevolência: o amor quer saber. Sempre. E mais.
O envolvimento constrói-se no conhecimento.
E são por lágrimas e sorrisos compartilhados que todo relacionamento verdadeiro se faz.

Por isso eu, tachada de intolerante, não quero a tolerância de ninguém.
Quero poder estar junto, estando REALMENTE junto.

Quero entrar na casa dos que eu amo sem ter que deixar meu ‘eu’ verdadeiro na porta de fora.

Porque realmente acredito que o amor precisa da verdade para crescer: para sair do reino do faz de conta e virar história real.

Com lágrimas e sorrisos e abraços e dores e vitórias.
A real história daqueles que aprenderam a amar é assim: nelas você não é personagem da sua própria vida: você É sua própria vida. Por completo. Com CADA parte sua junta no todo que lhe forma.

O que posso desejar então é que os amores que ainda tem salvação percebam que é só através da entrega completa que se acha o tesouro mais incrível que um ser humano pode achar: o de carregar o seu coração, no coração de outra pessoa.

E coração é órgão inteiro: você não pode aceitar só metade de um coração.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

O meu desejo para ti

É necessário encantar-se. Por toda uma vida. Por todas as vidas que cabem dentro da vida. Por todas as lágrimas que nos lapidam. Por todos os sorrisos que nos inspiram. Por todos os aprendizados que nos formam.

Há que não amargurar-se: tarefa mais árdua que há! Já que às vezes só amarguras recebemos; mas ainda assim há que olhar para frente, seguir o passo, lutar para transformar o incômodo em mudança.

E quando não der, quando a mudança for inoperável, mudar a nós mesmos, como matéria ímpar que somos, como ponto de nossa própria vista, como fato de nossa própria vida, como fala de nossa própria voz.

Há que crer: se não nos outros, em si mesmo, em si mesma. Não se sai ileso da vida. É impossível fazê-lo: pois somos nós mesmos criatura que se cria e desfaz-se, somos nós mesmos cirandas de um carrossel que não apenas gira, mas rodopia nossas noções, nossas (in)certezas, nossos referenciais.

Há que amar: a si e aos outros que são passíveis de receber amor. E, quando acontecer de amar sozinho, que ame sem peso: que ame apenas por amar, como uma admiração e encantamento por outro ser. 

Existe uma leveza no amor maduro: ele sabe-se. E por saber-se, entende que o amor é uma irradiação de nós mesmos, é uma luz que sai de nós e, assim, clareia nossa existência. 

No entanto há que entender o feio do mundo. É necessária essa compreensão. Para, consciente, saber ter empatia, saber ser um ser-no-mundo, saber do todo que compõe o existir. Há que reconhecer o não ideal para saber lutar pelo ideal. Há que entender a lágrima para esforçar-se por mais sorrisos. É preciso até conhecer a solidão: para se saber reconhecê-la também no outro e, assim, juntar solidões em companhia.

Há que se saber dar auto-abraços: porque às vezes os outros abraços falham. E há que se compreender que a sua trajetória tem uma razão sua de ser. É sua. Com seus significados e desafios, com seus labirintos e dores, com todo o crescer que lhe cabe. E, nos momentos de benevolência da vida, a sua existência cruza-se com outras existências: e a sua luz brilha mais forte por juntar-se a outra luz.

Mas é preciso guardar sorrisos internos: é preciso saber achar o caminho de volta para si. É preciso perde-se e (re)encontrar-se sempre. 

Doloridos, guardamos também amarguras: de nosso não pertencimento, das traições que sofremos, do não reconhecimento do tanto que temos em si. Dessas amarguras guardadas façamos conhecimento: porque toda cicatriz conta uma história e toda história leva uma moral. Há muito o que ser mudado sempre.

Da tua paz, te peço compaixão. Seja benevolente consigo mesmo, consigo mesma. Não é para ser pesado ser você. Quando tudo o mais pesar, seja você seu amor, seja você seu encantamento, seja você seu abraço. Não só porque tudo chega ao fim, mas principalmente porque a sua história é seu maior tesouro. É a sua razão de ser quem você é, é o motivo da sua existência, é a colheita do seu olhar.

E perceber a unicidade de tudo o que te compõe é a sua maior realização. Chega nela para que a vida fique mais interessante. Para que você entenda a real razão de viver-se: para que você exista com esta nova perspectiva: a de ser você. E então absorve tudo o que a vida pode lhe dar.  

Todas as suas experiências lhe compõem. Engrandecem-lhe. Fornecem-lhe os dados para a chave do tempo: a expansão interna.

Que a sua alma cresça. Que seu encantamento expanda-se a ponto de você não caber mais em si: pois só quando nos esparramamos da nossa experiência de estar-se vivo é que nossa existência toma um propósito maior que nós: e conseguimos, por sermos exatamente quem somos, tocar outras vidas.

Mas é necessário ser-se.
Abraçar as dores e os amores de tudo o que nos faz.

É necessário identificar o amor e o não amor. E aproximar-se do primeiro e distanciar-se do segundo. E a maior prova do amar é deixar ser. Não há amor na imposição: amar é a quietude do permitir ser. E, sendo, receber o aprendizado que existe no ser que se faz.

Tornarmo-nos quem nascemos para ser é o maior desafio que existe.
Poucos vivem para aprender a ser quem deveriam.
Muitos vivem para ser aquilo que lhes queriam.

Há que encantar-se por seus próprios olhos. 
Só assim nasce-se para si mesmo.
E pode-se, então, crescer.

domingo, 15 de setembro de 2013

Grávida de si mesma

Somos feitas de dilemas. Somos várias perguntas. Somos algumas respostas. Somos ansiedade e medo. Somos muita busca, muita procura, muito desejo de soluções.

Mas as soluções não são mágicas. Nunca são.

Podemos pedir opiniões, podemos até escutar essas opiniões, podemos pedir que outros decidam por nós, mas a grande e cruel verdade é que no fim a ação da escolha é sua e de mais ninguém.

Se você enfrentou ou não o que deveria ser enfrentado. Se foi desta vez ou não. Se a tua vida está sendo de fato tua. Se teus passos estão sendo de fato teus. Se a voz que te bate no peito está sendo verdadeiramente ouvida ou não. 

Tudo isso é teu. Tudo isso te pertence. Tudo isso é responsabilidade tua.
Por isso é tão difícil.

Gosto da ideia de pensar que estamos grávidas: grávidas de si mesmas. 
Grávidas de nossas possibilidades. De nossos sonhos. De nossos horizontes e desejos.

Grávidas de tanta coisa linda e de tanta coisa feia também.
Mas sempre com a escolha do que parir. Do que gestar até o final.

Veja: na vida somos sempre chamadas à ação. Mesmo que escolhamos não agir ou que não tenhamos a coragem de agir.

A vida te cobra sempre a tua escolha, a tua atitude perante si mesma.
A vida se dá em primeira pessoa.

Cabe sempre a ti a voz ou o silêncio.
Cabe sempre a ti o sim ou o não.
Cabe sempre a ti o enfrentar ou o não enfrentar.

Esteja você pronta ou não: tuas escolhas terão consequências.
E a vida acontece contigo agora.

Nossos problemas nos judiam. Nossos medos nos aterrorizam. Nossas dúvidas nos paralisam. E nossa voz às vezes nos cala: porque há vezes em que existe um abismo entre o que está dentro e o que está fora de ti.

Mas é essencial que você lembre isso: você está grávida de si mesma.

Você é sempre o potencial de si mesma. De todas as coisas que podem te acontecer. De tudo o que pode ser gerado em sua vida. De todas as histórias a serem escritas em tua existência.

Você está, neste momento, gestando a si mesma.
Às vezes nos parimos. Às vezes não.
Às vezes vivemos a vida que queremos, às vezes não.

Mas a metáfora que precisa ser entendida é que o que é enfrentado e o que não é enfrentado sempre ditará as consequências do teu dia a dia.

E tememos tanto momentos de escolha que a palavra consequência tem para nós um tom ruim e negativo.

Quando TUDO na vida, inclusive o bom, se dá por conta das consequências de nossas ações.

A consequência pode ser o presente por nossa coragem ou o pesadelo por nosso não enfrentar. Pode ser a batalha por tomar as rédeas da sua própria vida ou o silêncio angustiante daqueles que temem mudanças. Podem ser o princípio da luz ou a continuação da escuridão.

As consequências existem para nos lembrar que estamos sempre grávidas de nós mesmas.

Para nos abençoar com a noção de que a vida é um contínuo. De que sempre há a possibilidade de novos caminhos e novos sorrisos. De que podemos sim abrir mão de uma vida antiga e começar uma vida nova.

A repercussão de nossas escolhas pode ser catastrófica.
Mas é que às vezes é necessária a demolição de tudo para que a vida de fato se reconstrua.

Assim como é necessário que o útero sangre para que o período fértil se inicie.

A consciência da tua própria gravidez é a consciência da tua própria vida.
Não esquece: a vida se dá em primeira pessoa.
Logo, é você quem tem que viver com as consequências da tua vida, sejam elas boas ou ruins.

Você está grávida de si mesma.
Grávida de tuas possibilidades.
Que a tua gestação seja linda e que gere também lindas coisas.



domingo, 18 de agosto de 2013

Quando a distância dói menos que a presença



TEXTO:

Eu sei que preciso escrever sobre isso. Sei que a única maneira de transformar tudo o que estou sentindo em algo bom, será conseguir tirar algum sentido, alguma lição, alguma coisa boa de tudo isso.

Sei também que são muitos os que precisam escutar algo, um cafuné que seja, uma luz no fim do túnel tão longo e solitário no qual se encontram.

Mas como tirar sentido do fato de pais não aceitarem seus filhos?

Tem coisas que podem ser ditas, claro: “calma, dê tempo a eles”; “eles são de outra geração”; “a religião não aceita, como eles podem aceitar?”; “lembra como foi difícil para você se aceitar? Então, eles também precisam de tempo”; “eles te amam, podem até não aceitar, mas só querem o melhor para você”; “era melhor que eles nunca tivessem sabido”.

Cada um dia nós, que já passou pelo martírio de sair do armário para pais que não aceitam sua homossexualidade, conhece essas frases. E outras tantas. E muitos dos que ainda estão no armário, que tristeza, um dia também escurão isso.

Você começa com aquele medo de descobrirem o seu grande segredo. De saberem de você. Do que você carrega no coração. Dez entre dez tem medo de machucarem seus pais, de fazê-los sofrer. Outro grande medo nos assombra: e se não nos amarem mais depois disso? E se nunca nos aceitarem?

Muitas lágrimas escondidas. Muita vontade de morrer. Muita dor nas frases do dia a dia: “olha ali o viadinho”; “aquela não engana ninguém”; “e os(as) namoradinhos(as)?”.

E o teu eu te gritando, te implorando ser escutado.

Daí você tenta administrar sua vida em segredo. Divide-se em ‘dois’. Quem você é socialmente e para a família, e quem você é quando pode expressar o que você sente por dentro de fato.

O computador ajuda. O celular.
Você se permite algumas migalhas de ser você mesma(o).

É tão bom! Teus olhos brilham, teu coração bate acelerado e você que sempre está no modo “automático”, dormente por essa vida cheia de imposições, de repente se sente viva(o)!

De repente você se pega sorrindo o mais verdadeiro sorriso e você entende: não há como fugir de quem se é. Nos transbordamos sempre.

Um dia, por acaso ou por vontade (voz presa um dia estoura), seus pais sabem sobre você. E aí o inferno começa.

Os choros contínuos. As gritarias. As acusações. As dores.

De repente, todo aquele amor que se sentia, parece transformar-se em munição: como você ousa trair as expectativas dos seus pais?

Como ousa ser...ser homossexual? “Mulher-macho”; “homem-fêmea”? Gostar de outra mulher? Gostar de outro homem? Viado! Sapatão! Desgraça da família! Você não é mais minha filha! Você não é mais meu filho!

Gritos. Muitos gritos.
E muitos silêncios ensurdecedores também.

Te olham diferente agora.
Te tratam diferente agora.

Vigiam teus passos. Teus olhares.
Temem constantemente que outras pessoas saibam dessa tua característica tão abominável.

Abominável.
Usam teu Deus para te julgar.

Teu Deus que te ama tanto, vira arma cruel que fere e machuca mais que tudo.

E teu colo, teus pais, teu lar, viram a coisa mais horrenda que você já conheceu. O inferno se faz em vida para ti. E teu choro parece não ter fim. Todos estão contra ti e você não sabe a quem recorrer.

Parece que tudo o que você sempre foi não importa mais.

Você agora é um estranho. E eles não sabem lidar com você.
Querem te tratar, te internar, te exorcizar.
Rezam incansavelmente por tua cura.

E você grita “Não estou doente! Não preciso de cura!”
Mas o preconceito não tem interesse em escutar: o preconceito acha que já tem todas as respostas, todas as verdades.

E muitos permanecem presos nessa realidade tão cruel até que se cansam e se calam e prometem que se curaram. Mesmo que por dentro saibam que não, que nunca, que são quem são e não lhes cabe escolher. Nunca foi uma questão de escolha...

Os sortudos acham uma saída. Se distanciam.
Mas, ainda tentam, esperançosos, que o tempo ajude.

E para uns ajuda.
Alguns pais se transformam.
Seja pela distância, seja pela saudade, ou pelo medo de perder seus filhos, alguns pais tornam-se a versão mais linda de si mesmos: e viram pais e mães de verdade. Sendo colo, sendo amigos, sendo pais.

Outros não.
Não importa o tempo que passe, não importam as tentativas de diálogo, apesar até mesmo das promessas feitas, eles simplesmente não conseguem.

É fácil não conseguir.
Existem tantos Felicianos, Bolsonaros, Malafaias, tantos padres, pastores, rabinos, tios, tias, televisão... tanta coisa que diz que NÃO É OK, que não é normal, que isso é uma abominação.
Uma abominação.

Quão cruel é que teus pais te chamem de abominação?
Que creiam realmente nisso?

E você, você que queria apenas amar e ser amada(o).
Você que queria apenas parar de mentir para seus pais.
Você que queria apenas partilhar seus sorrisos e suas lágrimas com seus pais.

Você que pegou seu coração em carne viva e deu a eles achando que eles saberiam cuidar desse pobre coração tão sofrido.

Mas tudo o que eles souberam fazer foi te transformar na dor deles.
A tua dor em momento algum importou.
A dor deles, a desilusão deles, a traição que eles sentiram sempre foi tudo o que eles expressaram.

E você, você que ousou destruir a família, envergonhar seus pais, você se vê também traído.

Se nunca prepararam teus pais para a possibilidade de um(a) filho(a) homossexual, também nunca te prepararam para o fato de que o amor dos pais NÃO É incondicional.

Existem sim condições. Muitas condições.
E você aprende isso a partir de MUITA dor. De muito abandono. De muito julgamento.

Para os casos mais extremos, de pais que nunca aprendem a aceitar seus filhos homossexuais, nós aprendemos que podemos existir sem eles.

É um aprendizado horrível. Nunca nenhum filho deveria descobrir que pode viver sem seus pais, que pode passar meses, talvez anos, sem saber deles.

Nunca nenhum filho deveria se casar sem que seus pais escolham não estar presente em seu casamento.

Nunca nenhum filho deveria sonhar com coisas simples que não pode ter: visitar seus pais com seu amor, fazer um jantar em família, ligar para dividir uma receita que fizeram, dizer que estão pensando em ter filhos.

E o amor, você então entende, para existir precisa ser alimentado. Precisa também receber amor para continuar.

Quando tudo o que se recebe é dor e não aceitação, há uma hora em que um “basta!” começa a nascer dentro de você.

Há uma hora, por questão de sobrevivência, que você já não quer ouvir a voz ou ver o rosto. Há uma hora em que a dor que eles sentem por você ser homossexual já não lhe comove. Há uma hora em que você olha para eles e os acha tão egoístas, tão limitados, tão cruéis, que tudo o que você quer é estar longe.

E não é que você os odeie. Não. Você ainda os ama. 
Você apenas não os aceita.

As palavras que eles sempre disseram ou deixaram de dizer; as tantas vezes que eles te condenaram e te fizeram o motivo de toda a desgraça deles; os tantos gritos já dados; os tantos silêncios; as tantas tentativas de te fazerem “normal”; as tantas vezes que você acreditou que eles tinham aceito apenas para que todo o preconceito voltasse em força total; as tantas e tantas vezes que as palavras cruéis deles, as vergonhas deles, as dores deles rodopiaram sem fim em ti...

Tudo isso um dia nos alcança e nos cansa.
Um dia, todo o amor se transforma em cansaço.
E tudo o que você quer é paz.

Tudo o que você quer é viver sua vida sem ser constantemente julgado e condenado.
Sem ser constantemente a causa da infelicidade e decepção dos seus pais.

Um dia você se liberta, cheio de cicatrizes e dores, daqueles que você sempre amou mais que tudo.

E é uma libertação triste, mas necessária.

Teus filhos um dia precisarão de ti. Precisarão que VOCÊ seja o exemplo deles: o exemplo de amor, de virtude, de colo.

E como ser o belo para seus filhos se aos olhos dos teus pais você é tão errada(o)?

Como segurar a mão do teu amor ouvindo constantemente o quão reprovável é esse amor?

Como construir tua família perto daqueles que não veem a tua família como uma família?

Como seguir com a vida perto dos teus pais se o que eles querem mais que tudo é que você NÃO MOSTRE PARA NINGUÉM quem você é?

Eu verdadeiramente acho que esses pais (nossos pais) nunca planejaram se tornarem pessoas tão feias e mesquinhas.

Eu realmente acho que um dia eles olharam para nós na maternidade e prometeram nos amar da forma mais linda e fiel. Tenho certeza que juraram fazer de tudo o que estivesse ao alcance deles para nos fazer feliz (e é provável que eles tenham feito isso por muitos e muitos anos).

Mas aqueles jovens se perderam em suas próprias expectativas. Nas regras religiosas que aprenderam, no medo do que os outros vão pensar, no desejo de que você fosse alguém que pudesse compensar todos os sacrifícios que eles fizeram por você (e é muito provável que você seja!).

E nós, nós aprendemos que às vezes, estar longe dói menos do que estar perto.


--

* Se você é mãe ou pai de homossexual, converse com o(a) seu(sua) filho(a). Ele(a) te ama. E tudo o que ele(a) quer é te ter por perto. 

Não deixe que o amor que ele(a) sente por você seja substituída pela dor da não aceitação. É preciso deixar que o amor vença! Deixem que o amor vença!


** Aos que não são aceitos: te juro que um dia, os sorrisos serão mais fáceis e as lágrimas mais raras. que a dor transforma-se em fortaleza. que a vergonha transforma-se em orgulho. que a vida te dará muitas mãos e colos e muitos, muitos sorrisos. 


> Para aqueles que ainda estão no armário, recomendo este áudio: http://paradalesbica.com.br/2012/09/devo-me-assumir-quando-como/comment-page-1/

E este texto: http://paradalesbica.com.br/2009/04/de-dentro-do-armario/

sábado, 22 de junho de 2013

A conquista de um coração

É que sempre buscamos maneiras de nos sentir melhor.
De curar o machucado. De dizer que ‘tudo ficará bem’.

Tentamos, de novo e de novo, nos convencer de que aquela pessoa que tanto nos machucou verá o quão injusta foi, perceberá que não pode viver longe de nós e nos quererá por perto.

(Aqui, veja, a dor de cada um(a) fala:

para mim (e para muitos, infelizmente) são os pais que não aceitam ter uma filha homossexual; para você pode ser o amor a quem você tanto se dedicou e que, no fim, não deu certo; para outro(a) pode ser ainda a traição de um(a) amigo(a), de um irmão, ou de qualquer pessoa a quem você confiou o seu coração. Pode ser ainda o dolorido extremo de todas essas dores misturadas.)

A verdade é que não se pode sair imune da vida.
Ela cria marcas em nós: é sua principal e mais visceral característica.

A vida nos marca.

Às vezes essas marcas nos amarguram.
Às vezes, se seguimos a batalha, a amargura só chega em dias ruins.

No entanto, é justamente a brutalidade da vida – que nos atinge tão covardemente – que cava o nosso interior para aquilo que é mais bonito em um ser humano: a sua fragilidade.

Cada um(a) que esteve lá sabe: é aquele sentimento contínuo de desespero e angústia, aquela dor circular que não lhe deixa nem por um momento, por mais que você tente ocupar sua mente com outros assuntos.

É algo tão exaustivo que a vontade que se tem é a de correr de si mesmo, numa fuga frenética de não-ser você: e a também dor da consciência de que não há como fugir daquilo que te bate no peito.

Ainda assim é preciso inspirar fundo: veja: é nesse ponto de dor que está tua carne, teu sangue: aquilo que te faz, mais do que nunca, humano(a).

Superar-se é a coisa mais difícil que alguém pode fazer.
Justamente porque a superação-de-si dá-se nesse ponto interno tão profundo: nessa fragilidade tão dolorida que te consome.

E aí vem a grande questão: como se cala uma dor tão grande?

E a verdade você já sabe: não se cala.
Ela grita de tuas entranhas porque ela é tão grande quanto você.

Eis a questão: a intensidade do que tu sentes é a tua intensidade.
Você (que não sabe) é gigante de si mesmo(a).

Então a dor precisa, de fato, doer.
Ela te mostra teu maior medo: te joga na cara teus pesadelos: te rodopia – tonta – todo o teu caos.

E é aí que ela te ilumina: ao te mostrar teu caos.
Ao te apontar o ponto no qual precisa começar tua re-organização de si.

Coração dilacerado é coração que sangra: e sangue é mensagem.
Nada mais que isso.
Sangra-se para se saber que a tua edificação base precisa ser reestruturada.
Sangra-se para que você entenda que não é ali que está a tua base: que não é ali que reside a tua segurança ou a tua força.

Veja: o que você mais temia perder você já perdeu.

A vida permanece.
Quase como uma piada sem graça a vida te grita dizendo: “E aí? O que você vai fazer agora?”

Essa é a pergunta mais corajosa e cruel que podemos fazer a nós mesmos(as).

Corajosa porque, naquele exato momento, estamos enfrentando um tipo de solidão há muito temida: a solidão do não-amor.

Cruel porque a resposta dessa pergunta é e sempre vai ser a mesma: continuar andando.

Você pode dizer: “Não, vou ficar parado(a) aqui, não tenho porque continuar, estou cansado(a) e sem forças”.

Mas aí eu teria que te sussurrar uma afirmação que por dentro você já sabe: “Não escolher já é fazer uma escolha.”

Não há como fugir, entende?
Quando a carne viva do teu coração se faz aparente é justamente para te implorar que você enxergue (coragem!) algo que já estava ali: aquele desfecho foi construído.

Nenhuma realidade aparece magicamente: é fruto de meses, de anos, de escolhas e entendimentos feitos ao longo do tempo.

E não é uma questão de entender que teu coração não mais pertence àquele lugar: é justamente o contrário: é perceber que você tem que continuar SEM a parte do teu coração que ali ficou.

Agora é hora de soltar todo o ar dos pulmões e enchê-los com novo ar: é hora de digerir vagarosamente essa dor tão grande quanto você: de entender que a base da tua edificação precisa retornar ao seu ponto de origem: é hora de voltar-se para si.

Não há receita para isso.
É uma auto-aprendizagem cotidiana.
Um auto-confiar-se vagaroso e contínuo.

É conhecer cada pedaço dessa dor tão grande e ir administrando pedaço por pedaço: até que tudo tenha sido visitado, sentido e, por fim, conquistado.

Sim, tua dor precisa ser conquistada.
Como uma terra nova e brutal que precisa ser explorada para que se aprenda a sobreviver nela, para que se possa vencê-la antes que ela lhe vença.

A dor mais temida no fim é apenas isso: território que você precisa conquistar para, entre lágrimas e sorrisos, fincar sua bandeira vitoriosa.

E aí então você entenderá o que precisava ser entendido: são teus pés os responsáveis por teu caminho.

Vai.
Chora.
E, depois de chorar, seja feliz.
Um coração partido não deixa de ser um coração: há muita vida ainda a esperar por ti.
Vai.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Conto "O Beijo" no Parada Lésbica

Pessoalzinho querido,

Ando me aventurando por novos caminhos.
Acabei de postar o meu primeiro conto lá no site Parada Lésbica.

Vai lá me dar sua opinião? ^^
É só clicar AQUI.

Beijos!

terça-feira, 5 de março de 2013

Sozinha(o) ou acompanhada(o)


“Eu quero a sorte de um amor tranqüilo” – canta a música do Cazuza.

Mas há que se refletir: embora automaticamente pensemos em romance quando escutamos esse “amor tranqüilo”, será que é só na(o) outra(o) que encontraremos esse tipo de amor?

Claro: é maravilhoso ter sorte no amor!
É absolutamente encantador estar ao lado de uma pessoa que te ajuda na tua felicidade, que contribui para o teu sorriso, que encanta os seus dias de uma alegria estimuladora.

Amar é maravilhoso.

Mas aí é que está: amar É para ser maravilhoso!

No amor, o que sentimos é um abraço completo: que nos afaga e ao mesmo tempo nos liberta, que nos dá segurança e ao mesmo tempo é alegria, que nos recebe por completo – com todos os pormenores que nos fazem.

Por isso mesmo é preciso reconhecer o amor.

Algo que um dia foi amor, hoje já pode não ser.
E aí está uma das maiores dificuldades que as pessoas enfrentam: libertar-se de um amor que já não é.

Entenda: amar é verbo múltiplo e circular. 
Precisa-se de quem ame e de quem receba esse amor e dê amor de volta.

Amar sozinha(o) é ideologia: é estar-se preso a uma fantasia, a algo que não é.
E “estar-se preso” não faz parte do amor! Estar com uma pessoa não é estar em uma prisão. Pelo contrário.

Amar é algo encantador: algo que te impulsiona para frente, que te faz entender toda a fortaleza e possibilidades que você tem dentro de si, algo que te mostra que você pode sim enfrentar o mundo e vencer!

E não é que aquela fortaleza não estivesse dentro de você antes: mas é que o amor traz lucidez à alma.

No entanto, a fonte de amor, ao contrário do que o que se possa pensar, é sempre a pessoa que ama – e não a pessoa amada.

Por isso é que o amor mais importante de todos – e de onde todos os outros nascem – é o amor próprio.

Por mais piegas que isso possa parecer, por mais “auto-ajuda” que soe, é nesse amor que você encontrará o equilíbrio para reconhecer o que é ou não amor.

Veja: amores acabam.

E não é que eles tenham sido em vão, ou que eles não foram amor de verdade!
É que todo amor só existe o tempo suficiente para transformar os que amam.

Se a transformação cessou, também cessará o amor.
Se não há mais como transformar a pessoa: será o sentimento que irá se transformar em outra coisa.

Isso porque amar é sempre um somar-se. A partir do momento em que o amor se transformou em divisão ou subtração, já não é mais amor.

Perceber o fim desse amor é uma das resoluções mais dolorosas que possam existir.

Isso porque amar é também como encontrar um país que é só seu e da pessoa amada. São só vocês que habitam esse país.

E muitas vezes, quando o amor se quebra, uma das pessoas sai desse “país” sem que a outra esteja pronta para sair também.

E lá se fica, sozinha(o), em um país abandonado e deserto.
Onde todas as lembranças boas são agora martírio do que já não se tem.

É nessa hora que se precisa iniciar uma busca interna do amor original: o amor por você mesma(o). É esse amor que lhe dará forças para deixar esse “país” abandonado e voltar ao seu canto, ao seu equilíbrio, às possibilidades e sorrisos que ainda são seus.

Há também a ilusão de um amor: essa é perigosa e solitária: pois é um amor que não é e que a pessoa teima em pensar que é.

Veja: amor é terra frutífera.
Basta lançar semente e ele se desenvolverá.
A pessoa que está destinada a receber seu amor o receberá com felicidade e saberá lhe amar de volta.

Não vale se só você emana amor. Não vale se todas as tuas investidas terminam em frustração e dor. Não é assim que o amor funciona.

Sei que às vezes a dor é justamente imaginar que você não terá um amor.

Mas lembre-se: amar é verbo múltiplo e circular.
E porque nasce em você: amar é casa.
Por ser casa, é necessário que você cultive sua paz.
Amor nenhum nasce do desespero e da sede.

O “amor tranqüilo” nasce justamente do estar-se tranqüilo.
Não busque aquilo que já está destinado a te encontrar.

Ele te encontrará quando for a hora.
Assim como ele te libertará quando for a hora.

Sozinha(o) ou acompanhada(o) o mais importante é que você cultive a sua paz, o seu amar-se, o seu entender que se tudo parte de você, é você quem tem que ser o ponto de equilíbrio. É você quem precisa amar-se e respeitar-se o suficiente para entender o que (já) não é amor.

Não se permita estar-se presa(o).
A liberdade é necessária para que você possa continuar caminhando.
É na liberdade que o amor floresce (inclusive o seu amor por si). 

 E lembre-se:
“Aquilo que você procura, também está te procurando”
“What you seek is seeking you.”
- Rumi

O mais importante é que, sozinha(o) ou acompanhada(o), você saiba reconhecer sua paz.

Ninguém encontra nada no desespero.