segunda-feira, 24 de março de 2014

Não me fale de você

“O que gosto em vocês duas é que vocês são discretas”. 
“Já vou avisando que NUNCA quero ver ela aqui em casa!”. 
“Não tenho nada contra, mas não quero ver homem beijando homem não”. 
“Minha filha, quero saber do seu 
emprego, dos seus estudos, mas não quero saber da sua vida não”.
“Desde que eu não saiba de nada, tudo bem.”


Existem várias maneiras de se negar amor a uma pessoa. Mas tenho descoberto que uma das maneiras mais cruéis de fazer isso é “disfarçar” esse não-amor, de amor.

É enfeitar a não aceitação de “aceitação”.
É fazer-se de nobre quando não há, de fato, nada de honrado em tal agir.

Existe uma problemática na palavra TOLERÂNCIA.
Ela é sinônima de suportar. De aceitar com indulgência: ou seja, é tachar de errado aquilo, mas em nome de uma “bondade extrema”, suportar.


Pensemos sobre o que é “tolerar” alguém.
Pensemos sobre o ato enjoativo e aborrecido que é SUPORTAR outro ser humano. 

Isso não cabe em uma aceitação. Não é (a não ser que evolua em um acolhimento real) de maneira alguma um ato de amor. Não é colo. Não é abraço. Não é a benevolência de rir com o sorriso do outro. Não é a generosidade de aprender com a subjetividade do outro.

Eu não quero ser tolerada.
Quero ser celebrada por todas as pessoas que eu amo.
Quero que o meu sorriso ecoe e a minha felicidade se multiplique no coração dos meus.


Quero poder ser eu mesma: em minha completude.
Quero que me permitam isso: quero não: exijo que me permitam isso.

Mas, acima de tudo, quero não precisar exigir.

Quero o acolhimento verdadeiramente nobre daqueles que amam e que, por amar, acolhem. Mesmo no medo e na fragilidade daquilo que não conhecem.

Não admito ser tolerada. Não mereço isso – ninguém merece.
Não quero fazer parte dessa grande encenação de relacionamentos: aonde ninguém se conhece de fato, aonde tudo é superficial e mesquinho. E, por isso, frágil demais.

Aonde te dizem: meu amor só vai até aqui: daqui para frente não quero saber.
Aonde te demandam: enfeite-se de quem eu quero que você seja, ou não quero saber de você.
Aonde te mostram sempre o quão difícil é para eles que você seja como você é.
Aonde silêncios ensurdecedores espalham vales de abandono e distância.

Eu quero que parem para refletir que só sofrem pela não aceitação de seus familiares aqueles que queriam estar mais perto, aqueles que queriam poder amar tão mais, aqueles que desejam poder se entregar completamente, que querem ser sempre presença e colo.

Para que haja amor, é preciso que esse amor não nos silencie.
É preciso que esse amor cresça junto com os desafios que toda relação traz em si.

Relacionar-se é um ato mútuo de entrega e de troca.


O que se propõe na tolerância é que se fique distante dos olhos, é o desinteresse e o não querer saber, é que não se pratique a troca, é que não se adentre na cumplicidade que todo amor deve trazer em si.

Não querer saber é isso: é não querer.
É não desejar o conhecimento. É não querer o envolvimento.

E como amar alguém sem envolver-se?

Como se deseja um(a) filho(a) só em partes?
Como se fragmenta uma pessoa e exige aceitar apenas pedaços dela?

Eu proponho relacionamentos reais: eu proponho só ter em minha vida íntima aqueles que me sejam íntimos.

Não quero encenações.
Não quero “fazer de conta”. Quero o que é real.
Quero pessoas que, de coração, falem: QUERO SABER DE VOCÊ!

E se o real é a vontade de não saber: que não se saiba.
Que a distância de fato se faça e que somente deixemos em nossas vidas aqueles que nos querem como somos.

Você pode achar que dá para conciliar apenas metade de você mesma(a) com aqueles que só querem isso: mas a vida lhe mostrará que não dá.

À medida que você for ficando mais velho(a), seu tempo vai ficando mais precioso.
E passar tempo com alguém deve ser um ato voluntário e desejado: não uma obrigação.

Quando o Natal chegar, você vai querer estar com quem esteve com você o ano todo.
Quando os aniversários chegarem você só quererá que lhe cante “Parabéns” quem de fato lhe parabeniza sempre por você ser quem você é.
Quando os filhos(as) vierem você só vai querer estar perto de quem ame a sua família no formato exato dela: sem vergonha, sem culpa, sem apontar dedos e temer o inferno.

Aceitar é aprovação, é concordância.
Não existe aceitação pela metade.

Não existe a infame frase: “Aceito, mas não concordo”.
Não quando estamos falando de vida, de sentimentos, de famílias.

Pode-se não concordar com uma ação, com uma escolha, mas não com uma existência.

Quem não concorda com a sua existência não pode exigir sua presença: estar-se com é um ato pleno: de entrega, de existir junto, de serem cúmplices através da única forma de ser-se cúmplice: através do conhecimento.

Então, esteja perto de pessoas que ressoem com afeto: “Me fale de você!”. De você inteiro(a)!
Porque o amor necessita dessa benevolência: o amor quer saber. Sempre. E mais.
O envolvimento constrói-se no conhecimento.
E são por lágrimas e sorrisos compartilhados que todo relacionamento verdadeiro se faz.

Por isso eu, tachada de intolerante, não quero a tolerância de ninguém.
Quero poder estar junto, estando REALMENTE junto.

Quero entrar na casa dos que eu amo sem ter que deixar meu ‘eu’ verdadeiro na porta de fora.

Porque realmente acredito que o amor precisa da verdade para crescer: para sair do reino do faz de conta e virar história real.

Com lágrimas e sorrisos e abraços e dores e vitórias.
A real história daqueles que aprenderam a amar é assim: nelas você não é personagem da sua própria vida: você É sua própria vida. Por completo. Com CADA parte sua junta no todo que lhe forma.

O que posso desejar então é que os amores que ainda tem salvação percebam que é só através da entrega completa que se acha o tesouro mais incrível que um ser humano pode achar: o de carregar o seu coração, no coração de outra pessoa.

E coração é órgão inteiro: você não pode aceitar só metade de um coração.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

O meu desejo para ti

É necessário encantar-se. Por toda uma vida. Por todas as vidas que cabem dentro da vida. Por todas as lágrimas que nos lapidam. Por todos os sorrisos que nos inspiram. Por todos os aprendizados que nos formam.

Há que não amargurar-se: tarefa mais árdua que há! Já que às vezes só amarguras recebemos; mas ainda assim há que olhar para frente, seguir o passo, lutar para transformar o incômodo em mudança.

E quando não der, quando a mudança for inoperável, mudar a nós mesmos, como matéria ímpar que somos, como ponto de nossa própria vista, como fato de nossa própria vida, como fala de nossa própria voz.

Há que crer: se não nos outros, em si mesmo, em si mesma. Não se sai ileso da vida. É impossível fazê-lo: pois somos nós mesmos criatura que se cria e desfaz-se, somos nós mesmos cirandas de um carrossel que não apenas gira, mas rodopia nossas noções, nossas (in)certezas, nossos referenciais.

Há que amar: a si e aos outros que são passíveis de receber amor. E, quando acontecer de amar sozinho, que ame sem peso: que ame apenas por amar, como uma admiração e encantamento por outro ser. 

Existe uma leveza no amor maduro: ele sabe-se. E por saber-se, entende que o amor é uma irradiação de nós mesmos, é uma luz que sai de nós e, assim, clareia nossa existência. 

No entanto há que entender o feio do mundo. É necessária essa compreensão. Para, consciente, saber ter empatia, saber ser um ser-no-mundo, saber do todo que compõe o existir. Há que reconhecer o não ideal para saber lutar pelo ideal. Há que entender a lágrima para esforçar-se por mais sorrisos. É preciso até conhecer a solidão: para se saber reconhecê-la também no outro e, assim, juntar solidões em companhia.

Há que se saber dar auto-abraços: porque às vezes os outros abraços falham. E há que se compreender que a sua trajetória tem uma razão sua de ser. É sua. Com seus significados e desafios, com seus labirintos e dores, com todo o crescer que lhe cabe. E, nos momentos de benevolência da vida, a sua existência cruza-se com outras existências: e a sua luz brilha mais forte por juntar-se a outra luz.

Mas é preciso guardar sorrisos internos: é preciso saber achar o caminho de volta para si. É preciso perde-se e (re)encontrar-se sempre. 

Doloridos, guardamos também amarguras: de nosso não pertencimento, das traições que sofremos, do não reconhecimento do tanto que temos em si. Dessas amarguras guardadas façamos conhecimento: porque toda cicatriz conta uma história e toda história leva uma moral. Há muito o que ser mudado sempre.

Da tua paz, te peço compaixão. Seja benevolente consigo mesmo, consigo mesma. Não é para ser pesado ser você. Quando tudo o mais pesar, seja você seu amor, seja você seu encantamento, seja você seu abraço. Não só porque tudo chega ao fim, mas principalmente porque a sua história é seu maior tesouro. É a sua razão de ser quem você é, é o motivo da sua existência, é a colheita do seu olhar.

E perceber a unicidade de tudo o que te compõe é a sua maior realização. Chega nela para que a vida fique mais interessante. Para que você entenda a real razão de viver-se: para que você exista com esta nova perspectiva: a de ser você. E então absorve tudo o que a vida pode lhe dar.  

Todas as suas experiências lhe compõem. Engrandecem-lhe. Fornecem-lhe os dados para a chave do tempo: a expansão interna.

Que a sua alma cresça. Que seu encantamento expanda-se a ponto de você não caber mais em si: pois só quando nos esparramamos da nossa experiência de estar-se vivo é que nossa existência toma um propósito maior que nós: e conseguimos, por sermos exatamente quem somos, tocar outras vidas.

Mas é necessário ser-se.
Abraçar as dores e os amores de tudo o que nos faz.

É necessário identificar o amor e o não amor. E aproximar-se do primeiro e distanciar-se do segundo. E a maior prova do amar é deixar ser. Não há amor na imposição: amar é a quietude do permitir ser. E, sendo, receber o aprendizado que existe no ser que se faz.

Tornarmo-nos quem nascemos para ser é o maior desafio que existe.
Poucos vivem para aprender a ser quem deveriam.
Muitos vivem para ser aquilo que lhes queriam.

Há que encantar-se por seus próprios olhos. 
Só assim nasce-se para si mesmo.
E pode-se, então, crescer.

domingo, 15 de setembro de 2013

Grávida de si mesma

Somos feitas de dilemas. Somos várias perguntas. Somos algumas respostas. Somos ansiedade e medo. Somos muita busca, muita procura, muito desejo de soluções.

Mas as soluções não são mágicas. Nunca são.

Podemos pedir opiniões, podemos até escutar essas opiniões, podemos pedir que outros decidam por nós, mas a grande e cruel verdade é que no fim a ação da escolha é sua e de mais ninguém.

Se você enfrentou ou não o que deveria ser enfrentado. Se foi desta vez ou não. Se a tua vida está sendo de fato tua. Se teus passos estão sendo de fato teus. Se a voz que te bate no peito está sendo verdadeiramente ouvida ou não. 

Tudo isso é teu. Tudo isso te pertence. Tudo isso é responsabilidade tua.
Por isso é tão difícil.

Gosto da ideia de pensar que estamos grávidas: grávidas de si mesmas. 
Grávidas de nossas possibilidades. De nossos sonhos. De nossos horizontes e desejos.

Grávidas de tanta coisa linda e de tanta coisa feia também.
Mas sempre com a escolha do que parir. Do que gestar até o final.

Veja: na vida somos sempre chamadas à ação. Mesmo que escolhamos não agir ou que não tenhamos a coragem de agir.

A vida te cobra sempre a tua escolha, a tua atitude perante si mesma.
A vida se dá em primeira pessoa.

Cabe sempre a ti a voz ou o silêncio.
Cabe sempre a ti o sim ou o não.
Cabe sempre a ti o enfrentar ou o não enfrentar.

Esteja você pronta ou não: tuas escolhas terão consequências.
E a vida acontece contigo agora.

Nossos problemas nos judiam. Nossos medos nos aterrorizam. Nossas dúvidas nos paralisam. E nossa voz às vezes nos cala: porque há vezes em que existe um abismo entre o que está dentro e o que está fora de ti.

Mas é essencial que você lembre isso: você está grávida de si mesma.

Você é sempre o potencial de si mesma. De todas as coisas que podem te acontecer. De tudo o que pode ser gerado em sua vida. De todas as histórias a serem escritas em tua existência.

Você está, neste momento, gestando a si mesma.
Às vezes nos parimos. Às vezes não.
Às vezes vivemos a vida que queremos, às vezes não.

Mas a metáfora que precisa ser entendida é que o que é enfrentado e o que não é enfrentado sempre ditará as consequências do teu dia a dia.

E tememos tanto momentos de escolha que a palavra consequência tem para nós um tom ruim e negativo.

Quando TUDO na vida, inclusive o bom, se dá por conta das consequências de nossas ações.

A consequência pode ser o presente por nossa coragem ou o pesadelo por nosso não enfrentar. Pode ser a batalha por tomar as rédeas da sua própria vida ou o silêncio angustiante daqueles que temem mudanças. Podem ser o princípio da luz ou a continuação da escuridão.

As consequências existem para nos lembrar que estamos sempre grávidas de nós mesmas.

Para nos abençoar com a noção de que a vida é um contínuo. De que sempre há a possibilidade de novos caminhos e novos sorrisos. De que podemos sim abrir mão de uma vida antiga e começar uma vida nova.

A repercussão de nossas escolhas pode ser catastrófica.
Mas é que às vezes é necessária a demolição de tudo para que a vida de fato se reconstrua.

Assim como é necessário que o útero sangre para que o período fértil se inicie.

A consciência da tua própria gravidez é a consciência da tua própria vida.
Não esquece: a vida se dá em primeira pessoa.
Logo, é você quem tem que viver com as consequências da tua vida, sejam elas boas ou ruins.

Você está grávida de si mesma.
Grávida de tuas possibilidades.
Que a tua gestação seja linda e que gere também lindas coisas.



domingo, 18 de agosto de 2013

Quando a distância dói menos que a presença



TEXTO:

Eu sei que preciso escrever sobre isso. Sei que a única maneira de transformar tudo o que estou sentindo em algo bom, será conseguir tirar algum sentido, alguma lição, alguma coisa boa de tudo isso.

Sei também que são muitos os que precisam escutar algo, um cafuné que seja, uma luz no fim do túnel tão longo e solitário no qual se encontram.

Mas como tirar sentido do fato de pais não aceitarem seus filhos?

Tem coisas que podem ser ditas, claro: “calma, dê tempo a eles”; “eles são de outra geração”; “a religião não aceita, como eles podem aceitar?”; “lembra como foi difícil para você se aceitar? Então, eles também precisam de tempo”; “eles te amam, podem até não aceitar, mas só querem o melhor para você”; “era melhor que eles nunca tivessem sabido”.

Cada um dia nós, que já passou pelo martírio de sair do armário para pais que não aceitam sua homossexualidade, conhece essas frases. E outras tantas. E muitos dos que ainda estão no armário, que tristeza, um dia também escurão isso.

Você começa com aquele medo de descobrirem o seu grande segredo. De saberem de você. Do que você carrega no coração. Dez entre dez tem medo de machucarem seus pais, de fazê-los sofrer. Outro grande medo nos assombra: e se não nos amarem mais depois disso? E se nunca nos aceitarem?

Muitas lágrimas escondidas. Muita vontade de morrer. Muita dor nas frases do dia a dia: “olha ali o viadinho”; “aquela não engana ninguém”; “e os(as) namoradinhos(as)?”.

E o teu eu te gritando, te implorando ser escutado.

Daí você tenta administrar sua vida em segredo. Divide-se em ‘dois’. Quem você é socialmente e para a família, e quem você é quando pode expressar o que você sente por dentro de fato.

O computador ajuda. O celular.
Você se permite algumas migalhas de ser você mesma(o).

É tão bom! Teus olhos brilham, teu coração bate acelerado e você que sempre está no modo “automático”, dormente por essa vida cheia de imposições, de repente se sente viva(o)!

De repente você se pega sorrindo o mais verdadeiro sorriso e você entende: não há como fugir de quem se é. Nos transbordamos sempre.

Um dia, por acaso ou por vontade (voz presa um dia estoura), seus pais sabem sobre você. E aí o inferno começa.

Os choros contínuos. As gritarias. As acusações. As dores.

De repente, todo aquele amor que se sentia, parece transformar-se em munição: como você ousa trair as expectativas dos seus pais?

Como ousa ser...ser homossexual? “Mulher-macho”; “homem-fêmea”? Gostar de outra mulher? Gostar de outro homem? Viado! Sapatão! Desgraça da família! Você não é mais minha filha! Você não é mais meu filho!

Gritos. Muitos gritos.
E muitos silêncios ensurdecedores também.

Te olham diferente agora.
Te tratam diferente agora.

Vigiam teus passos. Teus olhares.
Temem constantemente que outras pessoas saibam dessa tua característica tão abominável.

Abominável.
Usam teu Deus para te julgar.

Teu Deus que te ama tanto, vira arma cruel que fere e machuca mais que tudo.

E teu colo, teus pais, teu lar, viram a coisa mais horrenda que você já conheceu. O inferno se faz em vida para ti. E teu choro parece não ter fim. Todos estão contra ti e você não sabe a quem recorrer.

Parece que tudo o que você sempre foi não importa mais.

Você agora é um estranho. E eles não sabem lidar com você.
Querem te tratar, te internar, te exorcizar.
Rezam incansavelmente por tua cura.

E você grita “Não estou doente! Não preciso de cura!”
Mas o preconceito não tem interesse em escutar: o preconceito acha que já tem todas as respostas, todas as verdades.

E muitos permanecem presos nessa realidade tão cruel até que se cansam e se calam e prometem que se curaram. Mesmo que por dentro saibam que não, que nunca, que são quem são e não lhes cabe escolher. Nunca foi uma questão de escolha...

Os sortudos acham uma saída. Se distanciam.
Mas, ainda tentam, esperançosos, que o tempo ajude.

E para uns ajuda.
Alguns pais se transformam.
Seja pela distância, seja pela saudade, ou pelo medo de perder seus filhos, alguns pais tornam-se a versão mais linda de si mesmos: e viram pais e mães de verdade. Sendo colo, sendo amigos, sendo pais.

Outros não.
Não importa o tempo que passe, não importam as tentativas de diálogo, apesar até mesmo das promessas feitas, eles simplesmente não conseguem.

É fácil não conseguir.
Existem tantos Felicianos, Bolsonaros, Malafaias, tantos padres, pastores, rabinos, tios, tias, televisão... tanta coisa que diz que NÃO É OK, que não é normal, que isso é uma abominação.
Uma abominação.

Quão cruel é que teus pais te chamem de abominação?
Que creiam realmente nisso?

E você, você que queria apenas amar e ser amada(o).
Você que queria apenas parar de mentir para seus pais.
Você que queria apenas partilhar seus sorrisos e suas lágrimas com seus pais.

Você que pegou seu coração em carne viva e deu a eles achando que eles saberiam cuidar desse pobre coração tão sofrido.

Mas tudo o que eles souberam fazer foi te transformar na dor deles.
A tua dor em momento algum importou.
A dor deles, a desilusão deles, a traição que eles sentiram sempre foi tudo o que eles expressaram.

E você, você que ousou destruir a família, envergonhar seus pais, você se vê também traído.

Se nunca prepararam teus pais para a possibilidade de um(a) filho(a) homossexual, também nunca te prepararam para o fato de que o amor dos pais NÃO É incondicional.

Existem sim condições. Muitas condições.
E você aprende isso a partir de MUITA dor. De muito abandono. De muito julgamento.

Para os casos mais extremos, de pais que nunca aprendem a aceitar seus filhos homossexuais, nós aprendemos que podemos existir sem eles.

É um aprendizado horrível. Nunca nenhum filho deveria descobrir que pode viver sem seus pais, que pode passar meses, talvez anos, sem saber deles.

Nunca nenhum filho deveria se casar sem que seus pais escolham não estar presente em seu casamento.

Nunca nenhum filho deveria sonhar com coisas simples que não pode ter: visitar seus pais com seu amor, fazer um jantar em família, ligar para dividir uma receita que fizeram, dizer que estão pensando em ter filhos.

E o amor, você então entende, para existir precisa ser alimentado. Precisa também receber amor para continuar.

Quando tudo o que se recebe é dor e não aceitação, há uma hora em que um “basta!” começa a nascer dentro de você.

Há uma hora, por questão de sobrevivência, que você já não quer ouvir a voz ou ver o rosto. Há uma hora em que a dor que eles sentem por você ser homossexual já não lhe comove. Há uma hora em que você olha para eles e os acha tão egoístas, tão limitados, tão cruéis, que tudo o que você quer é estar longe.

E não é que você os odeie. Não. Você ainda os ama. 
Você apenas não os aceita.

As palavras que eles sempre disseram ou deixaram de dizer; as tantas vezes que eles te condenaram e te fizeram o motivo de toda a desgraça deles; os tantos gritos já dados; os tantos silêncios; as tantas tentativas de te fazerem “normal”; as tantas vezes que você acreditou que eles tinham aceito apenas para que todo o preconceito voltasse em força total; as tantas e tantas vezes que as palavras cruéis deles, as vergonhas deles, as dores deles rodopiaram sem fim em ti...

Tudo isso um dia nos alcança e nos cansa.
Um dia, todo o amor se transforma em cansaço.
E tudo o que você quer é paz.

Tudo o que você quer é viver sua vida sem ser constantemente julgado e condenado.
Sem ser constantemente a causa da infelicidade e decepção dos seus pais.

Um dia você se liberta, cheio de cicatrizes e dores, daqueles que você sempre amou mais que tudo.

E é uma libertação triste, mas necessária.

Teus filhos um dia precisarão de ti. Precisarão que VOCÊ seja o exemplo deles: o exemplo de amor, de virtude, de colo.

E como ser o belo para seus filhos se aos olhos dos teus pais você é tão errada(o)?

Como segurar a mão do teu amor ouvindo constantemente o quão reprovável é esse amor?

Como construir tua família perto daqueles que não veem a tua família como uma família?

Como seguir com a vida perto dos teus pais se o que eles querem mais que tudo é que você NÃO MOSTRE PARA NINGUÉM quem você é?

Eu verdadeiramente acho que esses pais (nossos pais) nunca planejaram se tornarem pessoas tão feias e mesquinhas.

Eu realmente acho que um dia eles olharam para nós na maternidade e prometeram nos amar da forma mais linda e fiel. Tenho certeza que juraram fazer de tudo o que estivesse ao alcance deles para nos fazer feliz (e é provável que eles tenham feito isso por muitos e muitos anos).

Mas aqueles jovens se perderam em suas próprias expectativas. Nas regras religiosas que aprenderam, no medo do que os outros vão pensar, no desejo de que você fosse alguém que pudesse compensar todos os sacrifícios que eles fizeram por você (e é muito provável que você seja!).

E nós, nós aprendemos que às vezes, estar longe dói menos do que estar perto.


--

* Se você é mãe ou pai de homossexual, converse com o(a) seu(sua) filho(a). Ele(a) te ama. E tudo o que ele(a) quer é te ter por perto. 

Não deixe que o amor que ele(a) sente por você seja substituída pela dor da não aceitação. É preciso deixar que o amor vença! Deixem que o amor vença!


** Aos que não são aceitos: te juro que um dia, os sorrisos serão mais fáceis e as lágrimas mais raras. que a dor transforma-se em fortaleza. que a vergonha transforma-se em orgulho. que a vida te dará muitas mãos e colos e muitos, muitos sorrisos. 


> Para aqueles que ainda estão no armário, recomendo este áudio: http://paradalesbica.com.br/2012/09/devo-me-assumir-quando-como/comment-page-1/

E este texto: http://paradalesbica.com.br/2009/04/de-dentro-do-armario/

sábado, 22 de junho de 2013

A conquista de um coração

É que sempre buscamos maneiras de nos sentir melhor.
De curar o machucado. De dizer que ‘tudo ficará bem’.

Tentamos, de novo e de novo, nos convencer de que aquela pessoa que tanto nos machucou verá o quão injusta foi, perceberá que não pode viver longe de nós e nos quererá por perto.

(Aqui, veja, a dor de cada um(a) fala:

para mim (e para muitos, infelizmente) são os pais que não aceitam ter uma filha homossexual; para você pode ser o amor a quem você tanto se dedicou e que, no fim, não deu certo; para outro(a) pode ser ainda a traição de um(a) amigo(a), de um irmão, ou de qualquer pessoa a quem você confiou o seu coração. Pode ser ainda o dolorido extremo de todas essas dores misturadas.)

A verdade é que não se pode sair imune da vida.
Ela cria marcas em nós: é sua principal e mais visceral característica.

A vida nos marca.

Às vezes essas marcas nos amarguram.
Às vezes, se seguimos a batalha, a amargura só chega em dias ruins.

No entanto, é justamente a brutalidade da vida – que nos atinge tão covardemente – que cava o nosso interior para aquilo que é mais bonito em um ser humano: a sua fragilidade.

Cada um(a) que esteve lá sabe: é aquele sentimento contínuo de desespero e angústia, aquela dor circular que não lhe deixa nem por um momento, por mais que você tente ocupar sua mente com outros assuntos.

É algo tão exaustivo que a vontade que se tem é a de correr de si mesmo, numa fuga frenética de não-ser você: e a também dor da consciência de que não há como fugir daquilo que te bate no peito.

Ainda assim é preciso inspirar fundo: veja: é nesse ponto de dor que está tua carne, teu sangue: aquilo que te faz, mais do que nunca, humano(a).

Superar-se é a coisa mais difícil que alguém pode fazer.
Justamente porque a superação-de-si dá-se nesse ponto interno tão profundo: nessa fragilidade tão dolorida que te consome.

E aí vem a grande questão: como se cala uma dor tão grande?

E a verdade você já sabe: não se cala.
Ela grita de tuas entranhas porque ela é tão grande quanto você.

Eis a questão: a intensidade do que tu sentes é a tua intensidade.
Você (que não sabe) é gigante de si mesmo(a).

Então a dor precisa, de fato, doer.
Ela te mostra teu maior medo: te joga na cara teus pesadelos: te rodopia – tonta – todo o teu caos.

E é aí que ela te ilumina: ao te mostrar teu caos.
Ao te apontar o ponto no qual precisa começar tua re-organização de si.

Coração dilacerado é coração que sangra: e sangue é mensagem.
Nada mais que isso.
Sangra-se para se saber que a tua edificação base precisa ser reestruturada.
Sangra-se para que você entenda que não é ali que está a tua base: que não é ali que reside a tua segurança ou a tua força.

Veja: o que você mais temia perder você já perdeu.

A vida permanece.
Quase como uma piada sem graça a vida te grita dizendo: “E aí? O que você vai fazer agora?”

Essa é a pergunta mais corajosa e cruel que podemos fazer a nós mesmos(as).

Corajosa porque, naquele exato momento, estamos enfrentando um tipo de solidão há muito temida: a solidão do não-amor.

Cruel porque a resposta dessa pergunta é e sempre vai ser a mesma: continuar andando.

Você pode dizer: “Não, vou ficar parado(a) aqui, não tenho porque continuar, estou cansado(a) e sem forças”.

Mas aí eu teria que te sussurrar uma afirmação que por dentro você já sabe: “Não escolher já é fazer uma escolha.”

Não há como fugir, entende?
Quando a carne viva do teu coração se faz aparente é justamente para te implorar que você enxergue (coragem!) algo que já estava ali: aquele desfecho foi construído.

Nenhuma realidade aparece magicamente: é fruto de meses, de anos, de escolhas e entendimentos feitos ao longo do tempo.

E não é uma questão de entender que teu coração não mais pertence àquele lugar: é justamente o contrário: é perceber que você tem que continuar SEM a parte do teu coração que ali ficou.

Agora é hora de soltar todo o ar dos pulmões e enchê-los com novo ar: é hora de digerir vagarosamente essa dor tão grande quanto você: de entender que a base da tua edificação precisa retornar ao seu ponto de origem: é hora de voltar-se para si.

Não há receita para isso.
É uma auto-aprendizagem cotidiana.
Um auto-confiar-se vagaroso e contínuo.

É conhecer cada pedaço dessa dor tão grande e ir administrando pedaço por pedaço: até que tudo tenha sido visitado, sentido e, por fim, conquistado.

Sim, tua dor precisa ser conquistada.
Como uma terra nova e brutal que precisa ser explorada para que se aprenda a sobreviver nela, para que se possa vencê-la antes que ela lhe vença.

A dor mais temida no fim é apenas isso: território que você precisa conquistar para, entre lágrimas e sorrisos, fincar sua bandeira vitoriosa.

E aí então você entenderá o que precisava ser entendido: são teus pés os responsáveis por teu caminho.

Vai.
Chora.
E, depois de chorar, seja feliz.
Um coração partido não deixa de ser um coração: há muita vida ainda a esperar por ti.
Vai.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Conto "O Beijo" no Parada Lésbica

Pessoalzinho querido,

Ando me aventurando por novos caminhos.
Acabei de postar o meu primeiro conto lá no site Parada Lésbica.

Vai lá me dar sua opinião? ^^
É só clicar AQUI.

Beijos!

terça-feira, 5 de março de 2013

Sozinha(o) ou acompanhada(o)


“Eu quero a sorte de um amor tranqüilo” – canta a música do Cazuza.

Mas há que se refletir: embora automaticamente pensemos em romance quando escutamos esse “amor tranqüilo”, será que é só na(o) outra(o) que encontraremos esse tipo de amor?

Claro: é maravilhoso ter sorte no amor!
É absolutamente encantador estar ao lado de uma pessoa que te ajuda na tua felicidade, que contribui para o teu sorriso, que encanta os seus dias de uma alegria estimuladora.

Amar é maravilhoso.

Mas aí é que está: amar É para ser maravilhoso!

No amor, o que sentimos é um abraço completo: que nos afaga e ao mesmo tempo nos liberta, que nos dá segurança e ao mesmo tempo é alegria, que nos recebe por completo – com todos os pormenores que nos fazem.

Por isso mesmo é preciso reconhecer o amor.

Algo que um dia foi amor, hoje já pode não ser.
E aí está uma das maiores dificuldades que as pessoas enfrentam: libertar-se de um amor que já não é.

Entenda: amar é verbo múltiplo e circular. 
Precisa-se de quem ame e de quem receba esse amor e dê amor de volta.

Amar sozinha(o) é ideologia: é estar-se preso a uma fantasia, a algo que não é.
E “estar-se preso” não faz parte do amor! Estar com uma pessoa não é estar em uma prisão. Pelo contrário.

Amar é algo encantador: algo que te impulsiona para frente, que te faz entender toda a fortaleza e possibilidades que você tem dentro de si, algo que te mostra que você pode sim enfrentar o mundo e vencer!

E não é que aquela fortaleza não estivesse dentro de você antes: mas é que o amor traz lucidez à alma.

No entanto, a fonte de amor, ao contrário do que o que se possa pensar, é sempre a pessoa que ama – e não a pessoa amada.

Por isso é que o amor mais importante de todos – e de onde todos os outros nascem – é o amor próprio.

Por mais piegas que isso possa parecer, por mais “auto-ajuda” que soe, é nesse amor que você encontrará o equilíbrio para reconhecer o que é ou não amor.

Veja: amores acabam.

E não é que eles tenham sido em vão, ou que eles não foram amor de verdade!
É que todo amor só existe o tempo suficiente para transformar os que amam.

Se a transformação cessou, também cessará o amor.
Se não há mais como transformar a pessoa: será o sentimento que irá se transformar em outra coisa.

Isso porque amar é sempre um somar-se. A partir do momento em que o amor se transformou em divisão ou subtração, já não é mais amor.

Perceber o fim desse amor é uma das resoluções mais dolorosas que possam existir.

Isso porque amar é também como encontrar um país que é só seu e da pessoa amada. São só vocês que habitam esse país.

E muitas vezes, quando o amor se quebra, uma das pessoas sai desse “país” sem que a outra esteja pronta para sair também.

E lá se fica, sozinha(o), em um país abandonado e deserto.
Onde todas as lembranças boas são agora martírio do que já não se tem.

É nessa hora que se precisa iniciar uma busca interna do amor original: o amor por você mesma(o). É esse amor que lhe dará forças para deixar esse “país” abandonado e voltar ao seu canto, ao seu equilíbrio, às possibilidades e sorrisos que ainda são seus.

Há também a ilusão de um amor: essa é perigosa e solitária: pois é um amor que não é e que a pessoa teima em pensar que é.

Veja: amor é terra frutífera.
Basta lançar semente e ele se desenvolverá.
A pessoa que está destinada a receber seu amor o receberá com felicidade e saberá lhe amar de volta.

Não vale se só você emana amor. Não vale se todas as tuas investidas terminam em frustração e dor. Não é assim que o amor funciona.

Sei que às vezes a dor é justamente imaginar que você não terá um amor.

Mas lembre-se: amar é verbo múltiplo e circular.
E porque nasce em você: amar é casa.
Por ser casa, é necessário que você cultive sua paz.
Amor nenhum nasce do desespero e da sede.

O “amor tranqüilo” nasce justamente do estar-se tranqüilo.
Não busque aquilo que já está destinado a te encontrar.

Ele te encontrará quando for a hora.
Assim como ele te libertará quando for a hora.

Sozinha(o) ou acompanhada(o) o mais importante é que você cultive a sua paz, o seu amar-se, o seu entender que se tudo parte de você, é você quem tem que ser o ponto de equilíbrio. É você quem precisa amar-se e respeitar-se o suficiente para entender o que (já) não é amor.

Não se permita estar-se presa(o).
A liberdade é necessária para que você possa continuar caminhando.
É na liberdade que o amor floresce (inclusive o seu amor por si). 

 E lembre-se:
“Aquilo que você procura, também está te procurando”
“What you seek is seeking you.”
- Rumi

O mais importante é que, sozinha(o) ou acompanhada(o), você saiba reconhecer sua paz.

Ninguém encontra nada no desespero.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Você e você: sobre a qualidade da sua vida


Todos nós temos dias bons e dias ruins, certo? Todos nós passamos por desafios e provações e dificuldades que às vezes nos fazem ter a impressão de que estamos vivendo um verdadeiro pesadelo. Assim como todos nós temos dias que são bons, dias em que conseguimos até encontrar bons sorrisos e quem sabe até deliciosas gargalhadas.

O que seria então “qualidade de vida”?

Ter qualidade de vida é tentar encontrar,dentro da sua realidade de vida, formas de viver melhor.

Parece que a vida é uma só, não é? Parece que todo mundo está vivendo essa mesma coisa que chamamos de vida. Mas não é bem assim não.

Eu estou vivendo a minha vida. Você está vivendo a sua vida.
E cada vida tem peculiaridades que lhe são próprias.

Vou chamar a Clarice Lispector para conversar conosco que não há coisa melhor:

"Criar de si próprio um ser é muito grave.
Estou me criando.
E andar na escuridão completa de nós mesmos é o que fazemos.
Dói. Mas é dor de parto: nasce uma coisa que é. É-se."

É isso, entende?
VOCÊ ESTÁ SE CRIANDO!

Quando as coisas acontecem com você, você tem uma escolha: a escolha de como agir perante o que lhe aconteceu.

E como você age?
Se você for como a maioria, às vezes você age bem e às vezes você age mal.
Às vezes você toma a decisão correta, às vezes não.
Às vezes você consegue vencer o medo, às vezes não.

Mas é preciso que você pense em uma coisa: sei que você fica esperando a hora exata de estar pronta: mas acontece que você, agora mesmo no momento desta nossa conversa, está ‘se aprontando’.

Estar pronta é processo: é um ‘se criar’: é, como disse a Clarice, um parto.
E todo parto só vem depois de um tempo de gestação.

Então pense nisso: você é gestante de você mesma.
Sim, você está preparando a pessoa que você é.
Você está se gestando a cada dia e momento da sua vida.

E a sua vida? Como anda?

Eu sei que você tem as suas lágrimas, que você tem os seus medos: que de tão, tão enterrados, já criaram raízes tão fortes que não lhe deixam sair do local em que você está.

E sei também que você sonha com coisas que ainda não estão na sua vida: com possibilidades que ainda não se tornaram possíveis.

Mas, honestamente, há coisas que só podem acontecer dentro do tempo.
E, para essas coisas, temos que deixar justamente que o tempo resolva.
Então, por favor, se preocupe apenas com o que cabe a você resolver.
O que é de responsabilidade do tempo, deixe à ele essa responsabilidade.

E aí é que você deve pensar: agora, neste momento, o que VOCÊ pode fazer para melhorar a SUA vida?

Não estou falando da sua mãe, do seu pai, do seu irmão, do seu filho, ou da sua filha, ou da sua avó: ESTOU FALANDO DE VOCÊ E DA SUA VIDA.

Só você sabe a sua realidade. Só você sabe os seus limites e que limites devem ser respeitados e quais devem ser ultrapassados.

Mas sua vida pode sim ser melhor: você sabe disso.

Então o que está faltando?


Mais dinheiro? Mais tempo? Mais amor? Mais liberdade? Mais paz? Mais saúde?


O que está faltando?
E o que você pode fazer para ir atrás disso?

Porque é isso, entende: a gente fica enviando para o Universo as nossas preces e desejos e nos esquecemos que nós somos também parte integrante desse Universo.

É nossa responsabilidade também ir atrás de conseguir o que queremos.


É nossa responsabilidade também saber o que não queremos mais e ir atrás de meios que nos permitam construir uma nova realidade.

O Universo é você, querida.
O SEU PARTO É SEU!

Sua mãe pariu um bebezinho.
Você NÃO é mais esse bebezinho.

Essa mulher aí que você é, ela, ela depende somente de você mesma.

Olhe ao seu redor, está bem?
Avalie direitinho que você gosta e o que você não gosta na sua vida.
Depois, veja o que você pode fazer para melhorá-la.

Não abaixe a cabeça e pense que você tem a obrigação de agüentar tudo o que acontece na sua vida. Não pense que tudo é uma provação e que um dia passará.
Nem espere que, magicamente, o Universo vá resolver tudo no futuro.

Nossa grande falha é justamente falhar em ver que a nossa vida é construída pelos sim’s enão’s que damos ao longo do caminho.


Então vá atrás de saber que sim’s e que não’scontinuam a valer a pena, está bem?


Faça esse parto: nasça, cresça, seja feliz.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O perigo de não ser-se


É preciso que você perceba uma coisa essencial a respeito da sua vida: ela não será fácil.

Existirão dias em que você colocará tudo em questionamento: Será que estou no caminho certo? Por que todos conseguem ser feliz e eu não? Como ser quem eu sou e não sofrer as conseqüências? Como seguir o caminho que quero, e não magoar os que estão à minha volta?

A necessidade de ser-se, enquanto indivíduo, nos coloca sempre dentro de questões existenciais.

Isso acontece porque o caminho de cada uma de nós é, realmente, decidido à cada passo que damos. A cada vez que escolhemos fazer isso e não aquilo, dizer isso e não aquilo, calar isso e não aquilo.

Entenda: somos seres fragmentados. Somos feito da soma de muitos pedaços.

No entanto, esse “todo” que nós somos, nem sempre é a soma real de nós. A razão disso são os pedaços de nós mesmas que teimosa e dolorosamente enterramos para o mais profundo do nosso ser.

Ser-se, querida, ser-se de forma inteira, é sempre um desafio.

E todo desafio ou é encarado ou não.
Não há meio termo.

O perigo se encontra no tanto de tempo que se passa vivendo uma vida que não é sua. Calando coisas que deveriam ser ditas. Dizendo coisas que não são as que ecoam de dentro de ti.

Isso porque, quando usamos muitas máscaras, à noite, em frente ao espelho, nos sentimos a mais violentada de todas as criaturas. Veja: passamos o dia inteiro a interpretar, a esconder nossa essência, a teatralizar um espetáculo grotesco.

E sentimos o peso disso.

Acredito que o nosso desenvolvimento enquanto ser está diretamente relacionado àquilo que nos permitimos sentir e vivenciar.

Se você se nega a sua própria vida, seus próprios sonhos, de quem é a vida que você está vivendo? De quem são os sonhos pelos quais você está lutando? De quem é o tempo que você está usando?

Ser-se talvez nunca seja totalmente pleno.
Porque sempre vamos fazendo concessões pelo caminho.

Claro, se escolhemos uma estrada, é lógico que, nesta escolha, deixamos de optar por outras várias possíveis.

Mas o que não pode deixar de existir é a constante tentativa de ser fiel a você e ao que você sente. 
É esse o processo mais importante de qualquer existência.

Reflita, pondere, analise. Pontue as conseqüências antes de agir.
Mas, ao fim do dia, saiba olhar no espelho e ser sua.
Inteiramente sua.

Ser-se é o regozijo máximo da experiência individual.
É o clímax do seu caminho terrestre.
É a maior responsabilidade que você pode ter para consigo.

É o seu legado, o seu tesouro e a maneira mais nobre de escrever uma história que seja verdadeiramente sua.

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Para reflexões sobre se assumir, clique AQUI.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

As dores de outrora


 Elas permanecem com a gente, sabe?
Nos cutucam, nos inquietam, nos aperreiam o juízo.

Vêm de fininho e conseguem se tornar gigantes em pouco tempo.

Elas ressurgem das cinzas mal-curadas para virem como um enorme turbilhão fazer tudo em carne viva novamente.

As palavras ditas, os gritos proferidos, as traições, o desamor, a falta de apoio, as facadas na alma daqueles que mais deveriam te apoiar... tudo isso chega de repente, retornando à superfície depois de um tempo em submerso.

E aí, você que não estava preparada para viver tudo isso de novo, você que foi pega desprevenida, você que pensava que já não doía, se vê de repente tão frágil e machucada que toda a tua existência te dói.

De repente, continuar é o teu maior desafio.
De repente, acreditar no amanhã é a coisa mais difícil do mundo.
De repente, tudo o que há pouco tempo fez sentido, agora já não faz mais.

Mas a questão que cabe a tudo isso é na verdade bem simples, minha querida: tuas dores te formam. Você teima em não lidar com elas, mas na verdade enquanto você não as assumir elas serão a tua essência.

Você pode até escondê-las de tempo em tempo, você pode até conseguir enganá-las, se ocupar o suficiente para desviar o foco delas, mas elas sempre estarão ali, pulsando em um canto de você, prontas para, quando você menos esperar, chegarem de supetão com toda a intensidade de sempre.

Nossas dores, queridas, são nossas mensagens de vida.
São elas que, olha só, devem reger nossas escolhas e caminhos.

Explico: escolher a não-dor é justamente ter que enfrentar a dor.
E enfrentar a dor é precisamente crescer além dela.

Esta é a única maneira.
Sua dor tem que virar caminho para então ser ultrapassada.
Virar, de fato, passado. Cicatriz, marca da luta que você um dia travou – e venceu.

A dor de outrora é a dor de hoje – se você ainda não mudou o que precisa ser mudado, se você ainda não cresceu o que precisa ser crescido, se você ainda não enfrentou o que precisa ser enfrentado.

E sabe o que é mais intrigante ao teu respeito?
Todas as armas necessárias para que você ganhe a sua batalha estão exatamente aí dentro de você! Apenas é necessário que você as acesse, que você as agarre, que você acredite o suficiente em você e no que a vida ainda reserva para ti.

Trata as tuas dores.
Elas te gritam o caminho.
Elas te destacam o que precisa ser mudado.
Elas ilustram o teu desespero por uma nova vida, por novos caminhos.

Teus pés esperam isso de você: que você verdadeiramente caminhe!

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Estou de volta, pessoal!
Obrigada a todas que me aperrearam para voltar!
Beijos! :*