sexta-feira, 31 de outubro de 2008

| carente |

...porque hoje é sexta-feira e eu ainda não estou em São Paulo :/


| o dedo |

O dedo movia-se ansioso.
Sabia o caminho.
Seguia a buscar a umidade que lhe faltava.
O dedo. O dedo amava.
O dedo doava-se ao escuro: clamava por acariciar, por atender ao chamado que, sem ouvidos, ouvia.
O dedo cumpria a missão do amar-sem-jeito.
Como um recurso de diálogo aonde não são permitidas as palavras.
Ao dedo, restava entregar-se à sua função rotineira, como as especialidades que todos têm e que não entram nos currículos.
Em que o dedo era bom? Ser dedo.
E assim tornava-se superior ao resto do corpo que habitava.
Corriqueiro, como um bom amigo, o dedo furtava seu caminho entre as cobertas: conhecia tudo.
E orgulhoso de sua segurança, o dedo movia-se como ao vento, leve e brincalhão.
O dedo tocava com um desdenho natural: fora criado para o toque.
E por isso mesmo era especialista: era seu próprio diploma.
E o que não soubesse, curioso, inventava.
E arrastava-se então pela pele úmida: ora lento, ora acelerado, a cochichar suas carícias e a arrancar confissões.
Cheio de alegrias guardadas, o dedo sorria seu sorriso nos lábios que tocava.


Martinho da Vila: Mulheres [porque samba é perfeição]



| cartum |
para fazer companhia:

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

| fidelidade |

Diz uma frase de Sartre que existir é beber-se a si próprio – sem sede. E é engraçado como a vida passa nossa existência inteira esperando que “nossa ficha caia” em relação a isso. Cá passamos nós, cada um, nove meses em um mundo submerso, sendo formados, camadas e camadas de células sendo criadas para que nos transformemos, ao final, numa vasilhazinha que chamamos de ser humano. Daí, depois desses nove meses absorvendo tudo sem ter a escolha de “sair dali” quando estivermos incomodados, quando pensamos que estávamos seguros e bem acomodados, vem aquele empurrão e lá vamos nós rumo ao desconhecido. E, apesar de aprendermos depois que tudo o que vivemos durante aquele período submerso vai nos acompanhar pelo resto da vida, não lembramos de nada do que experimentamos durante o casulo não: só sabemos que viramos borboletas.

Nos anos que se seguem, coitados de nós, tudo é necessário ser aprendido. Passamos tempos e tempos deitados em nossos berços olhando para nossos dedos, para nossos pés, para qualquer coisinha colorida que colocam na nossa frente. Um espelho? Nossa, horas vão embora com a gente inebriado com aquela imagem que se mexe junto com a gente. Aí, percebemos que o povo fala. Que tudo tem um nome. Que o povo anda. Que andar leva a gente para outro lugar. E lá vamos nós, embarcar nessa aventura de fazer o que outro faz. Naquela velha história de sempre: se ele(a) consegue, eu também consigo. Aí, ótimo, alguns anos se passam: já sabemos um monte de coisas, pensamos.

Tsc tsc tsc. Não basta aprender a falar não. Tem que aprender a escrever. Tem que ir pensando no que vai ser quando crescer. E não vale a resposta: vou ser grande, ué! Porque, depois aprendemos, ninguém nunca é grande, ninguém nunca está totalmente pronto, completamente formado. Aí começamos com as especulações, geralmente junto com as bonecas, com os carrinhos e o pega-pega: vou ser aeromoça, veterinária, médica, piloto de avião, piloto de fórmula um, astronauta, cientista, vou ser igual ao meu pai!

E o tempo passa e percebemos a grande função dos sonhos: fazer com que alcancemos coisas que não alcançaríamos se não tivéssemos sonhado. E percebemos que a vida brinca de amarelinha conosco o tempo inteiro: às vezes estamos no céu, às vezes naquela outra extremidade. E aprendemos, com o passar do tempo, o que nos faz sorrir, o que nos faz chorar, o que nos deixa triste, o que nos deixa com raiva, o que nos cansa... Aprendemos a abrir mão de uns sonhos, para poder ter outros. Aprendemos a aprender com nossos erros.

Quando temos sorte, temos a iluminação de tirar uma conclusão essencial sobre a vida: ela é um conjunto de experiências. E nós estamos aqui para experimentá-la mesmo. Para aprender sempre. Para descobrir caminhos. Para saber voltar atrás. Para tirar conclusões e saber que, mesmo essas conclusões, podem ser mutáveis. Estamos aqui para entender que sempre podemos nos descobrir certos, e sempre podemos nos descobrir errados. Estamos aqui para tentar entender os vários por quês que nos aparecem. Estamos aqui para saber a hora de desencanar, de deixar ir, de parar de se preocupar. Aprendemos então que nem tudo depende de nós. Que somos pequenos. E que, às vezes, temos a oportunidade de sermos grandes, de tocarmos outras vidas, de darmos as mãos.

Percebemos que passamos a vida toda nos educando. Construindo e desconstruindo o que sabemos. E nossas experiências são tudo. O ficar parado e o agir, o falar e o calar, o andar e o sentar, o entender e o não-entender, o chorar e o sorrir, o dar a mão e o não-dar, o desculpar e o não-desculpar, o tentar e o não-tentar. Não se vive sem ter experiências. Experiências são como escolhas: o próprio fato de não fazer uma escolha, já é uma escolha.

E nossas experiências nos fazem aprender o que é apropriado e o que não é, quando devemos seguir as regras do mundo social e quando não devemos. Nos fazem ser, a cada dia, um pouco mais sábios. Mas, mais que tudo, a grande função desse nosso viver constante é, a meu ver, aprendermos o tipo de fidelidade mais importante e imprescindível que existe: a sermos fiéis a nós mesmos.


|| Hoje o Cartum é do perfeito Quino, criador da Mafalda - por quem sou estabanadamente apaixonada ||







clique na imagem para ampliar

E para descontrair mais, o hino de auto-respeito mais perfeito que existe:

Para quem nunca prestou atenção na letra: http://www.arenamusical.com.br/letra.asp?id=10220
| não é a melhor tradução, mas eu sou suspeita para falar disso...|



* texto antigo. mas sempre bem-vindo.
Sapatilha na gaveta: sem-tempo-para-nada, eu :/

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

| o tal do amor acidental |

A questão é que nós nos achamos uns sabidos. Todos nós. Homens e Mulheres.
Achamos que sabemos das coisas.

Andamos por aí com nossos dois pés e coluna reta e cabeça erguida e braços ao lado do corpo como se fôssemos realmente os seres mais evoluídos desta Terra.

Agarramos objetos com nossas mãos com polegar sem nem percebermos a importância de segurar algo. E do algo que se deixa ser ‘segurado’.

Eu sou suspeita, claro, mas ainda acho que dos seres que são humanos as que têm melhores olhos são as mulheres. Os bons exemplares desse nosso gênero encantador conseguem ver coisas pequenas: as coisas que necessitam realmente serem vistas.

Ainda assim, acredito eu, que muito devemos ao acaso: essa série de fatos da vida que vai nos levando por vários caminhos e que nos faz chegar ao ponto exato em que chegamos.

Amo isso.
Amo ter a consciência de que somos como pequenos grãos ao vento: o próximo minuto está aí: para mudar tudo.

E acho que o amor é isso.
Esse desejo comum de todas nós de sorrir sorrisos cúmplices, de olhar para aquela mulher sem nem conseguir acreditar que ela é realmente o seu amor, a capacidade de se sentir tão em casa que a presença daquela pessoa vira Lar. Isso é o amor.

E ele é, já aprendi, totalmente acidental.
Claro que para quem acredita que tudo na vida acontece por uma razão, a palavra ‘acidental’ talvez nem faça tanto sentido.

Mas explico: é acidental porque é semente.
Todo amor começa como semente.
E semente, já sabe, fica debaixo da terra, sem ninguém ver, até que um dia, decide acordar.

E quando acorda, acorda timidamente, se espreguiça devagar, faz toooodo um caminho até chegar à superfície. E, ainda, quando aparece, chega desconfiada, solta só um galhinho, uma folhinha, um raminho.

E a partir daí, tudo depende.

Depende da água que regará essa muda, depende do sol, depende do vento, depende do solo que segura a raiz, depende dos perigos que a ex-semente-presente-plantinha-e-talvez-futura-árvore enfrentará.

O amor acontece acidentalmente porque cada um de nós é um acidente esperando acontecer. E eu sei que estamos acostumadas a ler a palavra ‘acidente’ como algo ruim, mas na verdade, queridas, o rompante que sentimos de súbito quando soltamos uma gargalhada gostosa é justamente um acidente.

Todo riso é um acidente que acontece nos lábios.

Eu, de cá, caminho muitas vezes distraidamente, torcendo intimamente para um acidente delicioso acontecer.

|| Cartum ||














* Dana e Alice:
http://www.youtube.com/watch?v=KclTlPncpLs

E mais do mesmo: que eu adoro desenho animado! :]

terça-feira, 28 de outubro de 2008

| o beijo da maria |

Maria. Maria. Nome encantado. Um nome curto, mas que é para ser dito longamente: M-a-r-i-a. Esse é o nome dela: uma espanhola que mora em Veneza e trabalha em Florença. Uma espanhola que falava inglês comigo enquanto queria que eu falasse em português com ela.

Maria tinha olhos azuis. E era toda feita de açúcar. Falava comigo me adocicando. Tocando de leve no meu ombro. Buscando minha mão. Maria escutava inclinando a cabeça e apertando os olhos: como se querendo entrar em mim. Ah, Maria...

Maria foi a Itália para mim.
E Veneza se transformou em Maria, mesmo que eu a tenha conhecido em Florença.

As melhores coisas da vida chegam quando não estamos olhando.
E Maria foi assim. Quando vi, ela já estava ao meu lado perguntando de onde eu era.

Alta como eu, Maria me olhava nos olhos: o escuro encontrando o azul: uma mistura que divide o tempo. E Maria dividiu meu tempo: uma antes de Maria, outra depois de Maria.

Conversamos tendo apenas como testemunha a catedral de Florença: sentadas nas escadarias sorrimos muitos aleluias. Em frente aquele prédio centenário juramos doçuras, dividimos confidências, ensinamos pensamentos. Na caminhada para o centro de Florença era difícil andar lado a lado: a presença dela me puxava, a minha pele pedia a dela. O sorriso de Maria me fazia sorrir: multiplicava minha alegria.

O que fazer quando só uma noite existe?
Quando o tempo precisa parar e, cruel, ele não para?

Fizemos o que podíamos: vivemos-cada-minuto-daquela-noite.
Fechamos os olhos e sonhamos. Mesmo sabendo que iríamos acordar logo logo.

Depois de conhecer sentimentos, não há mais roupas nos corpos: conhecer a pessoa é ficar nua de alma: toda a sua fragilidade está ali: exposta.

E assim ficamos uma para a outra. Maria e eu.
E depois de estarmos ao avesso, olhamos mais uma vez nos olhos uma da outra.
Mas dessa vez já não éramos olhos castanhos e olhos azuis: éramos duas mulheres sonhando o mesmo sonho em Florença.

E eu, que sempre tomo iniciativas, estava tão adormecida com o doce de Maria que só podia mesmo olhar para ela: a presença dela me alimentava: e eu a queria fotografar com meus olhos: ter aquele doce para sempre – para que ele me socorresse nos tempos amargos.

E foi assim que vi Maria se aproximar lentamente de mim.
E aquela cena não coube no tempo do relógio: o corpo de Maria veio devagarzinho para junto do meu corpo: o rosto de Maria foi chegando perto do meu. Os olhos azuis de Maria me olhavam tão de perto que não eram mais olhos: eram só o azul.

E os lábios de Maria encontraram os meus. E viramos então duas bocas: duas bocas que se abraçavam e se apertavam e se provavam.

Nossos cabelos se misturavam: o dourado e o negro brincavam de colorir nossas blusas. E a mão de Maria no meu pescoço me pressionava o suficiente para me lembrar: parece, mas não é um sonho.

E foi assim que Maria virou música para mim: e basta que eu feche os olhos para ver nos meus olhos o azul dos seus.


|| Cartum ||















Elis: Maria, Maria


The Sound of Music: How do you solve a problem like Maria?

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

| A DESCOBERTA OU VIRANDO BORBOLETA |

Tudo o que é grande começa devagarzinho. Pequenino, pequenino. Repetido. Timidamente você escuta uma voz lá longe... percebe algo. Esquece que percebeu. A voz teima, teima... vai crescendo teimosa: até que você começa a escutá-la.

Primeiro, como um sussurro.
E o sussurro, já sabem, acelera o coração.
Dá medo. Um medo tipo esconde-esconde: ora excitante, ora verdadeiramente assustador.

E você distrai a mente, pensa em outra coisa, se ocupa. Daqui a pouco, finge que esqueceu. Mas finge tão descaradamente que a máscara um dia cai e a voz – que nunca desistiu de sussurrar – é escutada.

E aí é como quando a gente derruba o prato de comida: um barulho horrível e uma bagunça grande acontece dentro da gente.

O passo seguinte é perceber essa bagunça e lidar com ela.
É ter a consciência que se você deixar lá o prato quebrado e a comida no chão as coisas só irão piorar...

Daí você vai trabalhando isso na sua cabeça. Da sua forma e velocidade. E chega um dia – se você for amigo verdadeiro de si mesmo – que você está pronto pra fazer essa grande faxina. Daí você respira fundo e começa a enfrentar essa coisa-enorme-e-teimosa que é “a voz lá de dentro”, que é o seu sentir.

Para mim foi assim: um processo.
Foi não: está sendo.

Ainda é tudo muito novo e ao mesmo tempo é tudo muito antigo.
Antigo demais até.

Gosto de pensar que nós, seres-coloridos; nós, mulheres-sapatilhas, somos seres encantados, que passam por diferentes estágios de encantamento ao longo da vida:

|| algo como:

~ temos a fase de MINHOCA:

Rastejamos de vagarzinho, olhando tudo muuuuito lentamente, nos alimentando e esperando pacientemente por uma outra vida, uma outra existência, uma versão de nós mesmas que está guardada: uma versão mágica em que olhemos para o espelho e nos reconheçamos por fora, como nos vemos por dentro. Olhamos para nosso corpo de minhoca e não gostamos: há algo errado, há algo que não bate, que não é como deveria. Esse incômodo vai crescendo até que por fim estamos prontos para entrar na fase seguinte.

~ temos a fase de CASULO:

Já percebemos que não temos vocação para minhoca. Já nos tocamos que somos diferentes. Que é hora de contar a verdade pelo menos para nós mesmas: há outra versão de nós que é muito mais bonita, porque é a nossa versão verdadeira. E aí sabe o que fazemos? Preparamos um casulo aonde possamos, pouco a pouco assumir nossa beleza.
A fase do casulo é mais longa, porque é uma fase-carregador: temos que fortificar a coluna, temos que construir uma auto-base, uma auto-edificação-de-si-mesma. Temos que dar em si mesma um abraço loooongo, um abraço constante, um abraço eterno. Temos que perceber que somos fortes, que agüentamos o tranco, que somos especiais porque damos conta de sermos assim.

| a fase do casulo é a fase de construção. Ela pode ser super rápida para alguns, e muuuuito longa para outros. o mais importante é respeitar essa fase. é ela que vai lhe dar forças para a fase seguinte.

~ temos a fase da BORBOLETA:

A fase da borboleta acontece quando estamos prontos para deixar o casulo. Isso não significa necessariamente assumir para todos: significa assumir principalmente para você mesma. A fase borboleta é mais bela: você olha no espelho e se reconhece: você sabe da sua beleza e do seu colorido.

| como todo ser que voa, aprendemos, que nem-tudo-são-flores. Há muitas redes aí de colecionadores de borboletas: pessoas que não querem que você voe, vendavais que lhe arrastam de sua direção, chuvas torrenciais que ensopam suas asas, águias que tentam lhe capturar e lhe ferir.

É hora de ser forte. De ter mais do que nunca, certeza da borboleta linda que você é. Do encantado do seu colorido. Da sua capacidade de voar enfeitando o ar com rodopios.

É hora de saber por onde voar: que vôos lhe trarão sorrisos, que vôos lhe trarão dores. É hora de pousar só em árvores conhecidas. É hora de perceber que você voa porque é seu destino voar: mesmo que outros seres não entendam nada sobre vôo.

É hora de ter orgulho de ter conseguido ser quem você sempre esteve predestinado a ser: uma linda borboleta colorida.

E sabe o quê?
- O que é um campo de flores sem borboletas voando sobre elas?

Nós, queridas, nós somos a poesia que voa com o vento.
E essa certeza não podemos esquecer jamais.

|||| apresentando, a Sapatilha. Personagem que criei e que me acompanhará nessa dança-descoberta:













E para fazer pensar: