quinta-feira, 30 de outubro de 2008

| fidelidade |

Diz uma frase de Sartre que existir é beber-se a si próprio – sem sede. E é engraçado como a vida passa nossa existência inteira esperando que “nossa ficha caia” em relação a isso. Cá passamos nós, cada um, nove meses em um mundo submerso, sendo formados, camadas e camadas de células sendo criadas para que nos transformemos, ao final, numa vasilhazinha que chamamos de ser humano. Daí, depois desses nove meses absorvendo tudo sem ter a escolha de “sair dali” quando estivermos incomodados, quando pensamos que estávamos seguros e bem acomodados, vem aquele empurrão e lá vamos nós rumo ao desconhecido. E, apesar de aprendermos depois que tudo o que vivemos durante aquele período submerso vai nos acompanhar pelo resto da vida, não lembramos de nada do que experimentamos durante o casulo não: só sabemos que viramos borboletas.

Nos anos que se seguem, coitados de nós, tudo é necessário ser aprendido. Passamos tempos e tempos deitados em nossos berços olhando para nossos dedos, para nossos pés, para qualquer coisinha colorida que colocam na nossa frente. Um espelho? Nossa, horas vão embora com a gente inebriado com aquela imagem que se mexe junto com a gente. Aí, percebemos que o povo fala. Que tudo tem um nome. Que o povo anda. Que andar leva a gente para outro lugar. E lá vamos nós, embarcar nessa aventura de fazer o que outro faz. Naquela velha história de sempre: se ele(a) consegue, eu também consigo. Aí, ótimo, alguns anos se passam: já sabemos um monte de coisas, pensamos.

Tsc tsc tsc. Não basta aprender a falar não. Tem que aprender a escrever. Tem que ir pensando no que vai ser quando crescer. E não vale a resposta: vou ser grande, ué! Porque, depois aprendemos, ninguém nunca é grande, ninguém nunca está totalmente pronto, completamente formado. Aí começamos com as especulações, geralmente junto com as bonecas, com os carrinhos e o pega-pega: vou ser aeromoça, veterinária, médica, piloto de avião, piloto de fórmula um, astronauta, cientista, vou ser igual ao meu pai!

E o tempo passa e percebemos a grande função dos sonhos: fazer com que alcancemos coisas que não alcançaríamos se não tivéssemos sonhado. E percebemos que a vida brinca de amarelinha conosco o tempo inteiro: às vezes estamos no céu, às vezes naquela outra extremidade. E aprendemos, com o passar do tempo, o que nos faz sorrir, o que nos faz chorar, o que nos deixa triste, o que nos deixa com raiva, o que nos cansa... Aprendemos a abrir mão de uns sonhos, para poder ter outros. Aprendemos a aprender com nossos erros.

Quando temos sorte, temos a iluminação de tirar uma conclusão essencial sobre a vida: ela é um conjunto de experiências. E nós estamos aqui para experimentá-la mesmo. Para aprender sempre. Para descobrir caminhos. Para saber voltar atrás. Para tirar conclusões e saber que, mesmo essas conclusões, podem ser mutáveis. Estamos aqui para entender que sempre podemos nos descobrir certos, e sempre podemos nos descobrir errados. Estamos aqui para tentar entender os vários por quês que nos aparecem. Estamos aqui para saber a hora de desencanar, de deixar ir, de parar de se preocupar. Aprendemos então que nem tudo depende de nós. Que somos pequenos. E que, às vezes, temos a oportunidade de sermos grandes, de tocarmos outras vidas, de darmos as mãos.

Percebemos que passamos a vida toda nos educando. Construindo e desconstruindo o que sabemos. E nossas experiências são tudo. O ficar parado e o agir, o falar e o calar, o andar e o sentar, o entender e o não-entender, o chorar e o sorrir, o dar a mão e o não-dar, o desculpar e o não-desculpar, o tentar e o não-tentar. Não se vive sem ter experiências. Experiências são como escolhas: o próprio fato de não fazer uma escolha, já é uma escolha.

E nossas experiências nos fazem aprender o que é apropriado e o que não é, quando devemos seguir as regras do mundo social e quando não devemos. Nos fazem ser, a cada dia, um pouco mais sábios. Mas, mais que tudo, a grande função desse nosso viver constante é, a meu ver, aprendermos o tipo de fidelidade mais importante e imprescindível que existe: a sermos fiéis a nós mesmos.


|| Hoje o Cartum é do perfeito Quino, criador da Mafalda - por quem sou estabanadamente apaixonada ||







clique na imagem para ampliar

E para descontrair mais, o hino de auto-respeito mais perfeito que existe:

Para quem nunca prestou atenção na letra: http://www.arenamusical.com.br/letra.asp?id=10220
| não é a melhor tradução, mas eu sou suspeita para falar disso...|



* texto antigo. mas sempre bem-vindo.
Sapatilha na gaveta: sem-tempo-para-nada, eu :/

5 comentários:

Mhary disse...

"Aprendemos a abrir mão de uns sonhos, para poder ter outros. Aprendemos a aprender com nossos erros."

:0)

83842384238 bjas

morgana disse...

'a sermos fiéis a nós mesmos.'

x)


Beeeeijooos.

Nia disse...

Helena menina!!! Não tinha pensado nisso não!!! Mas você me levou a pensar na sabedoria da vida... Se ficamos 7,8,9 meses nesse casulo e somos empurrados/jogados para fora desse casulo rumo ao desconhecido, então essa será a primeira prova que deveremos não temer o desconhecido e buscar a coragem necessária para redescobrir-nos Seres Humanos... Não é que a Helena também nos faz refletir sobre a vida??? Helena de Tróia também é símbolo de conhecimento... Parabéns pelas suas doces palavras.

Amanda G. disse...

É sempre bom acordar e começar o dia lendo um post seu![já que estou relendo o blog inteiro] É o que eu faço sempre... vc acrescenta tanto na vida de tanta gente, e nem se dá conta do bem que fazes na vida de cada um.
Beijos, querida!

Amanda G.

Luisaeadriano disse...

Olá ...Somos um casal com 20 anos de ligação 24 sobre 24 horas trabalhamos juntos e NUNCA fomos infiel um ao outro .Conhecemos varias formas de amar e de estar na vida .
Agora ser infiel para nós é quando a pessoa que está ao nosso lado pensa algo ...seja o que foi e não partilha .
Para nós a VERDADE acima de tudo .
Bjs .
luisaeadriano