terça-feira, 28 de outubro de 2008

| o beijo da maria |

Maria. Maria. Nome encantado. Um nome curto, mas que é para ser dito longamente: M-a-r-i-a. Esse é o nome dela: uma espanhola que mora em Veneza e trabalha em Florença. Uma espanhola que falava inglês comigo enquanto queria que eu falasse em português com ela.

Maria tinha olhos azuis. E era toda feita de açúcar. Falava comigo me adocicando. Tocando de leve no meu ombro. Buscando minha mão. Maria escutava inclinando a cabeça e apertando os olhos: como se querendo entrar em mim. Ah, Maria...

Maria foi a Itália para mim.
E Veneza se transformou em Maria, mesmo que eu a tenha conhecido em Florença.

As melhores coisas da vida chegam quando não estamos olhando.
E Maria foi assim. Quando vi, ela já estava ao meu lado perguntando de onde eu era.

Alta como eu, Maria me olhava nos olhos: o escuro encontrando o azul: uma mistura que divide o tempo. E Maria dividiu meu tempo: uma antes de Maria, outra depois de Maria.

Conversamos tendo apenas como testemunha a catedral de Florença: sentadas nas escadarias sorrimos muitos aleluias. Em frente aquele prédio centenário juramos doçuras, dividimos confidências, ensinamos pensamentos. Na caminhada para o centro de Florença era difícil andar lado a lado: a presença dela me puxava, a minha pele pedia a dela. O sorriso de Maria me fazia sorrir: multiplicava minha alegria.

O que fazer quando só uma noite existe?
Quando o tempo precisa parar e, cruel, ele não para?

Fizemos o que podíamos: vivemos-cada-minuto-daquela-noite.
Fechamos os olhos e sonhamos. Mesmo sabendo que iríamos acordar logo logo.

Depois de conhecer sentimentos, não há mais roupas nos corpos: conhecer a pessoa é ficar nua de alma: toda a sua fragilidade está ali: exposta.

E assim ficamos uma para a outra. Maria e eu.
E depois de estarmos ao avesso, olhamos mais uma vez nos olhos uma da outra.
Mas dessa vez já não éramos olhos castanhos e olhos azuis: éramos duas mulheres sonhando o mesmo sonho em Florença.

E eu, que sempre tomo iniciativas, estava tão adormecida com o doce de Maria que só podia mesmo olhar para ela: a presença dela me alimentava: e eu a queria fotografar com meus olhos: ter aquele doce para sempre – para que ele me socorresse nos tempos amargos.

E foi assim que vi Maria se aproximar lentamente de mim.
E aquela cena não coube no tempo do relógio: o corpo de Maria veio devagarzinho para junto do meu corpo: o rosto de Maria foi chegando perto do meu. Os olhos azuis de Maria me olhavam tão de perto que não eram mais olhos: eram só o azul.

E os lábios de Maria encontraram os meus. E viramos então duas bocas: duas bocas que se abraçavam e se apertavam e se provavam.

Nossos cabelos se misturavam: o dourado e o negro brincavam de colorir nossas blusas. E a mão de Maria no meu pescoço me pressionava o suficiente para me lembrar: parece, mas não é um sonho.

E foi assim que Maria virou música para mim: e basta que eu feche os olhos para ver nos meus olhos o azul dos seus.


|| Cartum ||















Elis: Maria, Maria


The Sound of Music: How do you solve a problem like Maria?

4 comentários:

Mhary disse...

:0) Maria Maria !!!!

842849384932 bjas

Anônimo disse...

Helena querida... Vc consegue eternizar um amor... Vc o transforma numa sutileza que nos encanta... Bjs

Amanda G. disse...

Parabéns pela maestria ao escrever! Muita poesia....
:)
"Quando o tempo precisa parar e, cruel, ele não para?"
Só nos resta eternizar o momento com todos os nossos sentidos...assim cada cheiro, som, toque, olhar e sabor nos lembrará de um eterno momento especial!!!!
Beijos, querida!!!

Amanda G.

Carina oq se leva da vida, é a vida q se leva disse...

me senti ali naquele momento tão mágico e maravilhoso ameiiiiii