domingo, 30 de novembro de 2008

| da série: quase um "The Planet" brasileiro! :] |

::: Sim, este é um post-propaganda :::

É que eu sou auto-empolgável e quando eu gosto das coisas dá vontade de sair com um cartaz na mão e um megafone na boca aperreando todo mundo pra se empolgar junto comigo!! Sim, eu sou pentelha quando quero. :P

Mas gente, o trocinho é bem legal mesmo!!

De que eu falo?

DO LESKUT!!

Sim, uma rede social 'a la orkut’ sendo que só para nós: mulheres que sabi(d)amente apreciam outras mulheres. :]

A criação genial foi de uma menina cujo nick é Del, que de mãos dadas com o Parada Lésbica, tomou a iniciativa de construir essa rede que está crescendo (oba! Oba!) rapidinho.

A idéia é massa:
Só meninas são permitidas. Nada de casal. Nada de homens. (eba!)

Se você é como eu, que está com as portas do armário abertas, mas que ainda tem que ficar lá dentro um cadinho mais de tempo por questões familiares, eu entendo demais o susto de entrar no grupo (apesar de querer muuuito pular de mãos dadas com o resto de nós).

Mas deixa eu explicar um pouquinho mais sobre o Leskut:

1. ‘Fakes’ NÃO são permitidas. Oo

ai. “lascou!!” – você pensa, né?

Eu, já fazia bem um mês que olhava para o logo do Leskut morrendo de vontade de entrar. Juro, já tinha até colocado na minha lista de “resoluções do Ano Novo” (gente, tá compriiiiiida essa lista!! Valha-me-deus!!).

Foi isso que eu pensei pelo menos:
Tem nem perigo. Ainda não dá. Os pais ainda não estão prontos para saber de nada, tem que esperar mais.”

Mas na sexta (pois é, faz só um cadinho de tempo mesmo!) soltei a franga.
Arregacei as mangas, apertei a ‘tecla F’, me fiz de corajosa e lá fui eu, com meu nome verdadeiro, com minha foto verdadeira (e que não era só ‘de pescoço’ :P), com meu e-mail do dia a dia e fiz a beleza do perfil.

Terminei de fazer e pensei. “Pronto. D. Helena, você tá lascada! Agora fudeu mesmo! Não sabe ficar quieta, daqui pouco a bomba explode, o mundo é um ovo, aquela colega esquisita e problemática vai estar lá, vai te ver, vai dar merda isso!! O natal esse ano vai ser é movimentado! Ai ai!

Mas, deixei quieto.
Fiquei esperando ‘ser aprovada’.

(é que você só é aprovada depois que as moderadoras do Leskut checam que você é mesmo uma mulher de verdade verdadeira. rs.)

Quando veio a aprovação, lá fui eu correndo ver do que se tratava mesmo esse negócio.
E foi aí que meu ser-ainda-armarizado-pela-metade ficou aos pulos!!

Galerinha, depois que as meninas-super-poderosas de lá checam que você é mesmo uma mulher, que tem cpf, identidade, cara e personalidade, VOCÊ PODE MUDAR O NOME DO SEU PERFIL!

Sim, uma vez aprovada, você pode transformar o seu “Natália Benevides” (por exemplo) em simplesmente “Nah”, ou “Rosa”, ou “Tangerina”, ou o que quer que lhe dê na telha. Assim como você também pode mudar o seu e-mail para um, digamos assim, mais discreto e escondidinho.

Se tem gente doida e sem-noção por lá??? Oo

Muuuuuuitas!!!

Eu pelo menos já vi foi ‘de ruma’.
Mas é o tipo da coisa, você adiciona quem quiser.
E, assim como o Orkut, se quiser proteger suas fotos (se você quiser colocar fotos), é só colocar um cadeadinho nelas. Ou liberá-las só para amigas ou coisa do tipo.

Como eu sou seletiva demais até e chata mesmo, até agora eu só estou meio bizoiando, espiando, conhecendo, andando devagarzinho: que começo eu gosto é devagar mesmo.

Mas coloquei umas fotinhas minhas lá de qualquer forma - que é bom se receber um assobio de vez em quando, né? :P

















A interface do Leskut é um pouco diferente, mas se mesmo uma monga-longa em coisas internéticas como eu conseguiu fazer o perfil, adicionar fotocas e ainda criar uma comunidade (do Chet Baker!!!), vocês também conseguem, tenho certeza! ;]

E o resto a gente vai aprendendo aos pouquinhos...

E é aquela velha história: dar as mãos é bom demais!!

E aí a gente vira Mosqueteiras Lés e gritamos todas unidas:

UMA POR TODAS
E TODAS POR UMA!!


Entra lá, viu?
É show de bola mesmo!
E tenho certeza que é ponto de encontro para conhecer gente legal. ;]

||| Para saber mais sobre as regras e começar a dançar com nós que estamos já lá é só ir AQUI.


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calvin em um momento de decisão-risco também! Oo (KKKK!)









| valha-me-deus que minha cidade está mais quente que nunca hoje! o mal-humor está grande e para me exorcizar, só minha rainha Beth Carvalho em um dos cds que mais amo dela! Um cd 'goiabada-cascão' - quem escutar me entenderá! ;]

Beth Carvalho - De pé no chão (1978)





clique aqui.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

| sobre tragédias e igualdade: porque é hora de dar as mãos |

É que vivemos de tragédias.
Sempre.

Somos tragédia ao perder nosso lar submerso e seguro em nossas mães: e aí nascemos.
Nascemos de tal forma em meio à tragédia de perder um mundo, que nascemos chorando. Que outro ser nasce chorando, meu Deus?

E vamos ao longo da vida vivendo nossas tragédias:

A tragédia de entender que não poderemos engatinhar sempre: é obrigatório aprender a caminhar.

A tragédia de ter um coração completamente estilhaçado e ter que arranjar formas de consertá-lo.

A tragédia de conviver consigo mesmo 24 hrs por dia: 365 dias do ano: enquanto vida se tiver – goste-se ou não de si.

A tragédia de ser escravo do tempo: de estar-se submetido a ele: de depender-se dele para tudo.

A tragédia de se estar sempre aprendendo: a comer: a vestir-se: a levantar-se: a acordar: a crescer: a ser profissional: a ser amante: a sentir saudades: a amar: a ter bom-senso: a saber se defender: a saber ignorar: a saber perceber: a saber lembrar: a saber esquecer...

Em nossa individualidade, em nossa relação consigo mesma, em nossa eterna administração do nosso próprio viver, vivemos de tragédias mis: de pequenos e grandes portes.

Mas há tragédias coletivas. Tragédias que acabam com quaisquer diferenças e nos jogam a mais cruel de todas as verdades: somos sim todos iguais.

Quando se tira o emprego, o cabelo, a cor da pele, a sexualidade, a classe social, a idade, o gênero, os gostos: lá estamos nós: sem nome: matéria humana pulsante: iguais.

(a igualdade é só uma questão de proximidade: de perto, sem máscaras sociais, lá estamos nós: pequenos e iguais)

Donos de uma mesma tragédia coletiva e única: donos de uma mesma luta: a sobrevivência.

Santa Catarina está debaixo d’água.
Eu não assisto televisão, mas tenho acompanhado a tudo pela internet e por e-mails que tenho recebido de pessoas que moram lá. E meu coração está apertado. Muito apertado.

Quem se interessa que a Carla que mora lá é lésbica nessa hora? Quem se interessa que o Thiago comeu o melhor amigo dele no dia em que os pais foram comemorar o aniversário de casamento na pousada em que noivaram? Quem se interessa que a Amanda chorou semana passada a noite inteira porque percebeu que está apaixonada pela prima? Nem a Carla, nem o Thiago, nem a Amanda se interessam por isso no momento: porque isso seria uma diferença. E a grande conseqüência da urgência é gerar igualdades.

E há sim a urgência. Há a urgência de se perceber que somos todos um. Que o teu choro me gera lágrimas: que o teu riso me faz sorrir: que a tua dor me machuca.

Há essa urgência gigante de se perceber que se a tua casa está embaixo d’água também eu estou com frio.

Há essa urgência grandíssima urgentíssima seriíssima de se perceber que se você pode se casar com o seu grande amor, também é justo que eu possa.

Há a urgência de se perceber que se você pode beijar a sua namorada, eu também devo poder beijar a minha.

Há a urgência de se perceber que se o filho do Sr. Roberto levou um murro porque é gay, o meu olho também está roxo e inchado e dolorido. E a minha alma também dói.

Há a urgência de se perceber que se a Laura foi expulsa de casa porque confessou ser lésbica, também eu estou sem lar, sem segurança e sem carinho.

Há a urgência inadiável de se perceber que se você pode comer e ler e se divertir, também é certo que eu possa comer e ler e me divertir.

Somos um. Somos todos. Somos qualquer um.

E já é hora de darmos as mãos.
Já é hora.

Eu estava olhando algumas das fotos das ruas e bairros submersos de Santa Catarina. E senti pesar pensando não apenas nas pessoas, mas nos bichos: Cadê os cachorros, meu Deus? Não vi foto de cachorro ainda em canto nenhum! Onde estão eles?

E frente a tanta dor, a tantas igualdades, a tantas histórias e tragédias eu não pude deixar de pensar em Deus.

No outro dia, um grande amigo colorido me ligou e, em meio a tentar achar palavras para lhe ajudar a sentir menos dor sobre o que ele temia ser um ‘pecado’, começamos a falar sobre Deus e eu lhe disse:

Meu amigo, você já parou para pensar sobre a razão maior de Deus nos amar? Veja, de que nasce a compaixão? A compaixão nasce justamente de se ter a consciência de que se você estivesse no lugar daquela pessoa, você estaria tão encrencado quanto ela. A compaixão nasce de se perceber que a outra pessoa está em apuros. Vou lhe falar uma coisa que talvez lhe choque: você acha que Deus daria conta de ser humano? Deus é encantado com a gente porque como ser Ilimitado, Ele não pode conceber as dificuldades que passam um ser cheio de limitações! Ele sente através de nós. E Ele é encantado conosco justamente por isso! Porque são de nossas tragédias, mesmo falhos e fracos e limitados e errôneos, que ressurgimos uma vez mais para enfrentar o novo dia.

Como diz Campbell:

É por essa razão que algumas pessoas têm dificuldade em amar a Deus; nele não há imperfeição alguma. Você pode sentir reverência, mas isso não é amor. É o Cristo na cruz que desperta nosso amor.”

E é essa a imagem que me vem: de nossas c
ruzes e do amor que necessita ser desperto.

E é isso: mesmo falhos e fracos e limitados e errôneos é necessário que ressurjamos uma vez mais para enfrentar o novo dia.

Cada um de nós.
E de mãos dadas. Mesmo que ainda se tenha um número limitado de mãos para se dar.
________

| uma amiga minha me mandou esse vídeo dizendo que se lembrou de mim ao vê-lo. é de uma beleza e sensibilidade extrema. e mostra justamente isso: de cada um fazer a sua parte. porque a gente contamina os outros sim: coisas boas têm esse poder. NÃO DEIXE DE VER, VIU? :]


| cartum |
mafaldinha sentindo em si a dor de outros: a noção de igualdade é isso.


| ai. eu precisaria de um post inteiro para falar sobre esse filme. então nem vou falar, né? :P não dá em espaço nem em tempo. mas pulei aqui de felicidade quando achei por acaso a trilha sonora dele - que é PERFEITA! mas um aviso aos navegantes: é uma trilha sonora que lhe deixa em um 'pesar-reflexivo'. o que é isso? bem, não é uma trilha sonora leve: pelo contrário: ela fixa teus pés no chão com uma violência avassaladora. me peguei pensando até na morte da bezerra (como se diz aqui no nordeste) ouvindo essa trilha sonora.
agita tudo por dentro. nossa. poderosíssima.

Na natureza selvagem - trilha sonora.






clique aqui.





-- CAMPBELL, MAIS UMA VEZ, NO 'O PODER DO MITO'. PARA LER ALGUNS TRECHOS, VÁ AQUI.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

| você deita de bruços, benhê? |

É que tudo na vida é uma questão de transgressão.

O próprio passo que se dá ao caminhar transgride: transgride o espaço: transgride o tempo: transgride o chão: transgride a pausa.

É necessário mudar o ângulo, entende?
É necessário romper o tempo: o próximo minuto depende disso.

José Saramago conta uma historinha no filme ‘Janela da Alma’: ele diz que quando era pequeno ia sempre para um teatro e via de longe maravilhado um dos camarotes do teatro. Muito tempo depois, já grande, ele pôde entrar no camarote e vê-lo por trás, por outro ângulo. Mais maravilhado ainda, ele tirou a seguinte conclusão: “Para se conhecer as coisas, há que dar-lhes a volta”.

Eu hoje tive saudades e tirei o Caio Fernando Abreu* da estante: e ele me gritou (ao som de Angela Ro-Ro):

só consegui te possuir me masturbando, tinha a biblioteca de Alexandria separando nossos corpos, enfiava fundo o dedo na buceta noite após noite pedindo mete fundo, coração, explode junto comigo, depois virava de bruços e chorava no travesseiro porque naquele tempo eu ainda tinha culpa nojo vergonha, mas agora tudo bem

E eu reli isso e pensei:
A maior transgressão aí é a fraseMAS AGORA TUDO BEM’.
A frase mais forte: a frase mais murro é essa: mas agora tudo bem.

Agora tudo bem é a consciência de um novo ‘eu’.
Agora tudo bem é tempo já passado: é crescimento: é cura.
Agora tudo bem é a transgressão humana sobre limites antes existentes.
Agora tudo bem é quando a gente consegue ‘dar a volta’.

Se eu deito de bruços? Eu deito sim. Mas achando tudo delicioso porque eu deito de bruços cheia de ‘agora tudo bem’. Eu deito de bruços com orgulho de quem eu sou: eu deito de bruços sem vergonha ou pudor algum: porque eu já dei a volta em mim e calcei minhas sapatilhas: e ando por aí com meus pés enfeitados e com um sorriso grande no rosto: com uma alegria indomável. Livre por ter dado a volta em mim.

E eu abro minhas pernas com a mesma naturalidade que abro meus braços: em um abraço sensual de mim mesma. Dei-me a volta. Agora está sim tudo bem.


* no livro: Morangos Mofados, do Caio Fernando Abreu.

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| poisé... sabe aquela história de que diminuíram a carga horária dos japoneses para eles terem mais tempo para descansar e eles foram e conseguiram um segundo emprego para esse tempo? p
ois então... a galerinha sem juízo me deu mais tempo: lascou: eu arrumo um monte de outras coisas para fazer com o meu recém-tempo-ganho! então... cá estou eu. lendo clarice pra quem quiser escutar :P. porque clarice eu leio assim: aos gritos pelo meu quarto.

| cartum |
dias lindos têm esse efeito, né, hagar?


| e para pular em alegria indomável sem medo de ser feliz ou ridícula nada melhor que agarrar o hidratante que fica na mesinha ao lado da cama e sair dublando o ABBA pela casa.

ABBA GOLD - tem coisa melhor não!




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domingo, 23 de novembro de 2008

| não olhe no espelho de passagem minha pequena|

ou COISA POLÊMICA # 3

Não. Realmente não tem como eu conversar com você sobre ‘coisas polêmicas’ sem chamar a ajuda de outras pessoas.

Veja, quem sou eu?
Eu sou autoridade de mim apenas.
Sei da minha vida e cada ato meu é carregado de conseqüências: e eu as quero mesmo.
Se não as tivesse, de que me adiantaria agir? Oo

Mas para trazer à tona assuntos que generalizam uma temática, eu sou apenas uma mulher de 29 anos que ainda está aprendendo um bocado de coisas...

Um dos quadros que mais amo é do pintor belga René Magritte (1898–1967) chamado The Treachery Of Images (1928/1929) – ou, ‘a traição das imagens’, em tradução livre.



















Esse quadro diz tudo: você olha para ele e vê um cachimbo.
Mas a frase que está nele lhe avisa: “Isto não é um cachimbo”. oO

E você fica ali olhando, se achando a criatura mais louca do mundo: “Mas eu tenho certeza de que isso é sim um cachimbo!”.

Aí, embevecida com a imagem, concentrada na reflexão que ela lhe desperta, você finalmente percebe: “Mas é claro que isto não é um cachimbo! É apenas uma imagem de um!”.

Clarice Lispector diz:

estou sendo e ao mesmo tempo me fazendo

É isso, entende?
Eu ‘estou sendo e ao mesmo tempo me fazendo’.
Você está sendo e ao mesmo tempo se fazendo.

E eu não sei, pequena, eu não sei da sua história...
Você está cuidando de você?

Não sei como lhe criaram, não sei o que lhe disseram, não sei o que te convenceram a pensar quando se olhasse no espelho... queria te abraçar. Apertada e longamente: porque no momento em que palavras não cabem, o abraço fala tudo o que precisa ser dito.

Mas não cabe a mim esse abraço. Não posso te resgatar.
Posso, no mínimo, te dizer coisas belas.
Te mostrar o colorido que vejo no mundo.
Mas serão os meus olhos vendo isso tudo.
E é necessário que os seus vejam.

Não quero sua dependência.
Quero, isso sim, você livre e solta como uma borboleta.
Quero você voando alto, olhando admirada para a altura que conseguiu chegar.
Lá de cima, meu amor, os problemas ficam tão pequenos. Minúsculos. Porque você está voando. Livre.

Você não é um cachimbo, meu amor.
Você nunca será um cachimbo!
As pessoas sempre olharão para você pasmas tentando entender por que você não é um cachimbo!!

E por mais que você grite: “EU NÃO SOU UM CACHIMBO!
Ainda assim, você nunca conseguirá convencer a todos.

Você é uma imagem passante, minha querida.
E por ser passante para todos, todos só conseguem ver essa confusão de você não ser um cachimbo.

A única pessoa que tem acesso a você o tempo todo é você mesma.


Como você quer ser entendida?
Minha querida, por favor, como você quer que te decifrem?

Isso não é justo.
Não é.

Renato Russo já dizia isso em relação a pais:

Você me diz que seus pais não lhe entendem. Mas você não entende seus pais

Não entendo, meu amor.
Não entendo a necessidade integral de se ser entendida.
Não entendo a necessidade de querer que outros lhe mostrem um sentido que deve ser seu.

Nem eu me entendo.
Como posso depositar essa expectativa em outros?

Eu sou um ser mutante.
Caibo dentro do tempo.
E a cada momento, a vida muda o meu percurso.
E eu me transformo junto com o novo caminho.

Clarice diz:

Escrevo-te em desordem, bem sei. Mas é como vivo. Eu só trabalho com achados e perdidos.

Querida, cada um de nós ‘só trabalha com achados e perdidos’.
Nos perdemos e nos achamos o tempo todo.
Nos perdemos para então nos achar.
E nos achamos para então nos perder.

É dessa desordem que construímos o que chamamos de vida.
Que nada mais é do que uma existência que cabe dentro de um tempo findo.
Tudo em nós é limitado: exceto o sentir.
O sentir é tamanho que nos transborda e toca outros de nós.

Por isso a necessidade de você olhar com calma no espelho, meu amor.
Não há outra razão para isso a não ser uma: a imagem que lhe olha de volta é a sua.

E Clarice arremata:

Espelho é o espaço mais fundo que existe

Você é o espaço mais fundo que existe.
Olhe com calma para ele. Para a sua profundidade.
Se conheça. Se ame. Passe tempo com você.
Tente se entender antes de esperar entendimento.

Perceba que é você quem coloca comida na sua boca.
O ato de se alimentar é esse: entre sua mão e sua boca.
E tudo na vida é um auto-alimentar-se.

Eu te amo sim.
Mas te amaria mais se você também se amasse.
Te amaria mais se você me traísse com você mesma.
Te amaria mais se eu tivesse o medo-conquista de você, de repente, nem precisar de mim – de tão independente e auto-suficiente que você se tornou.

Aí então eu teria certeza de que você se apaixonou pela pessoa certa:

Você mesma.

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|| esse vídeo foi um presente que encontrei por acaso. as pessoas sempre nos falam que 'não perca oportunidades' que o único momento que se tem é o agora.. e parece, que continuamente esquecemos. esse vídeo mostra isso. é lindo. e é uma porrada. e é uma pena: porque a vida é, como diz Clarice, "de uma violência mágica". e a nós, bem, só nos resta aprender com toda essa violência e com toda essa magia. (não tem jeito: sempre choro com esse vídeo. dói. dói a dor de tempo perdido que não volta mais). A FRASE DO FINAL DIZ TUDO!!


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mafaldinha de novo: porque amo assumidamente.
e porque se precisa de uma única coisa apenas: coragem. né Mafalda?







| Ella... que é um som que me abraça dos pés à cabeça, apertadinho e gostoso.
Ella Fitzgerald, These are the blues (1963).




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AH, SOU SOLTERÍSSIMA, VIU? RS. O "VOCÊ" DO TEXTO SOU EU MESMA (OU PURA RETÓRICA, COMO SE DIZ..) - E QUEM QUER QUE SE IDENTIFIQUE COM ESTA HISTÓRIA...

---- ESSES TRECHOS DA CLARICE FORAM TODOS RETIRADOS DO LIVRO DELA "ÁGUA VIVA" - TINHA ESQUECIDO DE DAR ESSA INFORMAÇÃO ESSENCIAL (ESSE, ALIÁS, É UM LIVRO-ORGASMO PARA MIM :: PER-FEI-TO!! - CLARICE EM SUA ESSÊNCIA MAIOR!) :]

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

| minha não-opção sexual |

ou COISA POLÊMICA # 2


Tá: vou começar dizendo o que acho: acho que viver é uma questão de administrar elementos. Oo

E, como todos somos diferentes, tem gente que tem menos elementos a administrar, e tem outras pessoas que têm mais elementos.

Em uma das conversas com minhas amigas (pós-saída do armário) uma delas me disse:

Mas, Helena, se essa é uma opção sexual, por que escolhê-la? Ela não faz sua vida muito mais complicada?

Acontece que não acho que seja uma questão de opção. Ter opção é pressupor que você tem outras escolhas.

Mas o que acho é que o que você é lateja dentro de você: sai pelos seus poros.
Você pode (escolher) fazer algo a respeito ou não: mas quem você é estará ali, gritando dentro de você.

Um dia, já há algum tempo, quando tudo isso ainda me dava mais medo que prazer, quando eu mesma ainda não queria ouvir nada disso que pulsava dentro de mim, eu escrevi o poeminha abaixo, chamado “GRITO INTERNO”:

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
a garganta é uma covarde

grita pra dentro
quando não quer alarde

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

A pobre da minha garganta teve que gritar muito, durante muito tempo, para que eu começasse a principiar (sim, vale a redundância) a ouvi-la.

Isso tudo porque, sim, minha amiga está certa pela metade: faz sim a vida mais complicada. Qualquer coisa que não represente o que a maioria tem como certo, é complicado sim.

A questão é que o que a maioria tem como certo muitas vezes não é o correto.
E, para falar o já batido: quantidade nunca foi sinônimo de qualidade.

E isso vale para tudo.

Temo que este texto ficará grande. Mas sinto a necessidade de escrevê-lo e preciso respeitar isso. Para falar de algo tão complexo, ou eu me alongo ou eu fico em silêncio (porque tudo pode ser dito no silêncio): então resolvi ‘me alongar’.

Tem um autor que é um guru para mim, já falei dele aqui antes: Joseph Campbell.

Juro, se eu pudesse perguntar alguma coisa a algum espírito (Campbell morreu na década de 80), seria o espírito desse cara que eu chamaria. Converso com ele sempre, de novo e de novo: e ele sempre me diz coisas novas. E sobre tudo.

Vou chamá-lo para esta conversa, que é a melhor coisa que eu faço.

Campbell diz:

Quando ocupamos um lugar em nossas vidas, e queremos estar em outro, há um obstáculo para superarmos, um limiar que deve ser transposto.”

Ora, mas claro!
Quer bem dizer que você queria conseguir o que queria ficando no mesmo lugar???
Não, não. Não é assim que funciona.

Herman Hesse já dizia:
"A AVE SAI DO OVO. O OVO É O MUNDO. QUEM QUISER NASCER PRECISA DESTRUIR O MUNDO."

Somos isso: seres que devem ser alados: mas que nascem sem asas: mas que têm várias oportunidades ao longo da vida de criar asas.

É fato: não dá para ficar na zona de segurança e conseguir o que se quer.
Toda conquista nasce do risco.
Não há outro caminho.

Mas Campbell é o ser humano mais tolerante (da tolerância sábia) que eu conheço. Ele diz:

No momento em que você age, você é imperfeito: decidiu agir dessa forma e não daquela.”

Todas nós temos o nosso tempo, claro.
Só Deus sabe como em mim o processo foi leeeeento.
Já disse minha idade, não é? Oo
Quase uma balzaquiana, meu Deus. rs.
(mas faltam alguns meses ainda, viu? que sou canceriana!)

Daí Campbell resolve logo o ‘problema’:

Por isso, decida ser imperfeito, entre em acordo com isso, e siga em frente.”

Olhe, ele sabe das coisas. Esse sabe sim.
Eu só estou aqui comunicando o que aprendi com ele e com outros tantos (já falei do meu vício aqui no Sapatilhando).

Mas Campbell não é bonzinho, não.
Se ele fosse bonzinho, ele não diria verdades cruas, violentas:

Se você disser ‘não’ a um pequeno detalhe de sua vida, você terá desfeito tudo.”

Que dirá, meu Deus, quando falamos não de um detalhe, mas de quem se é: do que se gosta: do formato que se reconhece do amor.

Muitas vezes é a religião quem entra em cena para lascar tudo.
Meu Deus: colocam Deus em cada salada! Botam cada palavra na boca Dele!

Mas Campbell te mostra o espelho, sabia?

O deus que você adora
é o deus que você merece


Ai.
E aí? oO

Tudo o que está no céu e tudo o que está no inferno está dentro de você

Está tudo aqui, meninas.
Batendo dentro de mim.
Batendo dentro de vocês.

Eu teria que ter muito mais do que a pequena coluna que este blog me possibilita para conversar com vocês sobre isso. Aqui, qualquer textinho fica gigante. (ou seja, em outras palavras estou dizendo que a culpa é do blog, não minha! rs).

Mas lhes digo no que eu creio: eu creio que a humanidade criou várias formas de assimilar o mundo, de tentar entender um pouco do que não dá para ser entendido. No meio disso tudo, coitados de nós, acabamos criando regras e normas e morais para ter menos elementos para serem entendidos.

E não previram que os seres lindos e coloridos ainda estariam ali: criando asas proibidas.

Eu tenho o mundo que eu enxergo.
E eu luto por meu mundo a cada segundo que me é dado.
Amo tanto a vida, amo tanto o que posso ter através da vida, que me dá calafrios saber que não tenho a certeza do próximo minuto. Por isso me ocupo e vivo e vivo. Com sede e segurança e certa, muito certa de mim.

E então Campbell tira conclusões por mim:

Você amadurece
quando se torna

a autoridade em sua própria vida


~~

|| é o seguinte - :P não sei quem conseguiu 'ficar comigo' até o final desse texto, rs. maaas, peço, quem chegou até aqui NÃO DEIXE de ver esse vídeo! É um dos filminhos (já disse que adoro desenho?) mais sensível que já vi! Não vejo tristeza nele: vejo liberdade. Vejo sonho.
Esse vídeo é o trabalho de mestr
ado de um rapaz sobre uma ave chamada Quiui: que tem uma particularidade: ELA NÃO PODE VOAR. Então a ave da historinha não se conforma com isso: e decide realizar seu sonho - mesmo que isso lhe custe a vida. O que ela faz? Passa tempos e tempos com muito trabalho preparando 'árvores' em um abismo: para que quando ela dê seu salto para a liberdade: para o seu sonho: ELA VÔE. Vejam, por favor, tá? É lindo demais! :]


| cartum |
minha menina: mostrando que a gente tem que transgredir o 'normal'.








|| juro que tenho quase ciúmes desse moço: Chet Baker - o melhor dele (se é que exista esse tipo de categoria em alguém que é perfeito). Ele tem gosto de passado: e foi com ele, com o Joseph e com uma gigante xícara de chá de maçã com canela que eu passei esta quinta-feira tepeêmica. :]



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quarta-feira, 19 de novembro de 2008

| uma helena (quase) livre e outras coisas polêmicas |


QUASE-LIVRE E COISA POLÊMICA # 1


É que estou quase terminando o meu mestrado, sabe? O quase nem era mais quase, de tão pertinho que estava: mas, ontem, a bomba: só me livrarei dele em janeiro. Mas deixa, que eu sou metida a poliana mesmo e acredito que a gente tem ser Zeca Pagodinho nesta vida: “Deixa a vida me levar, vida leva eu...”. Rs.

O fato é que tenho vivido como uma louca nos últimos dois meses – principalmente – por conta desse acontecimento que seria consumado agora. E, como as loucuras de la vida têm que escapar por algum canto, semana passada este ser que vos fala estava com os seus 1.73 de altura absolutamente imprestáveis: sem voz, sem calor, sem bom humor, sem nada. E o detalhe mais fatídico era: era co-responsável por um congresso de 150 participantes e ainda era uma das palestrantes do tal encontro. E tudo isso aconteceria no dia seguinte ao tal dia da imprestabilidade. Aí, esse é um daqueles momentos em que um sábio e absolutamente-(in)útil pensamento lhe vem à cabeça: se eu fosse uma super-heroína, como a She-ra ou a Mulher-Maravilha, o que eu faria? Oo

Bom, nem eu tinha espada de prata para levantar e gritar com minha voz inexistente “Pela honra de GraySkull” – aliás eu sempre achei que a Adora/She-ra bem que poderia gritar uma coisa mais interessante, poisé. Nem eu tenho a cara de pau da Mulher-Maravilha de sair por aí vestida 24hrs com uma roupa “pode vir quente que eu estou fervendo” oO. E muito menos sou uma super-heroína, ora bolas, então me taquei mesmo foi para o hospital para usar a tal da urgência que o plano de saúde me arranca do banco todo mês.

Chegando lá, claro, fila de espera. Que urgência já deixou de ter peso de urgência faz tempo nessa Era onde tudo-é-para-ontem.

Além disso, um ar-condicionado que deixaria qualquer Pólo Norte parecendo uma praia de Maui. E a pessoa aqui ardendo de febre e já achando os básicos 35 graus do Nordeste uma frieza só, imaginem!

Daí, claro, encolhidinha na cadeira o mais longe possível do ar-condicionado e da televisão (odeio TV!!! – e mais que isso, odeio mesmo é o fato desse ser ter se multiplicado e infectado todo e qualquer ambiente humano!! Como pode?? Deve ser um plano alienígena bem sucedido! Só pode!!), lá estava eu, um abuso só de pessoa, esperando a minha vez de usar a dramaticidade da minha urgência.

Foi quando uma garotinha de três anos me chamou atenção. Criança tem o dom de fazer o tempo parar, não é? Fiquei prestando atenção nela. Estava só ela e a avó – que era um daqueles seres que me fazer querer sacudi-los e dizer um ensurdecedor “ACORDA-AMOR!”, de tão “urgh!” que era a tal da avó.

Eis o diálogo que se passou entre as duas:

A Alice (esse era o nome da garotinha) chega perto da sua avó e diz:
Bobó, tadê aquela mininha que tava atchi?
A avó da Alice fez que nem escutou. Ainda bem que criança sabe fazer as coisas e continuou repetindo:
Bobóóó, tadê aquela mininha que tava atchi?
Nada ainda. Eu já estava em tempo de dizer “Minha senhora, sua netinha está falando com você!”. Mas a Alice era superior a tudo, a mim, à avó dela, ao tempo, a tudo. E repetiu de novo a tal frase.
A avó, fazendo cara de abuso, e depois um cínico sorriso à mulher que estava na sua frente, respondeu:
Ela foi embora chorando e triste.

Alice de repente ficou muito preocupada com o destino da menininha. E disse, encolhendo a testinha de três anos:
Pôtê, bobó, pôtê ela foi embola tiste?
A avó, em um gozo no mínimo doentio disse sorrindo de canto de boca – ainda olhando para a mulher na sua frente:
Porque você estava se danando muito! Aí ela foi embora chorando.

Eu, puta com o diálogo, balançava a cabeça negativamente pensando “Meu Deus, começam é cedo a colocar culpa nas crianças!”. Doida para interferir, fui chamada para ir assinar a folhinha do plano de saúde. Quando voltei, Alice estava no chão da sala de espera, tentando calçar seus sapatinhos – ela estava descalça. Sendo que tentava teimosamente colocar o sapato direito no pé esquerdo. A avó, claro, sentada na cadeira como quem senta em um trono, nem se mexia. Nem sequer olhava para as tentativas de Alice. Quando eu já ia me levantar, a senhora que estava na frente delas – que também fazia caras e bocas sem acreditar que existisse um ser como a avó da Alice, se adiantou e disse com doçura:

Você está colocando do lado errado, Alice! É no outro pé! Deixa eu colocar para você!

Ao que a perfeita Alice respondeu em alto e bom tom:

Não! Pode detá ti eu toloco sozinha! Eu quelo tolocá sozinha!

E eu, rindo, pensei: É, Alice, acho que não preciso me preocupar com você não. Rs. Você já aprendeu que tem mesmo que se virar.

E eu, bom, consegui o que queria: depois do médico dizer sobre a minha garganta “está inflamado e não é pouco!”, foi injeção no traseiro de muá e depois de capotar na minha cama por quatro horas seguidas, acordei uma nova mulher. Quase uma She-Ra ou uma Mulher-Maravilha, de tão disposta que estava!

Aí eu digo duas coisas:

1.
Viva as drogas-de-poder-de-cura!! oO
e
2. Olhe que, com a companhia certa, eu até teria vestido a tal roupa da Mulher-Maravilha naquela hora! :P

____________________
~ E só pra fechar mesmo - que foi essa na realidade a razão de eu ter vindo aqui contar a história da Alice e a reflexão que ela me gerou - eu me pergunto quantas de nós se toca que às vezes a gente tem que fazer que nem a Alice: dizer com toda a segurança que ‘pode deixar’ que enfrenta sozinha.

O caminho não é (nem é para ser, acho) fácil: mas é andando nele que a gente acha nossos sorrisos e lágrimas. É só assim que funciona. Às vezes acho mesmo, como a Alice, que ao invés de esperar que o mundo nos supra ou nos entenda, a gente tem mesmo é que gritar e mostrar a si mesma que dá conta. Porque a gente dá sim. É só uma questão de preparo, de costume. E aí vale dizer a perfeita frase de Grace Hopper:
“O navio é seguro quando está no porto. Mas não é para isso que se fazem navios”.


- GENTE, A ‘COISA POLÊMICA # 2’ EU POSTO AMANHÃ E A 'COISA POLÊMICA # 3' EU POSTO DEPOIS DE AMANHÃ, VIU? QUE FICOU GRAAANDE DEMAIS MEUS DEUS, E EU TENHO MEDO DE CANSAR A BELEZA DE VOCÊS. (QUERO ISSO NÃO!!) RS.


|| ainda aproveitando o gancho da Simone e da Zélia: meu pai, tem coisa mais linda que duas mulheres bonitas dando um abraço??? respondo por todas nós logo: tem não, ó!!! ô, Simone, eu não acharia ruim ser a Zélia por váááarios motivos, rs, mas esse seu abraço com certeza entrou na lista das minhas razões !! :P

















| cartum|
Zelé Lelé, do nosso querido Maurício de Souza, mostrando que a gente só lida bem com aquilo para o qual estamos preparados mesmo. (clique na imagem para ampliar)

















|| acompanho esse homem já há algum tempo. amo! sua irreverência, seu auto-amor, sua capacidade de se renovar e se respeitar.. tudo! e tudo nele é bom, mas com esse show ele conseguiu realmente se superar!! Ney, em Inclassificáveis. -- E realmente o são.




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sábado, 15 de novembro de 2008

| (não) procura-se desesperadamente |

Conta-se que a mulher estava desesperada, atrás de algo que não encontrava. E andava para um lado, e andava para outro, e corria com ansiedade a buscar em um canto e em outro e em outro... Olhava, virava, estava sempre em movimento, nervosa, angustiada, sem paz.

Daí uma entidade mágica – que por aqui nesta Terra convencionou-se chamar de Destino – já preocupada com aquela angústia toda da mulher, segurou-a pelo braço com força e disse:

Você está procurando o que eu acho que está? – perguntou o Destino já sabendo da resposta.

Sim. – disse a mulher baixando a cabeça e cobrindo o rosto com as mãos – Procuro o Amor.

O Destino balançou a cabeça, piedoso. E então disse:

Mulher, o amor não é coisa que você guarde. Ele não está guardado em algum canto esperando que você o encontre. O amor não depende sequer só de você. E muito menos é você quem encontrará o amor. Escute-me bem: é o amor quem lhe encontrará.

A mulher olhava assustada para o Destino. De repente sentiu-se feliz! Seria o Amor quem lhe encontraria!

Ao ver a moça animada, o Destino levantou a mão em tom de cuidado:

Uma palavra de alerta, no entanto: sabe como fazer para que o Amor lhe encontre?

A mulher olhava concentrada para o Destino. Agora saberia a fórmula para sua felicidade!

Não o procure.

De repente a mulher ficou confusa. Sem entender, perguntou:

Então... eu não preciso fazer nada para que o Amor me encontre?

O Destino olhou sério para a mulher. Teve paciência. Sabia que as pessoas demoravam a compreender as coisas. Por fim, disse:

Na realidade será necessário que você faça muitas coisas para que ele lhe ache. A primeira dessas é que você não o procure. Você não sabe disso, mas o Amor está sempre perto de você. Mas a questão é que ele não pode chegar até você antes do tempo: ele sempre chega na hora certa de chegar. Na verdade ele chega inclusive sem você querer que ele chegue, tão incisivo é o Amor.

Sempre preocupada, a mulher se apressou em dizer:

Ah, mas eu quero! Eu quero que ele chegue!! Quero sim!

O Destino disse com carinho:

É claro que sim. O Amor sabe disso. Mas, veja, como Pai de todos os sentimentos, é o Amor quem dita as regras. Ele virá na hora que achar que deve vir. Na intensidade que achar correta. Durante o tempo que for necessário.

Necessário para quê? – perguntou a mulher ingenuamente.

Necessário para que lhe transforme.

Ela franziu a testa. Sabendo que ela não entendera, o Destino continuou a explicar:

Minha querida, o Amor sempre transforma. É essa sua razão maior.

Ela olhou para o Destino e sorriu. “É verdade!” – Disse ela para dentro de si sem sequer perceber que o Destino podia escutar tudo nela: ela era feita da matéria Dele: ela era feita do tempo Dele.

Com cuidado paterno, o Destino continuou:

Para que o Amor lhe ache, minha pequena, você precisa fazer apenas duas coisas.

O coração dela batia intensamente! Iria saber de tudo agora!

Primeiro: cuide bem de você. O Amor precisa de equilíbrio: e você, como lugar onde o Amor morará, precisa estar bem, feliz antes mesmo que o Amor chegue. Certa de que esse corpo é responsabilidade sua. Certa de que é você quem preenche as horas do relógio. O meu tempo, que sou Destino, é o seu tempo, mulher. Use-o bem. Não lhe dou as horas para que você as desperdice: as horas são feitas para duas coisas: para que se cuide de sorrisos e para que se cuide de lágrimas. É da troca constante desses dois momentos que a vida humana é feita. Saboreie os dois: pois eles são o que você é e eles são a razão pela qual eu te criei.

A mulher chorava. Esse era um dos momentos de lágrimas. Entendeu então. Entendeu que era feita de tudo: do mesmo tempo que a formava.

O Destino continuou:

Segundo: Quando o Amor chegar, abrace-o com força.

A mulher não entendeu. Ora, mas que coisa mais sem sentido de se dizer! Se ela queria tanto que o Amor chegasse, por acaso ela destrataria o Amor? Ora, mas que coisa sem sentido! E, repetindo o pensamento disse:

Isso não faz sentido. Mas claro que se quero que o Amor chegue, é porque o tratarei bem! – disse ela ressentida.

O Destino, sem mudar o tom, continuou:

Mulher, você idealiza o Amor. Todos vocês, humanos, idealizam o Amor. Eu sei, porque fui eu quem lhes criei assim, tão lindos e ingênuos. Mas o Amor, quando decide chegar, mulher, vem do jeito que quer: vem para lhe transformar. O Amor sempre provoca mudanças. Ele vem para que você seja balançada e vem, principalmente, para que você faça escolhas. Grandes escolhas. Difíceis escolhas. E é então que lhe digo: Quando o Amor lhe encontrar: Abrace-o!

Dito isso, o Destino desapareceu.
Mas a mulher já sabia então que o Destino nunca desaparecia. Ela era o próprio destino.

Então a mulher respirou fundo e tratou de seguir seu caminho.
Sempre cuidando de si, a mulher sorria e a mulher chorava – no tempo a que cada coisa dessas cabia.

Um dia, não mais belo que os demais, a mulher estava entretida com alguma coisa quando uma voz lhe chamou:

Oi, tudo bem? É que estava te olhando dali e...

De repente sentiu a força do vento lhe bater com violência no peito. A pancada a balançou e fez com que ela perdesse a voz por um momento.

Em uma fração de segundos um som intenso preencheu seus ouvidos fazendo seu coração acelerar:

TE ACHEI!!

E a mulher, sem titubear, agarrou o amor e abraçou-o com toda a força que tinha.


____________
* texto que escrevi em homenagem a todas as vozes que já escutei e as que ainda escutarei.

~~

|| John Denver e Plácido Domingos, cantando uma das músicas mais lindas, fortes e verdadeiras já feitas: Perhaps Love.



|| cartum ||
A prática Lucy resolvendo as coisas :]






ela de novo: mostrando que às vezes temos que ser é por nós. e ponto. ;]






tirinhas da turma do charlie brown: vá aqui.


|| sério, meninas, eu sei que eu vivo dizendo que tudo é perfeito, rs, mas esse cd É perfeito!! um encontro daqueles que só acontecem a cada centena de anos, sabe? boooooomm demais! Amigo é casa - Simone e Zelia Duncan





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sexta-feira, 14 de novembro de 2008

| da série: pode vir quente, que eu estou fervendo |

É que é uma daquelas coisas que pulsa dentro de nós, sabe?

Você sabe.

Da relação de você com você mesma você sabe.
Mesmo que não proclame ao mundo.
O saber é, na essência, silencioso.
É uma conclusão: e a conclusão existe de dentro pra fora.

Acontece que tudo o que amamos é parte de nós.
Pedaços soltos de nós que vamos encontrando por aí para nos sentirmos um pouco mais completas.
Pode ser bobeira nossa, já que acho mesmo que somos um poço sem fundo: ao menos a minha ganância de viver é extrema: enquanto houver tempo e enquanto houver vida eu terei fome. E se não tiver fome terei ao menos vontade de comer.

É que não há algo como a obesidade de comer vida: então a gula me pulsa nas veias e me deixa com os olhos sempre ocupados.

Eu tenho três medos grandes:

- na hora da morte olhar para trás e desejar ter vivido outra vida
- viver como quem joga boliche: sem que nada fique em pé para dizer que o erro não foi tão grave ou que o acerto não foi tão supremo
- de quando a intensidade chegar, eu deixar que ela se vá por medo do seu intensamente

Então eu abro os olhos todos os dias pela manhã com esses três medos pulsando insolentemente a facticidade maior: tudo cabe a você.

Acho que muitas vezes não percebemos isso.
É a mim, não-Helena, que cabe tudo. O bom e o ruim. O que fiz e o que deixei de fazer. O que disse e o que deixei de dizer.
E isso é uma responsabilidade filha da puta.

Acontece que a puta da qual se é filha é a vida.
E eu particularmente acho que a vida tem mesmo é que, como boa puta, se rebolar para nos acertar em cheio: para não nos deixar cair na dormência do existir: para nos sacolejar e nos fazer lembrar sempre que a quem respira não é para ser dada a escolha da não-interpretação.

Então é isso: somos uma interpretação-de-texto-ambulante.
Engolimos a vida e a digerimos com o nosso-modo-de-ser.

Acontece que somos seres não-desenvolvidos, entende?
E se não estivermos atentos, passamos pela vida assistindo o jornal da noite, conversando sobre o assalto que aconteceu, indo dormir depois do dia cansativo de trabalho e tendo em nós o pior tipo de mediocridade possível: a auto-mediocridade.

Ser um auto-medíocre é ter pobreza de alma.
E não é que a alma não exista: e não é que a alma não seja rica: ela tem tesouros inimagináveis a brilhar mais que qualquer sol: mas vive em eclipse até que o dono da alma decida deixá-la brilhar.

E, nós, coitados, somos seres ingênuos, teimosos e despreparados: muitas vezes precisamos que alguém consiga nos mostrar que nossos pés foram feitos para se andar.


|| The Rasmus - In the Shadows: no dia em que eu ouvi essa música levei um soco no estômago: ela era um pedaço podre de mim flutuando por aí: agarrei esse pedaço, abracei forte, virei Helena e agora ele, grato, anda já sarado de muita coisa.



| cartum |
minha querida a mostrar que quem lasca tudo é a gente mesmo.







susanita sendo igual a tantos.









:::: essa mulher, na minha opinião, pode até não saber ainda cuidar de si: mas ela sabe cuidar das palavras e do som como poucos. amo.




aqui.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

| Mama África, Obama e A Luta Continua |

Morreu na madrugada dessa segunda-feira passada (dia 10) uma mulher que foi a voz de muitos. Miriam Makeba. Foi ela quem, em meio a continentes de segregação racial e política, se tornou a Mama África – apelido bem mais que justo para uma pessoa que tentou sempre a conciliação entre povos, por meio da música e de atos políticos.

A questão é que, cada um de nós, toca algumas pessoas ao longo de nossas vidas. Sempre haverá alguém que nos será grato porque dissemos/fizemos a coisa certa na hora certa e que isso afetou e redirecionou o destino dessa pessoa. Assim como também é verdade que outras terão esse papel na nossa vida. Tocamos vidas: esse é um de nossos poderes.

No entanto algumas pessoas, seja lá por qual razão, têm como agir mais diretamente sobre o destino de muitos. Têm como intervir em caminhos e liberdades. Têm como sair das ‘algumas dezenas’ do resto de nós e realmente fazer com que centenas, milhares de pessoas tenham suas vidas modificadas.

Mama África foi uma dessas pessoas. E ela morreu em tempo de ainda testemunhar uma alegria: vendo um homem negro subir à presidência dos Estados Unidos.

E embora às vezes eu me preocupe com o tanto de expectativas que estão sendo geradas em cima do Obama, não há como negar a importância desse momento histórico: algo mudou: algo grande e simbólico aconteceu.







































No dia seguinte à eleição do Obama, uma amiga minha me mandou a seguinte mensagem:

Os EUA acabaram de eleger um homem negro para seu Presidente. Isso é sinal de bons presságios.

E eu concordo com ela. No mínimo, faz as pessoas conversarem. No mínimo, gera polêmica. No mínimo, faz com que as pessoas reavaliem o que é ‘normal’ ou não. No mínimo, traz a esperança de mudanças.

Quando ele se elegeu eu lembrei da Mama África. E lembrei do Rev. Martin Luther King Jr. E lembrei de Gandhi. E lembrei de Nelson Mandela. E lembrei da perfeita Maya Angelou* que escreveu tão bem sobre a segregação que sofreu ( e isso não faz nem 100 anos, gente!).

Eu sei que já vivemos tempos muito piores. Já vivemos tempos em que os negros não eram considerados sequer humanos. Já vivemos tempos em que as mulheres eram uma simples posse, um objeto para mando e desmando de seus pais, maridos, irmãos. Já vivemos tempos em que pessoas iam parar em fogueiras e forcas por serem diferentes.

Acho que o mundo continua a girar e, em uma dessas voltas que ele dará, a gente ganha também a batalha como a que o Obama ganhou. Viraremos também símbolos do que um dia não era sequer imaginável – e que, em um dado momento, tudo converge para que vire normalidade.

E já é tempo que o normal tenha qualquer cara, ah, já é mesmo.

Enquanto esse dia não chega, estou com a Madonna:

"Se pudemos votar num afro-americano como presidente, podemos apoiar o casamento gay"


E com a Mamma África cantando “A Luta Continua”.


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diálogo registrado por Freud:

Enquanto encontrava-me no aposento ao lado, ouvi uma criança, com medo do escuro, dizer em voz alta: 'Mas fala comigo, titia. Estou com medo!'. E ela: 'Por quê? De que adianta isso? Tu nem estás me vendo.' A isto a criança respondeu: 'Se alguém fala, fica mais claro.' (Freud, 1917/ 1996)

||| Bora sempre falar, né gente?
Que o mundo está sempre em precisão de claridade!
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>> Em tempo: notícia de hoje: Estado americado de Connecticut legaliza casamento entre homosexuais. Olhaí o mundo girando! :]

|| Mama África cantando Pata Pata:


| cartum |
minha vontade frustrada de jornalista: o dia em que os jornais enxergassem e divulgassem sensibilidade ao mundo (cartum do argentino Liniers)




e do também argentino e-meu-amor quino: miguelito mostrando que quem faz nosso caminho somos nós mesmos.




~~~ um dos cds mais perfeitos da Bebel. Bom demais para enfeitar o background daqueles momentos gostosos! :]




Clique aqui.





~~~~ Para quem sabe inglês, vale ler essa carta do perfeito cartunista Daryl Cagle.


* Recomendo demais o livro dela "Eu sei por que o pássaro canta na gaiola" (I know why caged birds sing) - mas é um soco no estômago, hein!

PERFEITO comentário deixado sobre Mama África pelo usuário "iwapelebrown" no YouTube:

"We will miss you Ms. Miriam and all that you stood for. You didn't just become a star for Africa and Africans around the world but you became our voice, our struggle, our passion, our dreams, our hopes and our drive to better our reality. You remained true to your people and now your people MUST remain true to you in memory. Let your name be called million times with love, honor and respect! MamaArfika, MamaAfrika, MamaAfrika! It's time for your children to take your place. Ase."


domingo, 9 de novembro de 2008

| da série: o mundo é um sex-shop |

É que acredito que na vida tudo passa pelo impulso que te move.

A noção sexual está em todo o nosso redor: somos seres sensuais sempre.

E é a sensualidade de cada coisa, de cada ato, de cada sentir que agarra o nosso próximo minuto.

Quando engatinhamos, é a sensualidade do ficar de pé que nos faz levantar.

Quando nos cortamos, é a sensualidade de ver a pele restaurada que nos faz rogar pela cura.

Quando temos fome, é a sensualidade da satisfação do comer que nos faz nos alimentar.

Quando escutamos música, todos os nossos sentidos se aguçam, num ato sexual completo entre corpo e som: muito mais está sendo dito do que o que a letra da canção abarca.

Por essa mesma razão, existem vários tipos de orgasmos.

Todos eles são importantes e coroam a completude de um momento.
São um êxtase. E, por isso, vão-virando-som, vão-virando-som, vão-virando-som, vão-virando-som, vão-virando-som.. até que viram silêncio.

E é no silêncio-pós-orgasmo que o corpo sorri na plenitude do entendimento.
Chegou-se lá.

~~~~

Alguns orgasmos meus:

TEXTOS:

A vida mal e mal me escapa embora me venha a certeza de que a vida é outra e tem um estilo oculto.
Este texto que te dou não é para ser visto de perto. Ganha sua secreta redondez antes invisível quando é visto de um avião em alto vôo. Então adivinha-se o jogo das ilhas e vêem-se canais e mares. Entende-me: escrevo-te uma onomatopéia, convulsão da linguagem. Transmito-te não uma história mas apenas palavras que vivem do som. Digo-te assim:
“Tronco luxurioso”.
E banho-me nele. Ele está ligado à raiz que penetra em nós na terra. Tudo o que te escrevo é tenso. Uso palavras soltas que são em si mesmas um dardo livre: “selvagens, bárbaros, nobres decadentes e marginais”. Isto te diz alguma coisa? A mim fala.
Mas a mais importante palavra da língua tem uma única letra: é. É.

CLARICE LISPECTOR, ÁGUA VIVA, P. 3
0.

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

MOYERS: Considerando o que você conhece dos seres humanos, existiria um nível de sabedoria, para além dos conflitos entre verdade e ilusão, a partir do qual nossas vidas voltariam a atingir a plenitude? Seremos capazes de desenvolver novos modelos?


CAMPBELL: Eles já estão aí, nas religiões. Todas as religiões foram verdadeiras, para o seu tempo. Quem for capaz de reconhecer o aspecto não perecível da sua verdade e separálo do que é circunstancial, terá apreendido isso.


Falamos disso aqui mesmo: o sacrifício dos medos e desejos físicos àquilo que espiritualmente ampara o corpo; estará o corpo aprendendo a conhecer e a expressar sua vida profunda, na esfera temporal? De um modo ou de outro, todos temos de encontrar o que melhor favoreça o florescimento da nossa humanidade, nesta vida, e dedicar nos a isso.


MOYERS: Não a primeira causa, mas uma causa mais alta?


CAMPBELL: Eu diria uma causa mais interior. “Mais alta” é apenas lá em cima e não existe nenhum “lá em cima”. Sabemos disso. Aquele velho lá em cima foi mandado embora. Você precisa encontrar a Força dentro de você mesmo. É por isso que os gurus orientais são tão convincentes para os jovens, hoje em dia. Eles dizem: “Está dentro de você. Vá e encontre o”.


JOSEPH CAMPBELL, O PODER DO MITO, P. 157.


IMAGENS










campanha em prol da leitura



















pintura de FridaKhalo[metáforas são a perfeição, não?]

o interesse econôm
ico da guerra do oriente médio em um quadrinho





hipocrisia retratada na tirinha dos malvados






criA-tividade é tudo!





MÚSICA

elis regina: canção do sal


maria bethânia: oração ao tempo


FILMES

cantando na chuva (singin' in the rain)


a noviça rebelde (the sound of music)


...além dos sorrisos dos amigos, ver seus familiares bem, lápis de cor, papel em branco, um-chá- quentinho-com-um-livro-debaixo-de-um-cobertor, olhar o seu cachorrinho fazer marmota, apresentar bem aquele trabalho, levantar bons argumentos em uma reunião, achar a poesia que escreveu e nem lembrava, ligar o rádio e estar tocando uma música que adora... e, claro, o orgasmo que pele-com-pele cria.

~~ bom... é orgasmo que não acaba mais... porque o mundo, ah, o mundo é um sex-shop! :]

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:::: ah, vamos ter um orgasmo em conjunto, vamos? :]
o cd da Esperanza, para quem quiser viajar na delícia que é ela.



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sexta-feira, 7 de novembro de 2008

| carta à mãe |


Minha mãe, daqui a pouco irei lhe buscar no aeroporto.
Foi uma viagem linda a que você fez, eu sei.
Ouvir sua voz no telefone contando do presente que estava sendo essa viagem foi absolutamente delicioso.

E eu fico aqui a pensar em você. Você super mãe. Você mulher que abriu mão de tanto para ser filha, irmã, profissional, esposa e mãe. E eu tenho orgulho de você.

Confesso que durante muito tempo eu me perguntei, como única filha mulher da sua prole, porque eu não podia conversar com você sobre dúvidas do meu corpo que mudava, ou do que eu sentia, ou sobre o que eu começava a querer sentir...

Mas o tempo foi passando e eu fui percebendo que dentro da sua noção de religiosidade, certas coisas não podem ser discutidas. Não cabem à relação de pai e filho, de mãe e filha. Sexo não é algo que se discuta. Mulher tem que ser séria. Tem que cuidar da sua imagem, da sua moral...

E eu, sempre muito reflexiva, acabei tirando minhas próprias conclusões sobre muita coisa. Acabei criando ‘coro grosso’ e enfrentando o mundo de peito aberto. Acabei colocando saltos altos, resgatando todos os príncipes que surgiram no meu caminho, agarrando-os pela cintura e pulando em cima do cavalo branco sem sequer me despentear.

No meio do caminho, nos anos que vão passando, eu passei muito tempo conversando comigo mesma, lendo livros, assistindo e dando aulas, aprendendo culturas e idiomas e sendo aluna de todos os que eu reconhecesse como professor.

No meio de tantos diálogos, como não poderia deixar de ser, eu acabei escutando a mim mesma.

E decidi usar meu ‘coro grosso’ para me respeitar, para assumir a alma que eu carrego no corpo, para gostar de minha própria beleza.

Você não sabe disso.
Sua princesa jamais poderia gostar de mulheres.
Esse seria o pecado máximo. A ironia máxima.

E eu confesso que, no meio de todo o caos e angústia, ainda consigo rir da ironia que é tudo: Sua filha perfeita carrega o que seria, para você, a pior imperfeição.

Desculpe... Choro.
Choro porque lhe amo.
E sei da dor que tudo lhe causaria.
E choro porque tantos já sabem e você não.
Você não sabe quem é sua filha. Se eu fosse mãe, essa para mim seria a pior tristeza.

E é louco para mim o fato de que eu falo para um auditório de duzentas pessoas sem nem suar a camisa, e dou aula para cinqüenta alunos, e enfrento uma entrevista de trabalho conseguindo manter a pose de que sou a melhor candidata possível a ser escolhida e abro minha boca para apresentar trabalhos em inglês, e trabalho de intérprete... e-não-consigo-enfrentar-você.

Você, tão pequenina diante de mim com seus um metro e sessenta de altura.

E quando saímos juntas e você me apresenta para suas amigas, eu vejo no seu rosto a felicidade e o orgulho diante do “Mas como sua filha é bonita! E doce!”.
E eu olho para você com pena, com pena de você se contentar com tão pouco.

E cá estou eu. À beira dos meus trinta anos, alguns anos vividos no estrangeiro, com especialização e mestrado nas costas, quase a sair de casa definitivamente, e ainda sinto-me uma covarde.

Covarde por não conseguir testar o seu amor incondicional de mãe.

E não é medo de você não me aceitar como eu sou.
É medo da dor que lhe trarei. Medo de desconstruir seu mundo.
Medo de matar sua filha perfeita.

E então tenho raiva de mim.
Por não tentar lhe transformar. Por não tentar abrir seus olhos.
Por não tentar fazê-la ver que o mundo é tão mais do que o que a sua religião prega.

Deus é incrível, mãe.
Eu sei. Converso com Ele. Estudo sobre Ele.
Leio muitos livros. Dialogo com pessoas que escreveram sobre essências.
Algo muito além da casca que é o corpo de cada um de nós.
E tenho certo despeito, como filha Dele, de ver você e seus religiosos O espremerem para que Ele caiba em sua interpretação humana.
Ele não cabe no que vocês entendem. E Ele não cabe no que vocês não entendem.
Ele é maior que tudo. E por isso, com o aval Dele eu sequer me preocupo. É Ele quem ainda me faz cafuné e me carrega nos braços. E Ele sorri doce para mim dizendo: “Perdoa. Eles não sabem o que fazem”.

E eu perdôo, claro.
Acho que na dor a gente aprende a perdoar.
Até para que a dor seja aliviada.

Mas às vezes eu penso, mãe: se eu morrer amanhã, você não terá conhecido o melhor de mim.

Você me acha forte, mãe? Realmente sou. Você não sabe nem a metade.
Você não sabe de tantas alegrias e tristezas que eu já tive.
Você não sabe do tanto que eu já tive que enfrentar sozinha.
Você não sabe que naquele dia eu gritava em prantos por dentro enquanto ia lhe deixar no seu grupo de oração. E o quanto eu lhe precisava.

Você me acha bonita, mãe? Sou mesmo.
Mas vou além dessa beleza que um dia sumirá.
A minha beleza é de alma, é de espírito. É de saber ver além de nomes inventados por nós: “homem” e “mulher” são substantivos, mãe. Ninguém ama substantivo. O que se ama é o que não-tem-nome. E eu me sinto superior por conseguir amar o que não tem nome. Porque sei que posso ver, enquanto tantos são míopes e cegos.

E eu sei que chegará o dia em que eu terei que olhar nos seus olhos e lhe dizer: Mãe, eu preciso que você me ame além do que o que você acha certo. Eu sou sua filha, e eu mereço isso.

Até lá, mãe, desculpe, mas eu lhe dou apenas metade de mim.
E você é minha mãe, e não merece isso.