sexta-feira, 7 de novembro de 2008

| carta à mãe |


Minha mãe, daqui a pouco irei lhe buscar no aeroporto.
Foi uma viagem linda a que você fez, eu sei.
Ouvir sua voz no telefone contando do presente que estava sendo essa viagem foi absolutamente delicioso.

E eu fico aqui a pensar em você. Você super mãe. Você mulher que abriu mão de tanto para ser filha, irmã, profissional, esposa e mãe. E eu tenho orgulho de você.

Confesso que durante muito tempo eu me perguntei, como única filha mulher da sua prole, porque eu não podia conversar com você sobre dúvidas do meu corpo que mudava, ou do que eu sentia, ou sobre o que eu começava a querer sentir...

Mas o tempo foi passando e eu fui percebendo que dentro da sua noção de religiosidade, certas coisas não podem ser discutidas. Não cabem à relação de pai e filho, de mãe e filha. Sexo não é algo que se discuta. Mulher tem que ser séria. Tem que cuidar da sua imagem, da sua moral...

E eu, sempre muito reflexiva, acabei tirando minhas próprias conclusões sobre muita coisa. Acabei criando ‘coro grosso’ e enfrentando o mundo de peito aberto. Acabei colocando saltos altos, resgatando todos os príncipes que surgiram no meu caminho, agarrando-os pela cintura e pulando em cima do cavalo branco sem sequer me despentear.

No meio do caminho, nos anos que vão passando, eu passei muito tempo conversando comigo mesma, lendo livros, assistindo e dando aulas, aprendendo culturas e idiomas e sendo aluna de todos os que eu reconhecesse como professor.

No meio de tantos diálogos, como não poderia deixar de ser, eu acabei escutando a mim mesma.

E decidi usar meu ‘coro grosso’ para me respeitar, para assumir a alma que eu carrego no corpo, para gostar de minha própria beleza.

Você não sabe disso.
Sua princesa jamais poderia gostar de mulheres.
Esse seria o pecado máximo. A ironia máxima.

E eu confesso que, no meio de todo o caos e angústia, ainda consigo rir da ironia que é tudo: Sua filha perfeita carrega o que seria, para você, a pior imperfeição.

Desculpe... Choro.
Choro porque lhe amo.
E sei da dor que tudo lhe causaria.
E choro porque tantos já sabem e você não.
Você não sabe quem é sua filha. Se eu fosse mãe, essa para mim seria a pior tristeza.

E é louco para mim o fato de que eu falo para um auditório de duzentas pessoas sem nem suar a camisa, e dou aula para cinqüenta alunos, e enfrento uma entrevista de trabalho conseguindo manter a pose de que sou a melhor candidata possível a ser escolhida e abro minha boca para apresentar trabalhos em inglês, e trabalho de intérprete... e-não-consigo-enfrentar-você.

Você, tão pequenina diante de mim com seus um metro e sessenta de altura.

E quando saímos juntas e você me apresenta para suas amigas, eu vejo no seu rosto a felicidade e o orgulho diante do “Mas como sua filha é bonita! E doce!”.
E eu olho para você com pena, com pena de você se contentar com tão pouco.

E cá estou eu. À beira dos meus trinta anos, alguns anos vividos no estrangeiro, com especialização e mestrado nas costas, quase a sair de casa definitivamente, e ainda sinto-me uma covarde.

Covarde por não conseguir testar o seu amor incondicional de mãe.

E não é medo de você não me aceitar como eu sou.
É medo da dor que lhe trarei. Medo de desconstruir seu mundo.
Medo de matar sua filha perfeita.

E então tenho raiva de mim.
Por não tentar lhe transformar. Por não tentar abrir seus olhos.
Por não tentar fazê-la ver que o mundo é tão mais do que o que a sua religião prega.

Deus é incrível, mãe.
Eu sei. Converso com Ele. Estudo sobre Ele.
Leio muitos livros. Dialogo com pessoas que escreveram sobre essências.
Algo muito além da casca que é o corpo de cada um de nós.
E tenho certo despeito, como filha Dele, de ver você e seus religiosos O espremerem para que Ele caiba em sua interpretação humana.
Ele não cabe no que vocês entendem. E Ele não cabe no que vocês não entendem.
Ele é maior que tudo. E por isso, com o aval Dele eu sequer me preocupo. É Ele quem ainda me faz cafuné e me carrega nos braços. E Ele sorri doce para mim dizendo: “Perdoa. Eles não sabem o que fazem”.

E eu perdôo, claro.
Acho que na dor a gente aprende a perdoar.
Até para que a dor seja aliviada.

Mas às vezes eu penso, mãe: se eu morrer amanhã, você não terá conhecido o melhor de mim.

Você me acha forte, mãe? Realmente sou. Você não sabe nem a metade.
Você não sabe de tantas alegrias e tristezas que eu já tive.
Você não sabe do tanto que eu já tive que enfrentar sozinha.
Você não sabe que naquele dia eu gritava em prantos por dentro enquanto ia lhe deixar no seu grupo de oração. E o quanto eu lhe precisava.

Você me acha bonita, mãe? Sou mesmo.
Mas vou além dessa beleza que um dia sumirá.
A minha beleza é de alma, é de espírito. É de saber ver além de nomes inventados por nós: “homem” e “mulher” são substantivos, mãe. Ninguém ama substantivo. O que se ama é o que não-tem-nome. E eu me sinto superior por conseguir amar o que não tem nome. Porque sei que posso ver, enquanto tantos são míopes e cegos.

E eu sei que chegará o dia em que eu terei que olhar nos seus olhos e lhe dizer: Mãe, eu preciso que você me ame além do que o que você acha certo. Eu sou sua filha, e eu mereço isso.

Até lá, mãe, desculpe, mas eu lhe dou apenas metade de mim.
E você é minha mãe, e não merece isso.

15 comentários:

morgana disse...

Lindo.

E sem mais palavras.

Beijão enorme, lotado de carinho.
;)

Boudeccá disse...

Muito lindo e verdadeiro. É triste não podermos mostrar quem somos para a pessoa que mais deve saber sobre nós. A minha mãe sabe que sou lésbica, ela não aprova mas aos trancos e barrancos tem pelo menos me respeitado - coisa que nunca fez na vida. Acho que agora ela deve saber que pode me perder a qualquer minuto.
Meu abraço mais gostoso, pra vc.

Anatólia disse...

Oi

Noção de religiosidade? (Hum...)
... para me respeitar.... assumir a alma que carrego no corpo... (interessante)
Esse seria o pecado Máximo. A ironia máxima. (é mesmo, isso tem haver com o religioso?)
Sua filha perfeita carrega o que seria, para vc, a pior imperfeição. (mais uma vez, algo haver com o religioso, moral?)
Você não sabe quem é sua filha. Se eu fosse mãe, essa para mim seria a pior tristeza. (Frase curiosa, dúbia, não consegui captar mt bem a idéia... acho um ponto chave)
... não conseguir testar o amor de mãe. (caramba.... difícil... sem palavras)
É medo de matar sua filha perfeita – desconstruir... (exatamente – perfeito)
... a sua religião prega. (religião novamente, mt forte esse ponto religioso)
Espremer deus para caber numa interpretação. (ótimo, mais uma vez perfeita. Todo o “estrofe” fala de deus... interessante, mt forte isso em tuas vivências)
Amar o que não tem nome (o inominável.... o que é isso?)

(Guria que baita desabafo... mt, mas mt interessante. Choraste? É provável.... mas me grila alguma coisa. Existe algo “impronunciável”, “incomunicável”... (!?) falta alguma coisa que não sei dizer o que é, claro, eu não sei e tb não sei explicar; e não é exatamente falta... pq não falta nada – é profundo... mas então, talvez uma bolha de ar que sobe e se dissipa, a qual, nós (eu) não posso agarrar, sem corpo... bem, estou divagando e não era para isso acontecer, então me calo. Vc me “linkou”, bueno, eu tb te “linkey” – linkey pq gostei. Abraço.

Sdref disse...

Não sei nem o que dizer... há tempos um texto não me tocava tanto. simplesmente perfeito, verdadeiro. obrigada!

Marcia Paula disse...

Tem certeza que ela não sabe?Beijos e boa sorte.

Ca disse...

Oi!!! Acho que te entendo... Como eu queria conseguir abrir a cabeça da minha mae, e mostrar pra ela que o fato de estar com uma mulher, nao faz de mim melhor ou pior que outra pessoa... Gostaria muito que ela entendesse que eu estou feliz, que encontrei uma pessoa legal, que me faz bem! Mas, sei que essa verdade é muito forte pra ela. Seus principios e a sua criação nao lhe permitiriam entender. Um beijo! Muita sorte! E.. aproveita bem o colo da tua mae! Nao existe, no mundo, nada melhor!

Helena disse...

|| ai gente... eu sou terrível para esse 'momento social' de dar respostas... :P

esse texto foi sim um graaande desabafo. e, na hora, me fez um bem danado apertar o botão de 'publicar' do blog. parece que eu havia lançado no espaço tudo aquilo.

maaas, enfim. um texto torna o sentimento de um momento (que é fluido) em algo estático. assim, registrou o que eu estava sentindo e bem, agora é seguir adiante. :]

o colo do minha progenitora é uma delícia sim, rs, e tirando exageros católicos (que, ironicamente culminam em homofobia), a dona minha mãe é bem batuta. acho que é a velha história de respeitar os limites de cada um mesmo.

e, para pegar um gancho no comentário da marcia paula:

Já pensou se no dia em que chegar a hora da verdade, eu, toda tensa e cheia de expectativas, fale para minha progenitora e ela me rebata com um desdém só:

ah, era por isso esse alarde todo? ora.. mas isso eu já sabia!!

ôôôô delicia que não ia ser, hein? rs
valeu aí pela força, gente! bjos!

Helena disse...

Olha, descobri seu blog hj e fiquei encantada com esse seu texto!Perfeito!!

Beijos

Lorena disse...

Esse texto me tocou muito, muito... Mãe é sempre um problema e uma solução. A minha mãe é danada; ela percebe muita coisa, tem o sexto sentido muito aguçado e uma antena de intuição que é como um radar de GPS, nunca vi! Mas eu gostaria de falar as coisas com ela, gostaria de ter abertura para falar... Porque ficamos as duas mudas, ela lá e eu cá; eu achando que ela não me entende e ela achando que eu acho que ela não me entende.
Sobre meu coração e minhas paixonites e amores adultos, então, minha mãe não sabe nada. Não sabe nem o nome do primeiro garoto que eu beijei, nem de nada parecido. Ou pelo menos, eu acho, nunca tenho como ter certeza sobre nada com ela, até pq ela finge mto bem... Só que somos duas porco-espinho, minha mãezinha e eu, não deixamos as pessoas chegarem muito perto.

Enfim, por isso tudo e por vc ter falado da (não)aceitação da sua mãe, por sua religiosidade (que a minha tb tem, diga-se de passagem), me lembrei da minha que está tão longe... E como certas coisas são mesmo difíceis.

Poxa, estou gostando cada vez mais daqui! =)

beijos, Helena.

Anônimo disse...

Fiquei emocionada com seu desabafo, é mt bom sentir esta identificação. Minha mãe sabe,mas finge que não é verdade, ignora minha amada por não saber lidar com a situação. E a mãe da minha amada fingi não saber, ou não quer enxergar o que é gritante a todos que nos veem: que estamos felizes e nos amamos. Ainda não consigo assumir para todos como gostaria, mas blogs como o seu me dão força para acreditar que um dia serei respeitada como desejo,pois serei sincera com o mundo, sendo eu mesma para todos. bjs

orquídea disse...

Hoje acabei ficando um pouco mais por aqui e ainda bem...É incrível como a cada dia de passa encontro pedaços de história, emoções, angústias, alegrias, desejos e razões tão semelhantes a todo o ser humano. E que também são minhas.
Obrigada por abrir um pouco do seu mundo aos nossos olhares.
Beijo deste outro lado do Atlântico.

Anônimo disse...

Acho que quando alcançamos um grau de cultura e nos consideramos superiores a qualquer pessoa que seja, inclusive nossa mãe, é hora de rever o que desaprendemos, porque ás vezes a sabedoria não está no conhecimento que somos capazes de disernir, senão naqueles que o conhecem sentindo no coração. Think about.

Anônimo disse...

Ler seu blog é fascinante. Seus escritos pessoais, eu os leio e posso imaginar que eu mesma poderia tê-los escritos em determinados momentos da minha vida. Eu pretendo dizer a minha mãe, mas preciso de tempo, afinal, acabei de fazer 14 anos e ela jamais me levaria à sério.

Bruna B. disse...

Texto liiiiiindo, de emocionar!
Tô adorando tudo que você escreve e preciso dizer que te admiro :D
beijo!

Karoline Goltzman disse...

Muito lindo o seu texto! Maravilhoso mesmo!
Parabéns!
Vc merece muito mais, menina!
Que a felicidade te acompanhe...