sexta-feira, 14 de novembro de 2008

| da série: pode vir quente, que eu estou fervendo |

É que é uma daquelas coisas que pulsa dentro de nós, sabe?

Você sabe.

Da relação de você com você mesma você sabe.
Mesmo que não proclame ao mundo.
O saber é, na essência, silencioso.
É uma conclusão: e a conclusão existe de dentro pra fora.

Acontece que tudo o que amamos é parte de nós.
Pedaços soltos de nós que vamos encontrando por aí para nos sentirmos um pouco mais completas.
Pode ser bobeira nossa, já que acho mesmo que somos um poço sem fundo: ao menos a minha ganância de viver é extrema: enquanto houver tempo e enquanto houver vida eu terei fome. E se não tiver fome terei ao menos vontade de comer.

É que não há algo como a obesidade de comer vida: então a gula me pulsa nas veias e me deixa com os olhos sempre ocupados.

Eu tenho três medos grandes:

- na hora da morte olhar para trás e desejar ter vivido outra vida
- viver como quem joga boliche: sem que nada fique em pé para dizer que o erro não foi tão grave ou que o acerto não foi tão supremo
- de quando a intensidade chegar, eu deixar que ela se vá por medo do seu intensamente

Então eu abro os olhos todos os dias pela manhã com esses três medos pulsando insolentemente a facticidade maior: tudo cabe a você.

Acho que muitas vezes não percebemos isso.
É a mim, não-Helena, que cabe tudo. O bom e o ruim. O que fiz e o que deixei de fazer. O que disse e o que deixei de dizer.
E isso é uma responsabilidade filha da puta.

Acontece que a puta da qual se é filha é a vida.
E eu particularmente acho que a vida tem mesmo é que, como boa puta, se rebolar para nos acertar em cheio: para não nos deixar cair na dormência do existir: para nos sacolejar e nos fazer lembrar sempre que a quem respira não é para ser dada a escolha da não-interpretação.

Então é isso: somos uma interpretação-de-texto-ambulante.
Engolimos a vida e a digerimos com o nosso-modo-de-ser.

Acontece que somos seres não-desenvolvidos, entende?
E se não estivermos atentos, passamos pela vida assistindo o jornal da noite, conversando sobre o assalto que aconteceu, indo dormir depois do dia cansativo de trabalho e tendo em nós o pior tipo de mediocridade possível: a auto-mediocridade.

Ser um auto-medíocre é ter pobreza de alma.
E não é que a alma não exista: e não é que a alma não seja rica: ela tem tesouros inimagináveis a brilhar mais que qualquer sol: mas vive em eclipse até que o dono da alma decida deixá-la brilhar.

E, nós, coitados, somos seres ingênuos, teimosos e despreparados: muitas vezes precisamos que alguém consiga nos mostrar que nossos pés foram feitos para se andar.


|| The Rasmus - In the Shadows: no dia em que eu ouvi essa música levei um soco no estômago: ela era um pedaço podre de mim flutuando por aí: agarrei esse pedaço, abracei forte, virei Helena e agora ele, grato, anda já sarado de muita coisa.



| cartum |
minha querida a mostrar que quem lasca tudo é a gente mesmo.







susanita sendo igual a tantos.









:::: essa mulher, na minha opinião, pode até não saber ainda cuidar de si: mas ela sabe cuidar das palavras e do som como poucos. amo.




aqui.

9 comentários:

Flôr de Azeviche disse...

Helena, quando você fala dos medos... Vejo que um medo que vocÊ tem, eu também tenho.

- na hora da morte olhar para trás e desejar ter vivido outra vida.

Mas esse medo vem quando eu estou nos meus momentos de "que as pessoas não entendem que eu gosto de ser como eu sou" Vou levando...

E falando da Amy. Cara, adoooooro essa mulher.

Beijoos

[seguindo o seu blog ^^]

Sdref disse...

Adorei o texto e adorei a música...
Bom, eu nunca consegui viver sem ser intensamente - haja visto que costumam me discrever assim, intensa -, sem ser buscando os pedaços de mim soltos pelo mundo que nunca preencherão o meu poço sem fundo, o meu saco furado de desejos, anseios, mudanças, evoluções e aprendizado. Acho, aqui com meus botões, que a maior qualidade das pessoas é viver em busca de alguma coisa, de tudo, de todos, do melhor. Se um dia eu me encontrar estagnada, sem nada para buscar, correr atrás espero que a própria vida mude isso, espero poder dizer a mesma frase que Eisnten:
"Quando você acha que sabe todas as respostas vem a vida e muda todas as perguntas..." (amém!)

Quanto aos medos, eu concordo com o terceiro... Deixar passar a intensidade por medo de vivê-la porque eu sei que me arrependeria intensamente (rs) depois. Tudo que é intenso dura mais dentro da gente, ensina mais e deixa memórias mais gostosas...

Amei o quadrinho da Mafalda, roubei a frase e coloquei no Orkut. Mafalda é mesmo o máximo...

Amy sabe mesmo usar as palavras... Pena que tenha virado quase Jovem Pan já...

O clipe, nooooossa, realmente um soco no estômago...

Bjssss

morgana disse...

Adorei tudo por aqui.
E venho deixar meu beijo.

;)

Iris disse...

Olá.
Gostei daqui.
Muito interessante o texto.
Parabéns pelo blog.
=**

Boudeccá disse...

Oie Helena,
Não sou fã de política, por isso não comentei o post anterior mas esse daqui, poxa, amei. Você é mto intensa em tudo q escreve, isso é uma característica sua que me faz voltar sempre pra cá. Eu tenho um tremendo orgulho de ter sido sua companheira de estréia na lesbosfera. Adoro ler vc. Beijo grande no seu coração, e que tudo na sua vida seja tão lindo quanto ele.

Helena disse...

::: flôr:

entendo demais. são nesses momentos também que esse medo palpita em mim. mas acho medo um troço importante: ele nos deixa conscientes sobre o agir.

Daí é como você disse mesmo: 'vou levando'. ;]

Cada dia mais vejo que o que a gente tem que fazer é isso mesmo: abrir os braços e deixar que a vida nos dê o que quiser. ;]

~~ tãaaao bom saber que tenho sua companhia aqui! :*

um beijo grande!


::: ferds:

eu AMO essa frase do Eisten!! É isso mesmo!!
A gente é matéria-em-construção-sempre! E graças, né? Por isso mesmo até nossos medos vão mudando com gente.

-- "Acho, aqui com meus botões, que a maior qualidade das pessoas é viver em busca de alguma coisa, de tudo, de todos, do melhor." EXATAMENTE!!!

Eu sempre brinco dizendo minha profissão é na verdade caçadora de sorrisos. Porque acho que a gente está aqui para isso mesmo: para se cercar do que nos faz bem, para vencer o que nos faz mal e para, continuamente, nos transformar. ;]

~~~ oba!! mafalda conquista mais uma!! ela é perfeita, né? eu tenho três bíblias nessa vida: o pequeno príncipe, o poder do mito, e a TODA MAFALDA!! KKKK!

bjooooo!


:::morgana:

Mô, que bom lhe ver por aqui!!
Já estava pensando que você tinha abandonado o Sapatilhando! Oo
Não faça isso não, viu? ;]
Um beijo grande!

::: iris:

iris, que bom!
seja muuuito bem vinda!
espero que você volte mais vezes!
um beijo!

:::lezzie:

minha amiga, você pode tudo! rs. até ser observadora silenciosa! rs. fico com saudades das suas palavras, mas só de saber que você tá por aqui fico feliz! e orgulho muito do lado de cá também que foi mesmo algo muito legal a inauguração do Sapatilhando ter sido junto o Lezzie Grrrls e, com isso, com você: que sempre tem doçura e beleza para distribuir. um beijo grande e querido.

mara* disse...

adoro Amy, não canso de ouví-la, uma pena que ela não se ame.

o casalqseama* disse...

oi, helena.
somos responsáveis, temos direitos e deveres, temos que acordar, que cumprir, que produzir, que ter, mas o ser é a parte mais difícil... é dar-se conta do que há dentro, do que se tem medo, do que se pensa, do que vem e do que ainda não foi.

belíssimo texto. indentificação total, pois pessoas como tu, como eu, não têm vergonha de buscar, de cair pra levantar, assim se parende o que é o ser, afinal, não se nasce pronto e pra isso servem as evoluções e transformações. só lamento por aqueles que acham que ser pré-fabricado pela sociedade ou regras impostas é a grande felicidade...

que venham as descobertas, as dúvidas e, quem sabe, as certezas!

te encontrei pelo blog da sandrinha. adorei... já tá linkada!

um bj carinhoso da fê* =D

Sdref disse...

Eu ainda não entendo como podem achar que Einstein era autista... Com frases como essas, tão profundas.. eu não espero isso de um autista... Pelo menos os que conheço são super inteligentes, mas superficiais, sentimentos e coisas mais humanas não costumam lhes importar...

"continuamente, nos transformar" - PERFEITO! É tudo que eu procuro na vida, me transformar... Para melhor, claro!

"caçadora de sorrisos" - Nooooossa... Posso me descrever assim? rsss!

Mafalda já me conquistou há um tempo... Adoro! Sempre!
O Poder do Mito, procurarei mais... Nunca li...
O Pequeno Príncipe, li algumas milhões de vezes... Até comprei o filme (não tão bom... mas coleciono dvds)... Melhor parte? A rapousa dizendo a ele que diga que horas chegará porque, assim, ele começará a curtir sua chegada antes... Mas se ele disse que poderá ir a qualquer hora ela não poderá esperar por ele... Acho lindo esse diálogo...

Bjsssss