domingo, 23 de novembro de 2008

| não olhe no espelho de passagem minha pequena|

ou COISA POLÊMICA # 3

Não. Realmente não tem como eu conversar com você sobre ‘coisas polêmicas’ sem chamar a ajuda de outras pessoas.

Veja, quem sou eu?
Eu sou autoridade de mim apenas.
Sei da minha vida e cada ato meu é carregado de conseqüências: e eu as quero mesmo.
Se não as tivesse, de que me adiantaria agir? Oo

Mas para trazer à tona assuntos que generalizam uma temática, eu sou apenas uma mulher de 29 anos que ainda está aprendendo um bocado de coisas...

Um dos quadros que mais amo é do pintor belga René Magritte (1898–1967) chamado The Treachery Of Images (1928/1929) – ou, ‘a traição das imagens’, em tradução livre.



















Esse quadro diz tudo: você olha para ele e vê um cachimbo.
Mas a frase que está nele lhe avisa: “Isto não é um cachimbo”. oO

E você fica ali olhando, se achando a criatura mais louca do mundo: “Mas eu tenho certeza de que isso é sim um cachimbo!”.

Aí, embevecida com a imagem, concentrada na reflexão que ela lhe desperta, você finalmente percebe: “Mas é claro que isto não é um cachimbo! É apenas uma imagem de um!”.

Clarice Lispector diz:

estou sendo e ao mesmo tempo me fazendo

É isso, entende?
Eu ‘estou sendo e ao mesmo tempo me fazendo’.
Você está sendo e ao mesmo tempo se fazendo.

E eu não sei, pequena, eu não sei da sua história...
Você está cuidando de você?

Não sei como lhe criaram, não sei o que lhe disseram, não sei o que te convenceram a pensar quando se olhasse no espelho... queria te abraçar. Apertada e longamente: porque no momento em que palavras não cabem, o abraço fala tudo o que precisa ser dito.

Mas não cabe a mim esse abraço. Não posso te resgatar.
Posso, no mínimo, te dizer coisas belas.
Te mostrar o colorido que vejo no mundo.
Mas serão os meus olhos vendo isso tudo.
E é necessário que os seus vejam.

Não quero sua dependência.
Quero, isso sim, você livre e solta como uma borboleta.
Quero você voando alto, olhando admirada para a altura que conseguiu chegar.
Lá de cima, meu amor, os problemas ficam tão pequenos. Minúsculos. Porque você está voando. Livre.

Você não é um cachimbo, meu amor.
Você nunca será um cachimbo!
As pessoas sempre olharão para você pasmas tentando entender por que você não é um cachimbo!!

E por mais que você grite: “EU NÃO SOU UM CACHIMBO!
Ainda assim, você nunca conseguirá convencer a todos.

Você é uma imagem passante, minha querida.
E por ser passante para todos, todos só conseguem ver essa confusão de você não ser um cachimbo.

A única pessoa que tem acesso a você o tempo todo é você mesma.


Como você quer ser entendida?
Minha querida, por favor, como você quer que te decifrem?

Isso não é justo.
Não é.

Renato Russo já dizia isso em relação a pais:

Você me diz que seus pais não lhe entendem. Mas você não entende seus pais

Não entendo, meu amor.
Não entendo a necessidade integral de se ser entendida.
Não entendo a necessidade de querer que outros lhe mostrem um sentido que deve ser seu.

Nem eu me entendo.
Como posso depositar essa expectativa em outros?

Eu sou um ser mutante.
Caibo dentro do tempo.
E a cada momento, a vida muda o meu percurso.
E eu me transformo junto com o novo caminho.

Clarice diz:

Escrevo-te em desordem, bem sei. Mas é como vivo. Eu só trabalho com achados e perdidos.

Querida, cada um de nós ‘só trabalha com achados e perdidos’.
Nos perdemos e nos achamos o tempo todo.
Nos perdemos para então nos achar.
E nos achamos para então nos perder.

É dessa desordem que construímos o que chamamos de vida.
Que nada mais é do que uma existência que cabe dentro de um tempo findo.
Tudo em nós é limitado: exceto o sentir.
O sentir é tamanho que nos transborda e toca outros de nós.

Por isso a necessidade de você olhar com calma no espelho, meu amor.
Não há outra razão para isso a não ser uma: a imagem que lhe olha de volta é a sua.

E Clarice arremata:

Espelho é o espaço mais fundo que existe

Você é o espaço mais fundo que existe.
Olhe com calma para ele. Para a sua profundidade.
Se conheça. Se ame. Passe tempo com você.
Tente se entender antes de esperar entendimento.

Perceba que é você quem coloca comida na sua boca.
O ato de se alimentar é esse: entre sua mão e sua boca.
E tudo na vida é um auto-alimentar-se.

Eu te amo sim.
Mas te amaria mais se você também se amasse.
Te amaria mais se você me traísse com você mesma.
Te amaria mais se eu tivesse o medo-conquista de você, de repente, nem precisar de mim – de tão independente e auto-suficiente que você se tornou.

Aí então eu teria certeza de que você se apaixonou pela pessoa certa:

Você mesma.

_____

|| esse vídeo foi um presente que encontrei por acaso. as pessoas sempre nos falam que 'não perca oportunidades' que o único momento que se tem é o agora.. e parece, que continuamente esquecemos. esse vídeo mostra isso. é lindo. e é uma porrada. e é uma pena: porque a vida é, como diz Clarice, "de uma violência mágica". e a nós, bem, só nos resta aprender com toda essa violência e com toda essa magia. (não tem jeito: sempre choro com esse vídeo. dói. dói a dor de tempo perdido que não volta mais). A FRASE DO FINAL DIZ TUDO!!


| cartum |
mafaldinha de novo: porque amo assumidamente.
e porque se precisa de uma única coisa apenas: coragem. né Mafalda?







| Ella... que é um som que me abraça dos pés à cabeça, apertadinho e gostoso.
Ella Fitzgerald, These are the blues (1963).




clique aqui.




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AH, SOU SOLTERÍSSIMA, VIU? RS. O "VOCÊ" DO TEXTO SOU EU MESMA (OU PURA RETÓRICA, COMO SE DIZ..) - E QUEM QUER QUE SE IDENTIFIQUE COM ESTA HISTÓRIA...

---- ESSES TRECHOS DA CLARICE FORAM TODOS RETIRADOS DO LIVRO DELA "ÁGUA VIVA" - TINHA ESQUECIDO DE DAR ESSA INFORMAÇÃO ESSENCIAL (ESSE, ALIÁS, É UM LIVRO-ORGASMO PARA MIM :: PER-FEI-TO!! - CLARICE EM SUA ESSÊNCIA MAIOR!) :]

12 comentários:

Flôr de Azeviche disse...

Meeeeu Deeeeus, que post foi esse, mulher?
Adorei, o quadro do cachimbo é muito bom, acdorei a sacada.
E os trechos que você coloca de Clarisse nos seus posts embelezam cada vez mais esse lugar que eu adooooro ^^
Beijooos

o casalqseama* disse...

perfeito... adorei e captei a mensagem! realmente a única pessoa que pode fazer algo por vc é vc mesma...




obrigada.
bjs da fê =D

Sdref disse...

adorei, mas eu sempre tenho de ler de novo e de novo para tirar tudo que se pode, rs! Sei que, depois, terei mais coisas a dizer mas, a princípio, amei! me identifiquei completamente.. mas desenvolvo daqui a pouco... primeiro tenho que dizer que tb amo Magritte, mas o quadro dele que mais amo é:
http://interface-artecontemporanea.org/imagens/ana%20anacleto/condicaohumana1935_magritte.jpg
(tentei descrever e não consegui, fica o link pra imagem). Ah! E anteontem andei olhando várias telas dele porque foi a comemoração de 200 anos do nascimento dele.

Voltando ao texto... Perfeito! Completamente me achei mesmo nele! rsss. O final então... É simplesmente tudo que eu preciso aprender... Ou quase tudo porque eu já aprendi a passar muito tempo comigo mesmo e a adorar isso.. Graças a Deus. Sem falsa modéstia, eu ando me achando a melhor cia do mundo, rss!

Quanto à imagem, certíssima. Não adianta, somos sempre uma imagem do que realmente somos. Querendo, ou não, transmitimos uma parte do que somos e isso é ainda mais complicado quando pensamos que a comunicação tem meio e receptor e a esse último cabe a livre interpretação de tudo que recebe, ou seja, muitas vezes nós podemos, além de sermos reduzidos a uma imagem, nos tornarmos uma imagem distorcida. E eu sei bem como é isso, como é descobrir que as pessoas nos enxergam como uma distorção de nós mesmo. Mas tudo bem, fazer o que? Essa é a vida... Aprendi tb a deixar pra lá o que pensam os outros. rs!

Tô falando demais, né? Mas já termino dizendo que AMEI esse da Mafalda... Nossa... Todas as minhas manhãs são assim. rss! E o vídeo, dessa vez preferi não assistir... Hoje é domingo e domingos já são depressivos. rs!

Beijos moça!

Lorena disse...

Também adorei o conotivismo da mensagem, o caximbo e tudo mais... A mensagem é linda e esse vídeo tb me faz chorar.
E Clarice! Nossa... Me embriago com Clarice, posso citar uma frase que seu post me fez lembrar? Se encaixa bem no seu texto, fique a vontade para usá-la, não é minha mesmo:

"Nada existe de mais difícil do que entregar-se ao instante. Esta dificuldade é dor humana. É nossa."

Beijos e bom finzinho-inho de domingo. =)

luisa soler disse...

gostei muito desse teu post.. é maravilhoso.
me identifiquei bastante.
e adorei as referências..
clarice.. ella.. renato russo.. mafalda... / amo muito tudo isso. rs..
parabéns pelo blog.

um beijo

de mulher pra mulher disse...

Oi moça..como sempre vc se supera heim..perfeito!!
uma linda noite de paz!!
bjos..em seu coração
.
.
Sandrinha

Daniely disse...

Estou lhe bisbilhiotando agora...e sabia que minha curiosidade me levaria a lugares fantásticos...adorei o texto, o modo "eu comigo mesma", vc falar de Clarisse...

^^'

um beijo!

Coração Vulgar disse...

Sempre vamos aprender mais, sempre vamos evoluir e sempre veremos cachimbos representados naquela imagem, ou não...

E isso sim é viver!!!

Beijos.

Helena disse...

:::Flôr!:

ô, Flôr, Flôr... você viu que deixei um recadinho para você e sua Rosa no post passado?

adorei você ter adorado! :]
empolga, sabe? :P

rs.

um bjão (pegando emprestado o seu perfume, flôr) :*


:::Fê:

Fê! Que bom lhe ver por aqui de novo!!
Obrigada você, moça...
É isso né? Façamos por nós porque somos nós mesmas quem devemos fazê-lo! ;]

um bjão!


:::Ferds:

Ferds, juro, me adooooro seus comentários! rs
Dá vontade de conversar tudo de novo com cada parágrafo! rs

Foi sim! Os 200 anos do nascimento dele! Até salvei o logozinho que o Google (ah! perfeito Dr. Google!) fez em homenagem a ele!! AMO! - E adoro sim a que você me mostrou (a condição humana).. Mas é que 'A traição das imagens' é de uma simplicidade bestificante, sabe? tem coisa mais complexa que esse tipo de simplidade? Oo
Pasmo com o brilhantismo desse povo!

Ora pois veja, hoje já é segunda! Já dá pra assistir o vídeo?? Oo -- eita.. segunda é fodis, né? Deixa pra assistir na terça ou quarta então.. rs

~ e pode falar e falar que adoooro! oras!

bjão!!


:::Lorena:

essa frase é tudo mesmo! aliás... sei não... clarice é êxtase para mim... já agradeci tanto à ela ela ter existido! rs. ela ter vivido seus conflitos e ter feito suas reflexões... aprendo tanto com ela.. sindo tanto com ela... clarice é it. é coisa que não cabe em palavra e existe através de palavras: clarice é um paradoxo.


ah! vi o recadinho que você deixou no meu post "carta à mãe". brigadão pela força, viu? mãe é bicho complicado mesmo: fica ali dançando a dança do abraço-não-abraço o tempo todo. necessária. absolutamente necessária. tanto que gera tanta mistura de sentimentos. rs.

bjão, menina!
tão bom ver que você está ficando mesmo!! :*

:::luisa:

ah, luisa! amo-muito-tudo-isso-também!!! :]
rs. um bjão, viu?
seja muito bem-vinda!
espero te ver aqui de novo! ;]


:::sandrinha:

ô, sandrinha... você e seus abraços apertados.
gente, e aquele vídeo no 'de mulher para mulher', hein?
amei! e confesso que as fotos que tu coloca no teu cantinho.. hummm.. rs.

bjão!


:::daniely:

mas, D. Daniely! ainda bem que você estava bisbilhotando nessa hora! rs. Que bom lhe ver por aqui!
Volte, viu moça?
um bjão!


:::Coração Vulgar:

é mesmo viu, coração... é mesmo..
e adoro suas conclusões positivas!
(sou poliana assim também!)

isso sim é viver! ;]
bjão!

Sdref disse...

Eu de novo...
Bom, depois me manda a logo que o Google fez pra ele? eu não vi...
Eu concordo que "A traição das imagens" tem uma simplicidade única e brilhante, mas "Condição humana" ainda me encanta pela estética mesmo, pela ilusão de ótica que causa se vc olhar de passagem... Parece que é tudo um grande buraco na parede, sem sê-lo. E ainda acho as cores lindas... Tudo nesse quadro é lindo... Sou apaixonada por ele de verdade!

Quanto ao vídeo, quinta-feira eu assisto pq minha chefe chata vai embora às 17hs e eu fico mais feliz por ficar sem ela perto de mim. rsss!

Big beijos

le fou disse...

Eu sou minha melhor companhia já nem sei desde quando. E como já tinha me referido no comentário anterior isso me levou a desistir de procurar satisfações quaisquer no outro. E assim posso dizer talvez numa dura constatação: não posso sentir saudades.

Bruna B. disse...

Helena, você é praticamente uma filósofa :) rs'
Mais um texto PERFEITO! Parabéns! Você é super talentosa, ótima escritora e acho que você deveria ir além do blog hein :D
Muito sucesso! bjo :*