quinta-feira, 27 de novembro de 2008

| sobre tragédias e igualdade: porque é hora de dar as mãos |

É que vivemos de tragédias.
Sempre.

Somos tragédia ao perder nosso lar submerso e seguro em nossas mães: e aí nascemos.
Nascemos de tal forma em meio à tragédia de perder um mundo, que nascemos chorando. Que outro ser nasce chorando, meu Deus?

E vamos ao longo da vida vivendo nossas tragédias:

A tragédia de entender que não poderemos engatinhar sempre: é obrigatório aprender a caminhar.

A tragédia de ter um coração completamente estilhaçado e ter que arranjar formas de consertá-lo.

A tragédia de conviver consigo mesmo 24 hrs por dia: 365 dias do ano: enquanto vida se tiver – goste-se ou não de si.

A tragédia de ser escravo do tempo: de estar-se submetido a ele: de depender-se dele para tudo.

A tragédia de se estar sempre aprendendo: a comer: a vestir-se: a levantar-se: a acordar: a crescer: a ser profissional: a ser amante: a sentir saudades: a amar: a ter bom-senso: a saber se defender: a saber ignorar: a saber perceber: a saber lembrar: a saber esquecer...

Em nossa individualidade, em nossa relação consigo mesma, em nossa eterna administração do nosso próprio viver, vivemos de tragédias mis: de pequenos e grandes portes.

Mas há tragédias coletivas. Tragédias que acabam com quaisquer diferenças e nos jogam a mais cruel de todas as verdades: somos sim todos iguais.

Quando se tira o emprego, o cabelo, a cor da pele, a sexualidade, a classe social, a idade, o gênero, os gostos: lá estamos nós: sem nome: matéria humana pulsante: iguais.

(a igualdade é só uma questão de proximidade: de perto, sem máscaras sociais, lá estamos nós: pequenos e iguais)

Donos de uma mesma tragédia coletiva e única: donos de uma mesma luta: a sobrevivência.

Santa Catarina está debaixo d’água.
Eu não assisto televisão, mas tenho acompanhado a tudo pela internet e por e-mails que tenho recebido de pessoas que moram lá. E meu coração está apertado. Muito apertado.

Quem se interessa que a Carla que mora lá é lésbica nessa hora? Quem se interessa que o Thiago comeu o melhor amigo dele no dia em que os pais foram comemorar o aniversário de casamento na pousada em que noivaram? Quem se interessa que a Amanda chorou semana passada a noite inteira porque percebeu que está apaixonada pela prima? Nem a Carla, nem o Thiago, nem a Amanda se interessam por isso no momento: porque isso seria uma diferença. E a grande conseqüência da urgência é gerar igualdades.

E há sim a urgência. Há a urgência de se perceber que somos todos um. Que o teu choro me gera lágrimas: que o teu riso me faz sorrir: que a tua dor me machuca.

Há essa urgência gigante de se perceber que se a tua casa está embaixo d’água também eu estou com frio.

Há essa urgência grandíssima urgentíssima seriíssima de se perceber que se você pode se casar com o seu grande amor, também é justo que eu possa.

Há a urgência de se perceber que se você pode beijar a sua namorada, eu também devo poder beijar a minha.

Há a urgência de se perceber que se o filho do Sr. Roberto levou um murro porque é gay, o meu olho também está roxo e inchado e dolorido. E a minha alma também dói.

Há a urgência de se perceber que se a Laura foi expulsa de casa porque confessou ser lésbica, também eu estou sem lar, sem segurança e sem carinho.

Há a urgência inadiável de se perceber que se você pode comer e ler e se divertir, também é certo que eu possa comer e ler e me divertir.

Somos um. Somos todos. Somos qualquer um.

E já é hora de darmos as mãos.
Já é hora.

Eu estava olhando algumas das fotos das ruas e bairros submersos de Santa Catarina. E senti pesar pensando não apenas nas pessoas, mas nos bichos: Cadê os cachorros, meu Deus? Não vi foto de cachorro ainda em canto nenhum! Onde estão eles?

E frente a tanta dor, a tantas igualdades, a tantas histórias e tragédias eu não pude deixar de pensar em Deus.

No outro dia, um grande amigo colorido me ligou e, em meio a tentar achar palavras para lhe ajudar a sentir menos dor sobre o que ele temia ser um ‘pecado’, começamos a falar sobre Deus e eu lhe disse:

Meu amigo, você já parou para pensar sobre a razão maior de Deus nos amar? Veja, de que nasce a compaixão? A compaixão nasce justamente de se ter a consciência de que se você estivesse no lugar daquela pessoa, você estaria tão encrencado quanto ela. A compaixão nasce de se perceber que a outra pessoa está em apuros. Vou lhe falar uma coisa que talvez lhe choque: você acha que Deus daria conta de ser humano? Deus é encantado com a gente porque como ser Ilimitado, Ele não pode conceber as dificuldades que passam um ser cheio de limitações! Ele sente através de nós. E Ele é encantado conosco justamente por isso! Porque são de nossas tragédias, mesmo falhos e fracos e limitados e errôneos, que ressurgimos uma vez mais para enfrentar o novo dia.

Como diz Campbell:

É por essa razão que algumas pessoas têm dificuldade em amar a Deus; nele não há imperfeição alguma. Você pode sentir reverência, mas isso não é amor. É o Cristo na cruz que desperta nosso amor.”

E é essa a imagem que me vem: de nossas c
ruzes e do amor que necessita ser desperto.

E é isso: mesmo falhos e fracos e limitados e errôneos é necessário que ressurjamos uma vez mais para enfrentar o novo dia.

Cada um de nós.
E de mãos dadas. Mesmo que ainda se tenha um número limitado de mãos para se dar.
________

| uma amiga minha me mandou esse vídeo dizendo que se lembrou de mim ao vê-lo. é de uma beleza e sensibilidade extrema. e mostra justamente isso: de cada um fazer a sua parte. porque a gente contamina os outros sim: coisas boas têm esse poder. NÃO DEIXE DE VER, VIU? :]


| cartum |
mafaldinha sentindo em si a dor de outros: a noção de igualdade é isso.


| ai. eu precisaria de um post inteiro para falar sobre esse filme. então nem vou falar, né? :P não dá em espaço nem em tempo. mas pulei aqui de felicidade quando achei por acaso a trilha sonora dele - que é PERFEITA! mas um aviso aos navegantes: é uma trilha sonora que lhe deixa em um 'pesar-reflexivo'. o que é isso? bem, não é uma trilha sonora leve: pelo contrário: ela fixa teus pés no chão com uma violência avassaladora. me peguei pensando até na morte da bezerra (como se diz aqui no nordeste) ouvindo essa trilha sonora.
agita tudo por dentro. nossa. poderosíssima.

Na natureza selvagem - trilha sonora.






clique aqui.





-- CAMPBELL, MAIS UMA VEZ, NO 'O PODER DO MITO'. PARA LER ALGUNS TRECHOS, VÁ AQUI.

13 comentários:

Coração Vulgar disse...

Sim, vivemos meio a tragédias, somos naturalmente trágicos...

Mas é da dor trágica que vem o crescer, o amadurecer, os belos sambas, a poesia, o viver...

Beijo Grande!

Sdref disse...

Oi querida!!!

Perdão pelo sumiço, é que ando tão estressada com meu trabalho e com tanta coisa acontecem aqui pelas Minas Gerais que eu tenho dormido mais que tudo, rss!

Bom, mas deixa as coisas ruins pra lá, vamos ao seu texto... Não sei se é porque estou sensível ou porque eu sou sensível ou por outro motivo, mas fiquei com olhos banhados d'água ao ler sobre a igualdade.. Nossa, sentir a dor do outro é uma especialidade minha.. Acho que por isso me estresso ainda mais que o normal...

Amei tb a frase:
"A tragédia de ter um coração completamente estilhaçado e ter que arranjar formas de consertá-lo.". Minha dura realidade...

Amei mais ainda quando vc fala que se você tem direito de se casar com o amor da sua vida todos também temos.. eu quero mais que ter esse direito, eu quero ter o poder de escolher, entende? Odeio quando o Elton John fala que é contra o casamento gay porque é uma instituição heterossexual. Porque eu não quero ter o direito de casar para me igualar aos heterossexuais, eu quero ter o direito de escolher me casar ou não como os heterossexuais. Não sou melhor nem pior que eles, logo...

Ouuuuutra coisa, os cachorros em santa catarina.. Bom, eu vejo alguma TV e digo que hoje comentei com minha avó que a gente não ouve nada sobre os cachorros e eu amo tanto os animais que me doe muito pensar nos que podem ter sumido na água e ficarão vagando procurando suas casas... Meus olhos ficam novamente banhados d'água...

A Mafalda, se ela aprender a colocar band-aid na alma eu quero que me ensine... Mas vou deixar a Johnson & Johnson MUITO milionária. rsss!

No mais, vou responder vc lá no meu blog...

Bjsss querida

Lorena disse...

Vamos começar do começo:

O seu texto me deu um eterno nó na garganta. Eu queria gritar tudo isso, fazer coro com você, é o que sempre tento pelo menos. Dizer que a igualdade do Amor está na compaixão. Se Jesus disse "ame ao próximo como A TI mesmo", é porque você precisa estar em consonância com o que VOCÊ é em essência pra conseguir se colocar no lugar do outro, e então amá-lo (Não sei se existem muitos anti-cristãos que vêm visitar seu espaço, mas me permito o direito de citar o Cristo porque as palavras dele sempre me chocam). Muitas pessoas acham que entendem de amar por tentar fazer com o outro o que gostariam que fizessem com elas, mas não é assim; é tentar fazer PELO outro o que você gostaria que fizesse POR você. E isso significa acima de tudo respeito, sempre, não existe amor sem respeito. E respeitar é sim assegurar os direitos de todo e qualquer ser humano. E também é se solidarizar com seu sofrimento, isso é respeitar a tragédia alheia. E respeitar é entender o espaço do outro, a vontade do outro, o gosto do outro, a natureza do outro...

Mas esse mundo tem muito que aprender ainda. É sempre bom saber que existem pessoas que entendem a "moral da história" dessa vida nossa.

Agora o vídeo, é incrível!! Esse eu não conhecia... gostei muito. =)

E Mafaldinha... ela sempre deixa meu coração apertado com suas indagações infantilmente maduras. É linda! =)

beijos, Helena, adoro vir aqui!

O Profeta disse...

Sou palavra perdida no silêncio
Gerada no ventre do Mar
Grinalda de perdidos sonhos
O passado do verbo amar

Amei!
Voar na chegada de cada Primavera
Pintar de luz as cores do verão
Pisei o tapete das folhas de Outono
Acendi em cada inverno uma fogueira de paixão


Convido-te ao encontro com o meu “Eu”

Bom fim de semana


Mágico beijo

Flôr de Azeviche disse...

Sim, as tragédias estão aí cada vez mais.
Eu vi o vídeo, eu não tenho muito o que dizer sobre, mas enfim...
E sobre o comentário anteror, valew pela dica, nunca li dele, vai ser bom...
Logo mais colocarei um post sobre como eu estou.. =)

Beijo
PS: você está no leskut?

luisa soler disse...

into the wild é um filme poderoso, passa uma mensagem poderosa.
o final, em especial, considero perfeito.
e a trilha se encaixa perfeitamente. / acho que vem mto da amizade do eddie vedder com o sean penn, diretor.
e o ator principal, o maravilhoso Emile Hirsch, está ótimo, como sempre.
O filme é um impulso. Dá uma vontade de fazer coisas boas e poderosas depois de vê-lo.
...e essa sociedade..é realmente.. doente. como Eddie Vedder canta em uma das músicas:
'When you want more than you have, you think you need...
and when you think more then you want, your thoughts begin to bleed.
I think I need to find a bigger place...
cause when you have more than you think, you need more space...'
society: a crazy breed.

-
Beijo

le fou disse...

eu sempre tive vontade ter um laco de amizade com as pessoas e o que elas precisassem de mim eu ia oferecer, mas parece que elas nao estao dispostas a se sacrificarem umas pelas outras.
entao fica dificil as vezes so me oferecer e a pessoa nunca estar disposta a dividir o peso que estou ajudando a carregar.

*** Cris *** disse...

Olá,td bem?
Acho que somos o reflexo um do outro quando estamos de mãos dadas.
Bjs!!

Helena disse...

::: coração vulgar:

é sim, coração, é sim! ;]

bjo!

:::ferds:

ai, ferds, nem me fale! Oo
correndo aqui também.

e, tipo, meus amigos já sabem:
me fale até de gente sofrendo mas de bicho não!!
me dói até a alma e me tira as forças.


kkkk! (sobre o comentário do band-aid!) :P

bjocas!!

:::lorena:

CONCORDO PLENAMENTE, lorena!!

e adoro que você venha por aqui ;]

bjo!!


:::o profeta:

não entendi não.
juro.

:P

:::flôr:

doida pra saber como você está sim! (de preferência no plural!!!) ;]

tô lá sim!
quer dizer: acabei de entrar.
tava pensando já há um tempo, mas sem saco de ter mais uma 'ferramenta' para administrar. :P

bjão!

:::luisa:

ei moça-bonita!
into the wild é arrebatador mesmo!
te agarra pelo estômago.
estou louca para ler o livro. mas só vou inventar isso próximo ano.

a trilha sonora é mesmo uma casadinha perfeita.
e concordo com você que a amizade Penn/Vedder teve muito a ver com essa sintonia.

bjão!


:::le fou:

moço, há pessoas e pessoas.

mas acredito que a gente tem que buscar o equilíbrio. nem se doar demais a ponto de sempre esquecer de si, nem nunca se doar a ponto de não lembrar do outro.

creio no lema do profeta: gentileza gera gentileza

;]

bjo.


:::cris:

oi cris!
que bom lhe ver por aqui de novo!

acho mesmo que ficamos maiores e criamos mais reflexos quando damos as mãos.

mudo tudo isso.

um bjão!

(d)ela disse...

gostei do seu espaço ^^
voltarei aqui mais vezes para ler tudo calmamente :)

Bruna B. disse...

Adorei, adorei! : )
E o vídeo passa uma mensagem muito linda também.
;* bjo

Amanda G. disse...

Quem de nós nunca tentou colar um band-aid na alma????

Beijos, querida Helena!

Amanda G.

Anônimo disse...

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