quarta-feira, 26 de novembro de 2008

| você deita de bruços, benhê? |

É que tudo na vida é uma questão de transgressão.

O próprio passo que se dá ao caminhar transgride: transgride o espaço: transgride o tempo: transgride o chão: transgride a pausa.

É necessário mudar o ângulo, entende?
É necessário romper o tempo: o próximo minuto depende disso.

José Saramago conta uma historinha no filme ‘Janela da Alma’: ele diz que quando era pequeno ia sempre para um teatro e via de longe maravilhado um dos camarotes do teatro. Muito tempo depois, já grande, ele pôde entrar no camarote e vê-lo por trás, por outro ângulo. Mais maravilhado ainda, ele tirou a seguinte conclusão: “Para se conhecer as coisas, há que dar-lhes a volta”.

Eu hoje tive saudades e tirei o Caio Fernando Abreu* da estante: e ele me gritou (ao som de Angela Ro-Ro):

só consegui te possuir me masturbando, tinha a biblioteca de Alexandria separando nossos corpos, enfiava fundo o dedo na buceta noite após noite pedindo mete fundo, coração, explode junto comigo, depois virava de bruços e chorava no travesseiro porque naquele tempo eu ainda tinha culpa nojo vergonha, mas agora tudo bem

E eu reli isso e pensei:
A maior transgressão aí é a fraseMAS AGORA TUDO BEM’.
A frase mais forte: a frase mais murro é essa: mas agora tudo bem.

Agora tudo bem é a consciência de um novo ‘eu’.
Agora tudo bem é tempo já passado: é crescimento: é cura.
Agora tudo bem é a transgressão humana sobre limites antes existentes.
Agora tudo bem é quando a gente consegue ‘dar a volta’.

Se eu deito de bruços? Eu deito sim. Mas achando tudo delicioso porque eu deito de bruços cheia de ‘agora tudo bem’. Eu deito de bruços com orgulho de quem eu sou: eu deito de bruços sem vergonha ou pudor algum: porque eu já dei a volta em mim e calcei minhas sapatilhas: e ando por aí com meus pés enfeitados e com um sorriso grande no rosto: com uma alegria indomável. Livre por ter dado a volta em mim.

E eu abro minhas pernas com a mesma naturalidade que abro meus braços: em um abraço sensual de mim mesma. Dei-me a volta. Agora está sim tudo bem.


* no livro: Morangos Mofados, do Caio Fernando Abreu.

_____

| poisé... sabe aquela história de que diminuíram a carga horária dos japoneses para eles terem mais tempo para descansar e eles foram e conseguiram um segundo emprego para esse tempo? p
ois então... a galerinha sem juízo me deu mais tempo: lascou: eu arrumo um monte de outras coisas para fazer com o meu recém-tempo-ganho! então... cá estou eu. lendo clarice pra quem quiser escutar :P. porque clarice eu leio assim: aos gritos pelo meu quarto.

| cartum |
dias lindos têm esse efeito, né, hagar?


| e para pular em alegria indomável sem medo de ser feliz ou ridícula nada melhor que agarrar o hidratante que fica na mesinha ao lado da cama e sair dublando o ABBA pela casa.

ABBA GOLD - tem coisa melhor não!




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6 comentários:

de mulher pra mulher disse...

menina du céu !!! não tem coisa melhor que ABBAmtó doida arás desse cd faz um tempão..
ai que texto heim!!!
fiquei sem folego ai.delicia...
uma noite de muita paz pra ti linda:)
beijos em seu coração
.
.
Sandrinha

Flôr de Azeviche disse...

Comecei a ler esse livro de Clarice, só que por motivos maiores, eu tive que parar. =/

Beijoos

le fou disse...

Por acasos, raras vezes, umas pessoas fazem o que desejam.
Uma boa coisa de se ver é: alguém fazendo algo porque tá com vontade, indo contra o coro da coerência. Pq ser coerente se a "realidade" é uma ficção?

Coração Vulgar disse...

O Caio Fernando sempre tem algo para gritar em todos os momentos de nossas vidas...
Ele, pra mim, é como o Drummond, impossível passar muito tempo sem ler e reler...

Beijocas.

Marcia Paula disse...

Clarice e Virginia Woolf são as grandes paixões da minha vida. Agora Abba...até tu brutas?Beijos.

Helena disse...

:::sandrinha:

menina, é mesmo bom demais!!
vixe! pulo sem medo de ser feliz com o ABBA! :]

bjo gigante, sandrinha!

:::flôrzíssima:

ai, flôr... :/
é um livro brabo mesmo para o momento que você está vivendo...
posso sugerir um que sempre me faz bem?

tem um livro do Fernando Sabino chamado 'Cartas perto do coração' que é uma coletânea das cartas que ele e a Clarice trocaram entre 46 e 69. nesse período tudo acontece: livros deles são recusados, casamentos se desfazem, amigos se reaproximam... etc. é uma delícia: e é o tempo, assim, condesado e resumido de uma forma que faz a gente perceber que tudo passa realmente... como dizia a minha avó: minha filha, tudo passa. até a vida.

um bjão, viu?
(ainda aqui na torcida por dias mais felizes)


:::le fou:

hômi de deus! é isso mesmo. e é mais que uma ficção (por ser pura apreensão de um momento) a realidade é móvel: está em movimento. e por isso mesmo é sempre fragmentada.

sobre o recadinho que você me deixou ali do lado, no tal do Cbox, assim você me acabrunha, rapaz! Oo
rs. te agradeço demais o cafuné, viu? mas veja: o potencial criativo nasce de um incômodo. e já pude perceber que você é um desses belos seres incomodados (viva! viva!), então é abrir a boca e soltar o verbo mesmo, viu? ;]

um bjão!
e que bom lhe ver por aqui! ;]


:::coração vulgar:

adoro suas visitas, coração!
sim, caio fernando é ácido.
ele sempre me agita.
delícia demais ser agitada, né? reorganiza as coisas!

um bjo grande, viu?


:::marcia paula:

valha me deus! agora que me lembrei que ainda não fui lhe ver esta semana! Oo
cruzes! um pecado isso!
vou lá já já!

e ABBA é paixão assumida e antiga! rs.
e um mico social também: porque basta eu escutar que saio pulando e cantando: não-importa-onde-eu-esteja! Oo hehe.

um bjo!