quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

da série: uma conversa

pois é, meninas... hoje a vontade foi de conversar assim: com som.

;]

(perdão pela quantidade de 'né' :P)

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

| o estado de graça, o tal do amor e a ortopedia da alma |

ou Mesmo que alguém mostre o caminho, é você quem tem que andar

(porque agora eu estou com essa mania de dois títulos) :P


É engraçado, viu. É engraçado como você me vem com essa história de que sou a pessoa mais centrada do mundo. De que vejo o mundo com olhos cor de rosa. De que sou a personificação do equilíbrio. De que a luz parte de mim e não do mundo.

Balela.
Isso, querida, é uma versão idiótica das coisas.

Em que o meu mundo é diferente do seu?

Não somos por acaso duas lésbicas armarizadas a lutar dia após dia pelo seu canto no mundo? Por poder sentir tudo o que sente?

Não somos, eu e você, a vontade ambulante e cotidiana de gritar para o mundo com força e violência: EU AMO MULHERES!! SOU LÉSBICA SIM, E DAÍ?

Não, querida. Nosso mundo é o mesmo.
A questão é que o estado de graça é um exercício interno.

Ou você acha que nasci vendo tudo lindo?
Ou você acha que sorrir é sempre algo fácil e gratuito?

Não, não...
Muitos dos sorrisos mais preciosos são sorrisos sofridos, conquistados centímetro por centímetro.

A questão é que enxergo o mundo (sim, este mesmo mundo que é também seu) como possibilidades. ESTA É A PALAVRA: POSSIBILIDADES.

Sei do poder do tempo. Ah, sei da imensa-força-devastadora-de-estruturas que o tempo é.

O tempo existe para transgredir a nós mesmas. Mas a grande questão é que para que essa transgressão nos transforme também por dentro (como inevitavelmente nos transforma por fora) é necessário andarmos juntas com ele: o tempo nos pede passos firmes, refletidos, por vezes impulsivos, mas sempre conscientes de suas conseqüências.

Centrada eu, querida?
Não... este não é um estado. Não é um ser-se: é um constante tentar: é um constante exercício: é um constante situar-se sobre a sua própria vida e sobre a sua responsabilidade perante a sua existência.

Eu juro que não entendo.
Será que você acha que as palavras acontecem sozinhas?

Querida, um livro nunca será mais do que um mero objeto inerte e sem valor se você não o ler. É a partir de sua interpretação que um livro passa realmente a existir. É a partir, veja, da SUA existência dentro do livro que você lê, que o livro realmente ganha significado, razão e valor.

Essa analogia é para a sua própria vida.

Os sorrisos estão lá, guardados.
As lágrimas também estão lá.

A questão é que para sentir tudo o que está guardado no livro, querida, é necessário lê-lo.

Senão a sua vida, que triste, é um livro na estante.
E não é para isso que livros existem.
E não para isso que você existe.

Eu?
Eu quero o bom e quero o ruim.
Eu quero o que me faz me sentir viva: interpretando: lendo.


Eu quero o céu e eu quero o inferno.
Eu quero a calma e eu quero o caos.
Eu quero o boiar e eu quero o nadar.
Eu quero o pacote inteiro.
Eu quero tudo o que este mundo terreno possa me dar.
Senão, bem... senão serei apenas os parágrafos fáceis e bobos que sequer precisam de muita interpretação.

Mas veja, minha querida, o tal do amor é nada mais do que o que nos impulsiona. Veja, ele pode sequer não existir: mas, e aqui está a pegada, nos faz buscá-lo.

É como um sonho, entende?
Muitas vezes você não realiza o sonho que havia sonhado.
Mas foi sonhar esse sonho, foi com o acreditar que ele era possível, foi com o lutar por ele que você chegou aonde você não teria chegado se você não tivesse sonhado.
Um sonho é caminho para outros sonhos-supresa.

Mas a questão é querida, que as coisas são um tanto mais fáceis quando cremos nelas.
Acreditar é na verdade um lubrificante para a vida.


Move-se mais fácil, entende?
As coisas nem sempre precisam de porquês, de explicações.
Eu creio e ponto. Ponto.
Por que eu creio? Respondo: porque eu creio.
E essa é a minha maior dádiva.
Não me esforço para crer.
Eis a diferença que, realmente, separa o meu mundo do seu.
Mas a verdade é que estamos tão próximas que posso te olhar: que posso te ver se contorcendo sem chão, quando o chão está logo abaixo dos teus pés!!

E grito com dor: “Pisa!! Pisa!! Acredita que o chão está aí!!! Ele está aí!! Por favor, pisa!!”

Mas a única coisa que posso fazer é crer: crer que um dia os teus pés acreditarão no chão que quer apóiá-los: no caminho que querem seguir.

E tenho a torturante raiva de te gritar: ontem foi um dia: hoje é outro: amanhã é outro mais: e o tempo passa. Sem misericórdia alguma, o tempo passa.

E eu tenho que conviver com essa dor diária: de te olhar caminhando em um mundo paralelo que na realidade é o meu mesmo mundo. Tenho a constante e dolorida consciência de te ver se debatendo no ar porque te falta a crença de colocar os pés no chão.

E o caminho está ali: no chão que você teima em não crer.

Sabe o que a Clarice diz?

Ela diz:

O estado de graça de que falo não é usado para nada. É como se viesse apenas para que se soubesse que realmente se existe. Nesse estado, além da tranqüila felicidade que se irradia de pessoas e coisas, há uma lucidez que só chamo de leve porque na graça tudo é tão, tão leve. É uma lucidez de quem não advinha mais: sem esforço, sabe. Apenas isso: sabe. Não perguntem o quê, porque só posso responder do mesmo modo infantil: sem esforço, sabe-se.
E há uma bem-aventurança física que a nada se compara. O corpo se transforma num dom. E se sente que é um dom porque se está experimentando, nunca fonte direta, a dádiva indubitável de existir materialmente.


Então você vem e me pergunta: para quê?
E eu tenho que te responder da mesma forma infantil de Clarice: Para nada.

Porque as coisas feitas de essência, não servem mesmo para nada. Não têm valor prático. Elas existem para ser-se. PARA SER-SE.

E eu que por vezes choro o amor de uma mãe que não sabe de mim, na realidade ganho outras tantas mães que sabem de seus filhos. E me alimento do amor delas. E é um amor tão consciente e grato que talvez me nutra bem mais. Porque o tal do amor, querida, não vem muitas vezes por inteiro! E temos sim que achá-lo aos pedaços! Qual o problema? Será você assim tão mesquinha? As coisas têm que ter o formato que você exige?

Não... nada é tão simples assim.
Isso sim é ver o mundo em cor de rosa.

Eu sei do mundo. E recebo-o.
Por inteiro e em pedaços.
Com suas muitas dúvidas e poucas certezas.
E quero isso: quero experimentá-lo.

Porque senão, querida, nunca caminharei nele verdadeiramente.

E quero para mim o que quero para você: os pés no chão.
Os pés criando um caminho sobre o qual se possa ao menos dizer:
não achei tudo o que queria, mas procurei tudo o que queria!

A alma não precisa ser perfeita.
Mas ela precisa de toda a ortopedia que possamos procurar para ela.
No fim das contas, tentar é a palavra que mais define a vida.

_____________

|| Okay. Hehe. A Srta. Pink canta essa música numa grande ironia-brincadeira para as coisas normais, banais e entediantes. E eu coloco ela aqui dizendo que a vida também canta isso: "se você me quer, você terá que me agarrar e me mostrar o quanto você me quer realmente" :P A questão é: e aí? topa o desafio constante?



| cartum |
meu queridíssimo Miguelito e suas conclusões-fofuras. ;]









| Conheci essa banda por uma amiga (para variar) e não largo mais! Sigur Rós é uma banda islandesa, o nome significa "rosa da vitória". É um must, com certeza. E diferente de tudo o que se ouve por aí.


Sigur Rós - Ágætis Byrjun - 1999




clique aqui.





para a discografia completa deles, vá aqui.

sábado, 17 de janeiro de 2009

| sobre liberdade, mensagens e sonhos |

ou Helena nua de alma

Queridas, a vida às vezes toma um ritmo frenético ou nos deixa dormente a ponto de não termos tempo ou coragem de conversar. Isso é o pior que se pode fazer. Pelo menos é o que eu acho.

Acredito que conversar liberta.
E é isso o que todas precisamos: sermos livres.


Livres de amarras sociais.
Livres de paralisia.
E livres, principalmente, de auto-censuras.

Estou vivendo um momento louco em minha vida: de fins e de começos.
E eu queria lhes dizer, vocês que vêm aqui me dizer Oi e usar seus minutos junto a mim, que eu aprendo muito com vocês. Que vocês me geram reflexões e que têm me feito pensar bastante nos últimos meses. Em especial, àquelas que aparecem tímida ou sapecamente em minha caixa de e-mail, agradeço a confiança de me fazer ouvido de suas vidas e incertezas.

Foi pensando no que duas meninas me falaram que resolvi escrever este post hoje.

No primeiro post deste blog, falei das diferentes fases da auto-aceitação da minha própria homossexualidade: disse que temos a fase de ‘minhoca’, de ‘casulo’ e de ‘borboleta’.

Bom, já aprendi que às vezes, escutando sobre o caminho de alguém, fica mais fácil seguirmos nosso próprio caminho.

Então, hoje lhes falarei coisas que fiz em minha própria vida, pequenos passinhos envergonhados e cheios de medo que fui dando para chegar onde estou hoje. Não que eu seja bem-resolvida já em relação a tudo: como já disse aqui antes, ainda estou aprendendo a ser lésbica. Pela simples razão de que qualquer caminho que decidamos enfrentar, sempre trilhá-lo será um processo: sempre com coisas a se aprender e a descobrir.

Apenas eu gostaria de deixar claro que a esta altura, o que eu acho é que o processo de dizer para você mesma que você é lésbica (ou gay, ou bi) está absolutamente ligado ao seu sentir-se à vontade sexualmente. A você perceber-se como um ser sexual (e que não há nada de errado nisso!) e aprender aos pouquinhos a lidar com o que você gosta. A SE CONHECER SEXUALMENTE.

Para mim, única filha mulher de uma família de classe média extremamente católica, a palavra culpa apareceu muito cedo em minha vida. Na minha casa, sempre houve dois pesos e duas medidas: meus irmãos sempre puderam coisas que a menina da casa não podia. E tudo em relação a sexo sempre foi um tabu para mim. Era, e é ainda (para meus pais, pelo menos), proibido: mulher deve ser casta e santa. (Égua!! Deus me livre!! Nã!!! :P)

Mas uma coisa eu lhes digo: se a gente começar a passar tempo consigo mesma, se a gente começar a se ouvir, a usufruir do enorme mundo e espaço que existe dentro de nós mesmas, é incrível: a gente vai construindo uma armadura de dentro para fora. E vai meio que ‘engrossando o pescoço’ e vai percebendo que podemos, aos poucos, nos dar a liberdade de sentir, de nos ouvir, de nos permitir.

Mas temos sim que aos pouquinhos ir quebrando certos tabus.

Como eu comecei?
Okay... lá se vai...
Eu comecei fantasiando. Já percebia o meu interesse por mulheres. Então comecei indo me deitar até mais cedo do que o que eu geralmente ia para ficar deitada criando histórias e personagens e situações em minha mente. Mulheres então apareceram em minhas fantasias. A princípio, eu tive muito medo.

Mesmo que tudo estivesse ali na minha cabeça apenas, parecia-me que todos estavam escutando o que eu estava pensando! Parecia-me que o que eu estava fazendo era incrivelmente errado e pecaminoso. E aí eu parava e pensava, coitadinha de mim, como que me enganando para me permitir: “isso não quer dizer nada, é só uma fantasia. É só hoje.” E repetia assustada como se aquele Deus barbudo e carrancudo estive ao meu lado vendo tudo o que eu estava fazendo e reprovando e se decepcionando comigo: “É só hoje, viu? É que estou precisando me sentir melhor...”.

Sendo que essa história de “só hoje” foi se transformando em dias e semanas... E quando eu vi, só havia mulheres em minhas fantasias. E aí eu me forçava a pensar em homens e... nada! Eu não queria. Eu não gostava.

Mas o bom, é que quando a gente vai se permitindo, a gente vai criando coragem, vai vendo sentido naquilo, vai percebendo que você se encontrou: que isso lhe faz sorrir.

E foi aí que eu tive a coragem de deixar nascer a primeira mulher que amei: a Jennifer.

Jennifer, claro (e infelizmente :P), é criação minha.
Ela é morena como eu, tem a minha altura, é canadense (nós falamos em inglês uma com a outra), e veio ao Brasil dar um curso em uma universidade quando nos conhecemos e nos apaixonamos. E aí, vendo que era impossível viver sem mim (hehe), Jennifer mudou-se para o Brasil e passamos a morar juntas.

E eu lhes digo: como a Jenny (apelido carinhoso para ela :] ) me ajudou!
Como, através dela, pude me permitir viver tanto sem sequer sair do meu quarto!

Isso foi o que chamei da fase de ‘casulo’: a Jennifer foi o meu casulo.
Ela me deu o preparo interno de aos poucos me aceitar.
Vivendo em fantasia com ela, pude aos poucos ir criando coragem para viver coisas no mundo real.

Porque nós, queridas, somos assim: uma porta entre o mundo de dentro de nós e o mundo de fora de nós. E temos, para viver bem, que aprender a ser essa porta; que aprender a viver entre esses dois mundos, que aprender a só deixar entrar e só deixar sair dessa porta o que nos faz bem.

Por isso sempre digo da incrível responsabilidade que você tem consigo mesma. E que está sim nas suas mãos sorrir: está sim nas suas mãos a sua vida e o seu destino.

Sobre quem achar que está cedo ou tarde... queridas... CADA UMA TEM O SEU TEMPO. E é preciso respeitá-lo! Mas eu lhes digo que para mim tudo começou quando eu estava já com mais idade: TUDO foi a partir dos 26: de sexo a masturbação. De me permitir pensar em mulheres e de me permitir estar com mulher (aliás, isso só aconteceu no ano passado).

Pronto. Égua! Disse tudo.
Estou aqui nua de alma para vocês.
Mas se isso ajudar a apenas uma menina a lidar melhor com sua sexualidade, já terá valido a pena expor aqui a minha vida.

Apenas peço que, cada uma em seu ritmo, vá aprendendo a se dar espaço: a se permitir: a se conhecer: a se aceitar. Queridas, como sonhar que outros lhe aceitem se você não conseguiu passar sequer ainda do seu próprio julgamento?

Não... é preciso, antes de tudo, que VOCÊ SE APAIXONE POR VOCÊ MESMA.
Aí, acontece o que sempre acontece quando o amor chega: a gente cria força e coragem.


Eu gosto de ouvir outras pessoas.
Aprendo muito. Sempre se tem o que aprender.

Das pessoas que escuto, tenho também autores queridos, poetas e músicos que falam frases que nos arrebatam o peito, que vão se encaixar com força e intensidade a algo que precisávamos ouvir.

Deixo então vocês com algumas dessas pessoas que escuto.
Quem sabe também lhes faça bem as escutar. ;]


NILTON BONDER:

“A única forma que se tem de chegar à certeza é pela dúvida.”

“Toda experiência que nos derruba, que joga por terra nossos conceitos e percepções é reveladora.”

“O medo é o maior obstáculo para o senso de si.”

“Nosso compromisso, não é o de sermos MAIS do que somos, mas, sim, de sermos TUDO o que somos.”


Fronteiras da Inteligência - Nilton Bonder


CLARICE LISPECTOR

“Todo herói é herói de si mesmo. Quem vence está-se vencendo.”

“A dificuldade é uma coisa parada.”


A descoberta do mundo – Clarice Lispector


JOSEPH CAMPBELL


“As imagens estão aí fora, mas o seu reflexo é interior.”

“Dificuldade? A vida é dificuldade. Só a morte é isenta de dificuldade.”

“Você está sempre fazendo algo exigido de você. Onde está a sua bem-aventurança? Você precisa se esforçar para encontrá-la.”


O poder do mito – Joseph Campbell


-- Ou seja, queridas: o mundo está aí, o tempo todo se comunicando conosco. O tempo todo nos mandando mensagens. Como as interpretamos, bom, isso depende de cada uma de nós. Mas como eu disse aqui antes, acredito que o mesmo mundo que nos assusta, pode nos dar armas para a nossa luta, pode nos dizer coisas para que ganhemos força e coragem. Basta apurar os ouvidos: coisas estão sendo ditas para você o tempo todo.

Termino então com minha amada Clarice:

“Que há entre nunca e sempre que os liga tão indiretamente e intimamente?”

Ou seja, meninas: faça você alguma coisa ou não sobre sua sexualidade, isso não mudará o fato de que ela estará aí, dentro de você, pedindo que você ao menos se dê a chance de ser feliz.

Saiba sim seus limites.
Mas tão importante quanto saber seus limites, é saber a hora de ultrapassá-los!


__________________

Ah, queridas, eu raramente checo o e-mail do hotmail. Então não mandem coisas para lá, tá? Que só as encontro tempos e tempos depois! :P


| Essa música é um hino. É uma das poesias mais perfeitas já escritas. E ela fala muito também para nós.

"Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer..."




| cartum |
Filipe descobrindo que a felicidade que nos mostram não é o que esperamos. Sabe o que é? É que a felicidade é o que a gente descobre por nós mesmas! Felicidade, queridas, para mim, é uma questão de atitude. Não o que somos, mas o que fazemos com o que somos. Não o que nos acontece, mas o que fazemos com o que nos acontece. ;]








| o irreverente e sempre agitador Cazuza. O poeta caótico que viveu desorganizadamente, mas que viveu, acredito, suas próprias verdades. E porque acho mesmo que, ideologias que sejam, há coisas sem as quais viver se torna apenas sobreviver. E não estamos aqui para isso.






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quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

| sobre amizade, confissões, e “quem sabe se você fosse uma mulher” |

Ou Coisas pessoais de Helena. :P

A minha mania de ‘pensar ao escrever’ não vem de hoje, sabe?
Na minha adolescência eu lia os romances de Jane Austen e Louisa May Alcott e eu testemunhava aqueles personagens escrevendo cartas e mais cartas uns para os outros e eu achava aquilo perfeito. E queria aquilo para mim.

Uma das melhores partes do meu intercâmbio nos EUA foram as inúmeras cartas que troquei com meus amigos que aqui ficaram (na época não existia e-mail :P). Era uma delícia ter ali registrado um momento. Fazer reflexões em cima do que eles me falavam. Conversar consciente de que eu conversava com as palavras que me foram escritas.

Então, quando há quase seis anos atrás, eu recebi o e-mail de um rapaz me falando sobre pensamentos e percepções de forma inteligente e intrigante, eu não pensei duas vezes: respondi-o. Vi ali a oportunidade de viver o que sempre presenciei nos romances: um relacionamento construído por letras.

E se passaram desde então quase seis anos.
Os nossos vinte e poucos anos de então se transformaram nos vinte e tantos anos de agora.
E há quase seis anos eu me relaciono com esse homem. Oo
O fato é, claro, que sou lésbica. E esse era o único detalhe da minha vida que ele não sabia até esta semana. Até ontem, para ser mais exata.

Em minha defesa, veja: até 2007, nem eu sabia! :P
Sempre desconfiei, é verdade. Mas foi preciso tempo até que eu construísse o preparo interno que me faz hoje viver tudo com tanta naturalidade.

Sobre o rapaz, ele mora no Rio, tem um senso de humor incrível, uma altura linda, olhos verdes, se dá valor, tem ótima auto-estima, atitude, um emprego show de bola, gosto impecável para música e livros, e a chatice gostosa daqueles que são seletivos. Se ele fosse uma mulher, acho que eu já teria me apaixonado por ele. :P

O fato é que esta Helena aqui está já já de mudança. Será mais uma retirante nordestina em São Paulo. :P

E quando veio a certeza da minha ida há dois dias atrás, o rapaz se empolgou. Como bom representante do signo de Escorpião, me passou e-mails calorosos e fez inúmeros planos de finalmente me ter no mundo real.

Aí, a-ha, o negócio pegou.
E lá fui eu respirar fundo e me preparar para o momento que (ainda) sempre temo: o de contar sobre minha orientação sexual. Veja, meus amigos mais íntimos só vieram saber há três meses atrás.

Eu sempre odeio essa “hora de contar”: sinto-me frágil e exposta. Sempre tenho medo das reações que virão. E, se gosto muito da pessoa, tenho medo de perdê-la.

E o teu racional grita: Mas por quê isso faria alguma diferença? Não era para fazer!! Mas faz, faz sim. Não no bem querer, claro. Mas é um elemento sobre você do qual não se sabia.

É a necessidade de um re-olhar. É a precisão de perceber você além do que a sociedade teima em declarar como rótulo.

E a pessoa que agora sabe, tem que ver além disso tudo: tem que olhar para você e enxergar a sua essência para perceber que você é, claro, a mesma pessoa que sempre foi.


Mas dá muito medo daquela pessoa que você gosta não conseguir fazer isso.
Demanda uma inteligência emocional que nem todos têm.

Então sempre pinta uma insegurança na hora de falar para os amigos.
E foi assim também com esse meu amigo de tantas palavras trocadas.

Um dos parágrafos que escrevi para ele em minha carta-confissão-de-que-sou-lésbica dizia:

fico me agarrando à esperança de que o que construímos é maior do que os nomes 'homem' e 'mulher'. fico me agarrando à esperança de que já somos, de muitas maneiras, conectos por um laço indissolúvel. de que respeitamos muito um ao outro para nos deixar abalar pelos caminhos que outro venha a trilhar. acho mesmo que o que temos um pelo outro é uma forma de amor. E que embora não seja um amor de mulher para homem, é um amor de alma para alma. algo único. atemporal. que vem existindo há tanto tempo de forma natural. espontânea. sem esforço.

Acontece, queridas, que as pessoas, graças-graças, nos surpreendem. Claro que temos que saber para quem podemos contar sobre nós, porque nem todos estão preparados para lidar com o amor-além que é necessário para que a aceitação ocorra.

Com todos os meus queridos que já souberam de mim tenho tido surpresas boas. De entendimento e aceitação. E sou muito grata por isso.

Claro que é típico eu escutar: “Mas, Helena, eu podia imaginar isso de qualquer pessoa, menos de você!!”. :P

E passam-se alguns dias de choque, deles me observando com mais cuidado, me olhando de forma mais alongada, pensando melhor as palavras e as brincadeiras... Mas aí o convívio os faz ver que na realidade temos a relação que sempre tivemos, todos transformes dentro do tempo, todos sujeitos aos caminhos que a vida nos traz. E aí sorrimos juntos. E eu brinco que sou sapatão até no pé, já que calço um gritante 39/40 (meço 1.73m, né? :P).

Com esse meu amigo, olhe só, não foi diferente. Depois de alguns parágrafos falando da tristeza de saber que nunca poderia me ter da forma como havia esperado, ele me escreveu linhas de aceitação e de que também não deixa de ser uma forma de alegria você finalmente definir uma relação: saber até onde pode ir. Eu sei que levará um tempinho até que ele se acostume com essa nova, e verdadeira, versão da Helena na vida dele.

Mas a verdade é, queridas, que a vida é um filtro natural. Vão ficando na sua vida os que vão sabendo lidar com as mudanças, os que sabem administrar as diferenças, os que amam um amor que sobrevive ao tempo.

Não que os que passaram por você não tenham sido importantes ou até essenciais, mas os que ficam (seja fisicamente ou na memória) viram oxigênio, necessidade, parte da sua saúde.


E acho que em relação a esse meu amigo as coisas vão se resolver. Até porque ontem de madrugada ele fez algo que nunca havia feito nesses quase seis anos: me passou um link de curiosidades sobre o Star Wars (hã?) e uma lista das seqüências de filmes mais famosas (errrr...). Acho que enfim ficou definido nosso gênero de amizade, né? :P E o resto a vida vai dando o jeitinho de colocar no lugar.

Eu só sei, queridas, que ao longo do meu mestrado uma frase (cujo autor infelizmente não lembro) me arrebatou o peito e me fez quase perder a miopia que meus olhos carregam:

Envelhece-se como se vive.

Ou seja: está gostando da sua vida agora? Ótimo! É muito provável que esse sentimento esteja sempre se movimentando dentro de você. Está odiando sua vida? FAÇA ALGO! Há coisas sobre nós que não podemos deixar que o tempo carregue por muitas horas ou meses ou anos... Porque da mesma forma que a vida tem o poder de transformar as coisas se estivermos agindo, ela tem a mania de manter as coisas iguais se estivermos parados.

E os anos passam rápido demais.
E não há coisa pior do que olhar para trás um dia e perceber que você perdeu tempo demais. Porque perder tempo é perder vida. E perder vida é perder-se a si própria.

Como digo sempre ao meu amigo colorido: “É preciso ser muito macho para ser viado”. E o mesmo vale para nós, mulheres-sapatilhas: é preciso coragem para ser o que somos. Mas veja: Tem coisa mais valiosa do que poder ser o que se é?

Uma coisa eu digo: quando a gente está escondida de tudo, até de nós mesmas (porque a primeira aceitação deve ser a nossa própria) nossas lágrimas são sim verdadeiras. Mas quando dizemos SIM a quem nós somos e abraçamos o nosso destino, SÃO OS NOSSOS SORRISOS QUE SE TRANSFORMAM EM VERDADE.

_____________

| essa música, para mim, por muito tempo me definiu. eu dizia que ela poderia até não ter sido feita para mim, mas que eu havia sido feita como se para ela. hoje, o que creio mesmo, é que todas nós merecemos ser amadas assim: por todos os instantes que nos fazem e nos transformam. vide o título dela em francês (versão original): Tous Les Visages de L'Amour


| cartum |
o calvin mostrando que quem sabe do que nos arruma, do que nos organiza, somos nós mesmas! ;]























| essa é, para mim, a melhor trilha sonora de todos os tempos. é toda feita de grandes interpretações de canções dos beatles. não canso de escutar. não canso de amar através dela. não canso de deixar que os beatles falem por mim.

Trilha Sonora - I am Sam - 2001
(uma lição de amor)





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domingo, 4 de janeiro de 2009

| da série: sobre polianices e sorrisos |

Na última semana de dezembro recebi um e-mail que dizia, entre outras coisas, o seguinte:

"Helena, achei seu blog por acaso...nem sei direito como cheguei nele para ser honesta. Mas o que você escreveu, o que eu li, me tocou. Não sei nem explicar, mas me tocou. E parecia que você falava para mim. (...) Sei que estou aqui desabafando coisas e você nem me conhece, nem tem obrigação de ser ouvido pros meus problemas, mas queria lhe perguntar uma coisa... mesmo que vc não responda eu quero lhe perguntar. Já percebi que você é toda positiva, fica vendo o lado bom das coisas. Nem sei se é verdade isso de você, mas é o que achei. Então te pergunto: como faço pra ser assim? Como faço pra ultrapassar o ruim e ver o bom? Sei que tem que haver o bom, sei qeu tem que haver em algum canto. Então como faço pra enxergar isso?"

E eu li e reli o e-mail dessa menina e algo me pesou no peito. Alguma coisa aconteceu com o Sapatilhando, entende? Alguma coisa aconteceu que fez com que este blog alcançasse outras pessoas. E ele, no entanto, nada mais é do que um derramar de pensamentos e impressões minhas acerca da vida. E a verdade é que, cada vez que posto algo, imagino: “eita, mas quem vai querer ler isso, Helena-de-deus?”. Oo Aí quando vão surgindo os comentários, os e-mails, fico feliz porque tive companhia, porque pessoas gastaram o seu tempo comigo. É bom quando lhe escutam, claro que é bom.

Nesses dias de aperreio, em que não tive tempo de escrever, li os e-mails que fui recebendo, com desejos de sorrisos, com agradecimentos, com coisas fofas e carinhos. Senti-me abraçada. Jamais imaginei ter companhias tão deliciosas quando criei o Blog há dois meses atrás.

O fato é que respondi ao e-mail da menina. Não porque me senti na obrigação, até porque eu acho que o bem a ela quem fez foi ela mesma ao desabafar tudo o que desabafou. E não me importo de jeito nenhum do meu e-mail ser espaço para desabafos: têm coisas que a gente tem que colocar para fora e isso é mais do que natural e saudável. E quando contamos as coisas para outras pessoas, acabamos por contar para nós mesmas: e isso organiza as coisas dentro de nós.

Mas respondi ao e-mail dela porque eu mesma me perguntei sobre a minha mania de ver as coisas da melhor forma possível e sobre a vontade que eu tenho de contagiar os meus queridos quando os vejo cansados de tudo. A respondi porque, ao refletir sobre a dúvida dela, eu também pude aprender mais, pensar mais.

Ao imaginar o que escreveria como primeiro post de 2009, tive vontade de colocar aqui justamente o e-mail que escrevi para a moça. Perguntei a ela se ela se importaria e ela já me respondeu que não. Então segue a conversa que tive com ela e as reflexões que o e-mail dela me gerou:

~~~

Querida C.,

Eu tenho uma teoria, sabe? Eu tenho a teoria de que só aprendemos o que estamos prontos para aprender.

Parece óbvio eu te dizer isso?
Talvez sim...

Mas pensemos sobre o que isso viria realmente a significar: se só aprendo o que estou preparada para aprender, isso significa que sou eu quem me ensino tudo. Sou eu quem sou responsável pelas percepções que me chegam. Sou eu quem sou responsável pelo que absorvo da vida. Em outras palavras, a dor que me dói e o sorriso que me alegra me atingirão na proporção que eu os permitir.

Tosco dizer isso, não é?

É... creio que sim.

Mas deixa eu lhe contar sobre uma amiga minha.
Conversamos muito, e ela sempre me pede conselhos e opiniões sobre fatos de sua vida.
E foram incontáveis as vezes em que eu lhe disse o que achava e ela não pôde absorver. Me escutou, mas não registrou o que eu disse ou sequer aplicou em sua vida.
Mas, alguns meses depois, lá me vinha ela, dizendo que sua vida havia mudado porque lera isso, isso e aquilo em um livro de auto-ajuda. E no começo eu ficava tiririca porque o que ela lia nos tais livros era justamente o que eu havia dito para ela meses antes. Mas então entendi: não cabia a mim mostrar a ela: cabia a ela mostrar a si.

Você me perguntou como ver as coisas de maneira positiva. Mas no seu próprio e-mail você já deixou registrado que faz isso: “Sei que tem que haver o bom, sei que tem que haver. Então como faço para enxergar isso?”. Querida, querer ver já é uma maneira de enxergar.

Eu gosto da metáfora das rédeas.
Veja: a vida é como um cavalo: ora galopa com rapidez e violência, ora marcha de forma lenta e entediada, ora corre aos pulos com emoção, ora se arrasta cansada e pesada. Mas a questão é: se as rédeas estão na sua mão, não importa o ritmo que a vida esteja no momento: é você quem dá a direção. E isso é o mais importante que se possa saber sobre a vida. Você pode não ter poder sobre o que lhe acontece, mas você tem poder sobre o que fazer com o que lhe acontece.

É uma questão de trabalhar a mente para direcionar aquela energia para onde você decidir. O fato é, C., que para onde quer que você direcione essa energia, a forma com que você se situa perante a vida gerará conseqüências. É simples assim.

É doido perceber isso: mas é você quem é responsável pelas conseqüências da sua vida.


Uma vez, há muito tempo atrás, quando eu ainda namorava homens, estávamos saindo do cinema e indo para o estacionamento quando percebemos a grande chuva que estava caindo. Muita água. Ele, bom cavalheiro, se virou para mim e disse: “Fique aqui, viu? Que vou buscar o carro para você não se molhar”. Eu, encantada com o gesto, pude ir além: “Não. Nos molharemos juntos.”. Vivemos uma história bonita. E essa história se baseou nesse exato momento: eu encantada por ele cuidar de mim; ele encantado por eu ser companheira. O fato é que os dois transformaram um momento banal em algo importante. Usamos aquele momento ao máximo: nos apoderamos dele: o transformamos em algo marcante.

E é isso, eu acho: é ter a consciência concreta de que o momento está aí, sempre, esperando que você o agarre. Que você se aposse dele. Que você segure as rédeas.

Mas a sua atitude perante o momento é o que o definirá.

Não pense com isso que prego a “cultura da felicidade”. Não, não. A dor é importantíssima! A tristeza é importantíssima! E devem ser respeitadas e sentidas. Elas comunicam. Informam sobre algo que não está bem. Geram incômodo. E lhe digo mais: como sair do lugar em que se está preso se você não se sentir incomodada? Eis a importância da tristeza, da dor, da dúvida, da confusão. Por isso lhe disse que, ao acreditar que há uma forma positiva, ao perguntar como, você na realidade já está em movimento: já saiu do lugar em que estava parada.

Mas ninguém muda o percurso de sua vida caminhando. Mudamos o percurso quando paramos, quando levamos um solavanco, quando tombamos, quando estamos cansadas e paramos para refletir sobre os porquês desse cansaço.

A questão é que é necessário entender que ao tomar as rédeas da sua vida, você terá sempre que se consultar sobre seus caminhos, sobre seus passos, sobre como lidar com suas lágrimas e sorrisos.

E, por incrível que pareça, SE AUTO CONSULTAR é coisa que as pessoas esquecem de fazer. Parece-me às vezes que muitos vivem com a triste ilusão que outras vozes são mais relevantes que sua própria. E às vezes eu me pergunto como essas pessoas querem encontrar alegrias se sequer sabem o formato de seu sorriso. Como querem tomar decisões se sequer confiam em si mesmas.

É doido isso: mas as pessoas às vezes não percebem que são suas próprias pernas que as fazem caminhar.

Ora veja só.

O que você vai fazer com esse converseiro meu aqui no seu e-mail, querida, eu não sei. Mas o que eu gostaria que você soubesse é que ninguém melhor do que você para saber sobre o que te faz sorrir. Se concentre nisso. Se concentrar no que nos faz bem é uma ótima maneira de produzir sorrisos para si.

Um abraço,
Helena.

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| Começar o ano com Nina Simone é perfeito. Começar o ano com Nina Simone querendo mais doce para sua vida é melhor ainda!! :]



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Mafaldinha, claro. Porque para a felicidade temos que sempre abrir a porta, não é, querida?








|| Eu tenho uma alma velha. Já disse isso por aqui: foi música que seus pais, seus avós curtem, é muuuito provável que eu também curta. É fato. :P Mas a bem verdade é que passei o Réveillon
ao som de Clara Nunes. Então, aqui vai nossa querida e eterna sereia da MPB. Que é para começar o ano com a energia boa de um perfeito samba de raiz. Mais brasileiro impossível.

Clara Nunes - Sempre (2008)
(sempre, sempre!!)






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