segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

| o estado de graça, o tal do amor e a ortopedia da alma |

ou Mesmo que alguém mostre o caminho, é você quem tem que andar

(porque agora eu estou com essa mania de dois títulos) :P


É engraçado, viu. É engraçado como você me vem com essa história de que sou a pessoa mais centrada do mundo. De que vejo o mundo com olhos cor de rosa. De que sou a personificação do equilíbrio. De que a luz parte de mim e não do mundo.

Balela.
Isso, querida, é uma versão idiótica das coisas.

Em que o meu mundo é diferente do seu?

Não somos por acaso duas lésbicas armarizadas a lutar dia após dia pelo seu canto no mundo? Por poder sentir tudo o que sente?

Não somos, eu e você, a vontade ambulante e cotidiana de gritar para o mundo com força e violência: EU AMO MULHERES!! SOU LÉSBICA SIM, E DAÍ?

Não, querida. Nosso mundo é o mesmo.
A questão é que o estado de graça é um exercício interno.

Ou você acha que nasci vendo tudo lindo?
Ou você acha que sorrir é sempre algo fácil e gratuito?

Não, não...
Muitos dos sorrisos mais preciosos são sorrisos sofridos, conquistados centímetro por centímetro.

A questão é que enxergo o mundo (sim, este mesmo mundo que é também seu) como possibilidades. ESTA É A PALAVRA: POSSIBILIDADES.

Sei do poder do tempo. Ah, sei da imensa-força-devastadora-de-estruturas que o tempo é.

O tempo existe para transgredir a nós mesmas. Mas a grande questão é que para que essa transgressão nos transforme também por dentro (como inevitavelmente nos transforma por fora) é necessário andarmos juntas com ele: o tempo nos pede passos firmes, refletidos, por vezes impulsivos, mas sempre conscientes de suas conseqüências.

Centrada eu, querida?
Não... este não é um estado. Não é um ser-se: é um constante tentar: é um constante exercício: é um constante situar-se sobre a sua própria vida e sobre a sua responsabilidade perante a sua existência.

Eu juro que não entendo.
Será que você acha que as palavras acontecem sozinhas?

Querida, um livro nunca será mais do que um mero objeto inerte e sem valor se você não o ler. É a partir de sua interpretação que um livro passa realmente a existir. É a partir, veja, da SUA existência dentro do livro que você lê, que o livro realmente ganha significado, razão e valor.

Essa analogia é para a sua própria vida.

Os sorrisos estão lá, guardados.
As lágrimas também estão lá.

A questão é que para sentir tudo o que está guardado no livro, querida, é necessário lê-lo.

Senão a sua vida, que triste, é um livro na estante.
E não é para isso que livros existem.
E não para isso que você existe.

Eu?
Eu quero o bom e quero o ruim.
Eu quero o que me faz me sentir viva: interpretando: lendo.


Eu quero o céu e eu quero o inferno.
Eu quero a calma e eu quero o caos.
Eu quero o boiar e eu quero o nadar.
Eu quero o pacote inteiro.
Eu quero tudo o que este mundo terreno possa me dar.
Senão, bem... senão serei apenas os parágrafos fáceis e bobos que sequer precisam de muita interpretação.

Mas veja, minha querida, o tal do amor é nada mais do que o que nos impulsiona. Veja, ele pode sequer não existir: mas, e aqui está a pegada, nos faz buscá-lo.

É como um sonho, entende?
Muitas vezes você não realiza o sonho que havia sonhado.
Mas foi sonhar esse sonho, foi com o acreditar que ele era possível, foi com o lutar por ele que você chegou aonde você não teria chegado se você não tivesse sonhado.
Um sonho é caminho para outros sonhos-supresa.

Mas a questão é querida, que as coisas são um tanto mais fáceis quando cremos nelas.
Acreditar é na verdade um lubrificante para a vida.


Move-se mais fácil, entende?
As coisas nem sempre precisam de porquês, de explicações.
Eu creio e ponto. Ponto.
Por que eu creio? Respondo: porque eu creio.
E essa é a minha maior dádiva.
Não me esforço para crer.
Eis a diferença que, realmente, separa o meu mundo do seu.
Mas a verdade é que estamos tão próximas que posso te olhar: que posso te ver se contorcendo sem chão, quando o chão está logo abaixo dos teus pés!!

E grito com dor: “Pisa!! Pisa!! Acredita que o chão está aí!!! Ele está aí!! Por favor, pisa!!”

Mas a única coisa que posso fazer é crer: crer que um dia os teus pés acreditarão no chão que quer apóiá-los: no caminho que querem seguir.

E tenho a torturante raiva de te gritar: ontem foi um dia: hoje é outro: amanhã é outro mais: e o tempo passa. Sem misericórdia alguma, o tempo passa.

E eu tenho que conviver com essa dor diária: de te olhar caminhando em um mundo paralelo que na realidade é o meu mesmo mundo. Tenho a constante e dolorida consciência de te ver se debatendo no ar porque te falta a crença de colocar os pés no chão.

E o caminho está ali: no chão que você teima em não crer.

Sabe o que a Clarice diz?

Ela diz:

O estado de graça de que falo não é usado para nada. É como se viesse apenas para que se soubesse que realmente se existe. Nesse estado, além da tranqüila felicidade que se irradia de pessoas e coisas, há uma lucidez que só chamo de leve porque na graça tudo é tão, tão leve. É uma lucidez de quem não advinha mais: sem esforço, sabe. Apenas isso: sabe. Não perguntem o quê, porque só posso responder do mesmo modo infantil: sem esforço, sabe-se.
E há uma bem-aventurança física que a nada se compara. O corpo se transforma num dom. E se sente que é um dom porque se está experimentando, nunca fonte direta, a dádiva indubitável de existir materialmente.


Então você vem e me pergunta: para quê?
E eu tenho que te responder da mesma forma infantil de Clarice: Para nada.

Porque as coisas feitas de essência, não servem mesmo para nada. Não têm valor prático. Elas existem para ser-se. PARA SER-SE.

E eu que por vezes choro o amor de uma mãe que não sabe de mim, na realidade ganho outras tantas mães que sabem de seus filhos. E me alimento do amor delas. E é um amor tão consciente e grato que talvez me nutra bem mais. Porque o tal do amor, querida, não vem muitas vezes por inteiro! E temos sim que achá-lo aos pedaços! Qual o problema? Será você assim tão mesquinha? As coisas têm que ter o formato que você exige?

Não... nada é tão simples assim.
Isso sim é ver o mundo em cor de rosa.

Eu sei do mundo. E recebo-o.
Por inteiro e em pedaços.
Com suas muitas dúvidas e poucas certezas.
E quero isso: quero experimentá-lo.

Porque senão, querida, nunca caminharei nele verdadeiramente.

E quero para mim o que quero para você: os pés no chão.
Os pés criando um caminho sobre o qual se possa ao menos dizer:
não achei tudo o que queria, mas procurei tudo o que queria!

A alma não precisa ser perfeita.
Mas ela precisa de toda a ortopedia que possamos procurar para ela.
No fim das contas, tentar é a palavra que mais define a vida.

_____________

|| Okay. Hehe. A Srta. Pink canta essa música numa grande ironia-brincadeira para as coisas normais, banais e entediantes. E eu coloco ela aqui dizendo que a vida também canta isso: "se você me quer, você terá que me agarrar e me mostrar o quanto você me quer realmente" :P A questão é: e aí? topa o desafio constante?



| cartum |
meu queridíssimo Miguelito e suas conclusões-fofuras. ;]









| Conheci essa banda por uma amiga (para variar) e não largo mais! Sigur Rós é uma banda islandesa, o nome significa "rosa da vitória". É um must, com certeza. E diferente de tudo o que se ouve por aí.


Sigur Rós - Ágætis Byrjun - 1999




clique aqui.





para a discografia completa deles, vá aqui.

13 comentários:

Lorena disse...

Acho que ultimamente eu tenho tido a manha de chegar aqui primeiro... e sempre é ocasional, tô passando e penso "deixa eu ver se tem atualização", e ó, não é que tem? =)

Eu não sei porque, mas tem gente que tem uma mania doida de achar que todo mundo é mais feliz e mais bem sucedido, por obra e influência do cosmos, tudo assim na "sorte". Que as pessoas que sorriem não sofrem; que as ganham hoje, nunca perderam; que as que amam nunca tiveram o coração partido; que as que têm objetivos nunca estiveram perdidas... Ou seja, são super-humanos imunes à montanha-russa que é a vida. E isso simplesmente não existe, né? E você, pra mim, sintetizou tudo que eu penso em uma só frase:
"A questão é que o estado de graça é um exercício interno."

E mais uma vez vc foi felicíssima ao usar de Clarice, Helena. Acho que pouca vezes li alguém que entendia de Graça de uma forma tão humana, tão profunda, como Clarice. Esse trecho que vc citou é perfeito, esse texto é todo perfeito e me lembra como Clarice via o milagre da vida nas pequenas coisas, sua sensibilidade para viver de acordo com seu coração. (aliás, sensibilidade é a palavra que melhor a descreve). E algumas pessoas precisam entender que a felicidade é um conjunto de momentos, não é o tempo todo. É a busca, é isso que você mesma disse, o sonho de ir atás de algo que provavelmente nunca vamos alcançar: mas ter o sonho é o combustível para a busca. E a felicidade deve estar, também, na busca.

E é isso. Você disse tudo e eu só repeti, feito um papagaio de pirata.

Voltei dos dias de hibernação, vou te ler e vou te escrever. e vou me escrever tb, que meu blog anda muito abandonadinho...

um beijão, queridíssima.

Helena disse...

Lorena, você não me repetiu!

Você foi além.
Disse coisas que faltavam ser ditas!
Amei!

Bjão, também queridíssima! ;]

Marcia Paula disse...

Bonita: acho que foi a melhor coisa que vocã já escreveu.Vou fuçar nessa banda,mas já sei que não vou gostar(algo me diz que preciso manter minha neurose).Beijos,querida.

Anônimo disse...

AHHHHH Helena menina cor de rosa,,,rs , nao brique comigo, vou explicar: cor de rosa, pq vc é doce, sabe , estava te lendo e vendo tv ao mesmo tempo, [ sou assim, faço sempre 2 ou 3 coisas ao mesmo tempo,,,rs ],e ví uma propaganda, onde dizia: a imperfeiçao as vezes é tudo de perfeito, logo depois aparece uma garota sorrindo lindo, e com um pedacinho de couve , entre os dentes,,,,,rí até,,,,,mas foí fantástico, pq o sorriso da menina não deixou de ser maravilhoso por causa do pequeno deslize da couve,[rs rs ] ou seja, é assím que lhe vejo, lídinha com um sorriso largo , claro, transparente, e com um pedacinho de couve entre os dentes,,,,rssssssss ríndo muito aquí....rsssssss , ou seja , vc muito cor de rosa, pq rosa é a cor da meiguice, mas é a cor tambem das patricinhas líndas, que vivem tropeçando nos saltos, mas sem perder o rebolado e a graça,,,,rsssssssssss aí aí, será que vc está me entendendo? será?
Mas o que importa é que vc disse tanto neste teu post, como sempre se desnuda com uma franqueza tão crua, tão intensa, e ao mesmo tempo tão imperfeitamente equilibrada.
Adoro ler teu blog, adoro vír aquí lhe visitar, e poder ser cumplíce com vc de seus momentos, e só posso lhe disser, que assíno em baixo novamente.
Eu quero o pacote inteiro.
Eu quero tudo o que este mundo terreno possa me dar.
Senão, bem... senão serei apenas os parágrafos fáceis e bobos que sequer precisam de muita interpretação.
É td que sempre dígo , meu lema tb, e completo: NÃO SOU AVALISTA DO MUNDO, NASCI PARA SER FELIZ!rs
Beíjos nas bochechas rosadas, com muita, muita e muita ternura.
mineira

Anônimo disse...

Ahhhhhhh e completando,,,,adoreí o comentário da Marcinha:Vou fuçar nessa banda,mas já sei que não vou gostar(algo me diz que preciso manter minha neurose). rs rs rs
ela foí ótima rsss
e eu tb assumo que as vezes não quero perder as minhas neuras,[ poucasssssssssss rsssss] pq posso perder minha identidade,,,rssssssssss rindo demais,,,,,,,,,
brincadeirinha queridas,,,,
meninas maravilhosas que adoro!
BEIJOSSSSSSSSSSSSSSSSSSS
mineira

menina. disse...

querida, Helena! Bom ter você de volta.. estava sentindo falta das novidades por aqui! Espero que esteja tudo bem por aí. Beijos.. ;*

Lorena disse...

PS: baixei o CD e é simplesmente MARAVILHOSO.

Sunflower disse...

Li tudo. TUDO. E tenho que comentar com algum comentário de algum post. Você nunca escreveu tão bem.

Beijas

Flôr de Azeviche disse...

Primeiro de tudo: PINK É MUITO GOSTOOOOOOOOOOOOOSAAAAAAAAAAAA

Segundo: esse post me fez lemrbra um acontecido... sábado fui para uma festa gay, e minha prima hetero foi junto, e quando chegou lá, só tinha gay, claro. Ela ainda teve a coragem de me perguntar: "Aqui naõ tem ninguém normal?" eu não consegui não responder assim: "de anormal só tem você aqui". Enfim, resumindo, ela ficou de bode o resto da festa e ainda falou que eu não deveria ter ficado com uma mina que estava lá. Detalhe, ela sabia que era uma festa gay.

Beijos, linda Helena

*** Cris *** disse...

Ei...sabia que eu adoro vc!

Fernanda R. disse...

'Senão a sua vida, que triste, é um livro na estante.
E não é para isso que livros existem.
E não para isso que você existe.'



peeeerfect! :D

Anônimo disse...

Primeira visita ao blog e encontro mais uma pessoa que adora Sigur Rós... anos me sentindo me sozinha...

Abraços,
[Atrás da Porta]

Flavia Lyrio- Vitória/ES disse...

É...
Este post seu foi para mim como uma lanterna clariando à alma.
Senti tantas coisas desabrochando de dentro de mim, como se houvesse uma erupção interior, numa identificação comum, que a minha cabeça, lendo o que você escreveu, só balançava, dizendo sim!
Um sim à vida, um sim às coisas que acredito, um sim às coisas pelas quais eu luto, um sim à mim, um sim à você.
Lembro-me de uma vez, que você me disse: a vida não é difícil só para os homossexuais, as coisas de ruim que te acontecem ou possam te acontecer, não irão acontecer, apenas pelo fato de você ser homossexual.Às vezes nós passamos por marés difíceis, mas isso é para todo mundo...
E é verdade!Claro!
Hoje, mais que antes (depois de um certo tempo já passado)da época em que me descobri, na verdade me senti, me percebi homossexual, eu penso e olho as coisas de um jeito bom!Quantas transgressões eu me permiti, tanto por fora, quanto por dentro. Quanta coisa me é hoje mais fácil de ser vista.Por exemplo, o tempo, a espiritualidade, a maturidade.
Houve dor, sofrimento, lapidação?sim, claro!Mas também vida, alegria, amor!
Embora ainda existam dificuldades, como o fato da não aceitação de minha mãe, eu tenho tido tantas outras satisfações, tanto amor, a ponto de chegar a ouvir de uma amiga senhora, que desencarnou à poucos dias, a seguinte frase: sua mãe não quer ser sua mãe agora não? Eu fico sendo sua mãe nesse período que ela não pode ou não quer ser então. Olha só isso!E eu vi e senti isso, graças a Deus não passou sem ser percebido. E a transformação interna que isso faz na gente é algo que não encontro nem palavras para explicar. Olha aí as possibilidades...
Hoje penso menos nas dificuldades, que o fato de eu ser homossexual possa me trazer, e penso muito mais na missão, na minha responsabilidade de vida, do que em qualquer outra coisa.
E ser feliz, para mim é consequência desta consciência e das coisas que acredito.
Assim vou seguindo, sentindo os pés bem no chão, mesmo quando estou tentando vôos bem altos.
Estou tentando... Tentando ser melhor a cada dia, tentando aprender sempre, tentando ser feliz, tentando tudo o que eu quero e acredito, e para terminar meu comentário eu digo que estou tendo esperança, que para Aristóteles é a fé que caminha...
Bjos!