quarta-feira, 1 de abril de 2009

Da gostosa série: gargalhadas internas

Vieram me perguntar no outro dia: Helena, por que você não escreve sobre tristeza?

Eu achava que escrevia, ora veja só. Rs. Eu achava que ao falar da necessidade de encontrar sorrisos, eu estava falando justamente da constante precisão de deixar que a tristeza perca a luta e que a felicidade seja a vitoriosa. :P

Mas confesso que quando tento escrever um texto que eleve o espírito de quem o lê, com mais coisas boas do que ruins, escrevo-o também para mim, claro.

Há duas semanas eu soube de uma velhinha de 84 anos que morreu sozinha em sua casa. Quando encontraram o corpo, já em avançado estado de decomposição, perceberam também o estado miserável em que ela vivia. O abandono em que a sua casa estava. A solidão de seus dias.

Há alguns meses, eu vi um documentário sobre lésbicas que tinham sido expulsas de casa por suas famílias quando essas descobriram a orientação sexual delas. Duas dessas lésbicas passaram a viver na rua; uma delas disse que no Natal sua ceia havia sido uma lata de feijão que tinha encontrado no lixo.

O que são essas situações?Sequer é preciso que eu lhes diga: elas são um soco no estômago.

Um colega meu sempre teima em me falar coisas ruins que existem no mundo. E depois de contar o fato horrendo, ele diz em tom de idiótica ironia: E agora, Helena, defende a vida, vai! Defende! Quero ver você defender a sua querida vida depois de saber disso!

E não obstante, minha resposta para ele é sempre a mesma: UM FATO FELIZ.

Motivos para ficarmos tristes, queridas, nós temos aos montes.

E, não diferentemente, é preciso que saibamos enxergar que motivos para ficarmos felizes também existem aos montes.

Estava lendo algumas poesias do Fernando Pessoa esta semana e numa delas ele versou:

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.


E eu ainda estava pensando sobre isso ontem quando fui checar o meu e-mail.

Sempre agradeço as deliciosas companhias que tenho por aqui!
Acho-me uma grande sortuda porque, como eu sempre digo para minhas amigas, o público do Sapatilhando é extremamente seleto! Rs. Afinal, não é todo mundo que tem paciência para ler os textos grandes que coloco por aqui! E só sei que tenho orgulho das mulheres (e homens) que me fazem companhia: porque sei que estou em ótima, ótima companhia! ;]

E, de vez em quando, uma dessas pessoas especiais decide me dar a alegria de me falar de sua existência. Confesso que essa é a parte mais deliciosa de vir aqui conversar com vocês. Os emails-fofura, os recadinhos no Leskut ou Orkut e, claro, aqui no blog, me alimentam e me fazem teimar em continuar a vir aqui encher a paciência de vocês! Rs.

E, desta vez, queridas, vocês não vão acreditar na fofura de quem veio nos fazer companhia aqui no Sapatilhando! O dele é Milos, um pequenino de dois aninhos e filho amadíssimo de duas mamães especiais!

E como eu disse para a Bettina, uma das mamães do Milos, isso me fez lembrar da historinha de um jardim.

Havia duas pessoas conversando sobre o jardim, um deles dizia que o jardim era bonito se você o imaginasse como uma coisa só, como uma pintura: em sua totalidade. O outro dizia que não, que o jardim era bonito por cada parte dele, porque se você parasse o seu olhar em apenas uma rosa do jardim, ali naquela única rosa estaria refletida toda a beleza do jardim inteiro.

E é assim que vejo o mundo: ele não é uma massa homogênea!
Ele é um gigante quebra-cabeça composto de pecinhas feias e pecinhas bonitas.

E se cada fato triste do mundo engloba em si toda a feiúra que esta vida terrena pode possuir, também cada fato alegre guarda em si a totalidade das alegrias e belezas que podemos presenciar aqui.

A Bettina me disse em seu e-mail:

Mas o motivo que me trouxe aqui, foi é claro, minha corujice de mãe babona. Como te falei, acompanhamos seu blog e nao raro o Milos ouve " filho, ja vou aí, mamae ta lendo o sapatilhando da tia Helena"...ou minha mulher, super ocupada profissionalmente, chega e ritualisticamente dá uma lida e tbem nao raro fala" filhote, mame ja vai, ta lendo o blog da Helena"

Neste aniversario de dois aninhos, o Milos ganhou do dindo um mini notebook, desses de criança, que tem joguinhos...estávamos ontem estranhando o silêncio do rapaz e encontramos ele sentadinho com a cara franzida de concentrado e imediatamente falamos " vamos filho, ta na hora de sair"..e ele

" zá vou mae... to vendo o apatiando da ieiêna"


E eu me emocionei dando gargalhadas internas ao ler o e-mail dessa família; por ver nela uma das lindas pecinhas que existem neste nosso grande quebra-cabeça!

Porque é isso, entende?

Os fatos tristes, claro, te tomam e te possuem e te enchem da tristeza que eles carregam em si.

E por essa mesma razão é que devemos receber um fato belo com toda a graça que ele possui: e devemos bebê-lo por inteiro e deixar que ele nos preencha e nos ilumine a existência e nos faça absolutamente contagiadas com a beleza que este mundo é capaz de produzir!

Eu sempre brinco que nós, seres humanos, somos na verdade uma vasilha.

E aí, querida, cabe a você decidir como preencher a sua vasilha!

Eu guardo na minha muitos, muitos sorrisos. Simplesmente porque eles são preciosos, deliciosos, cheios de beleza e incrivelmente necessários para a constante restauração da nossa fé na vida.


> Milos e mamães-do-Milos, MUITO OBRIGADA por me mostrarem de pertinho a beleza da família de vocês! Guardarei sempre o seu email como um gostoso sorriso!



[ cartum ]

Mafaldinha e Miguelito nos mostrando que gostosas tolices são curativos para nossa alma.










> mais um do Fulano... escuto esses cd mil vezes a cada semana! É perfeito para ler, estudar, escrever ou simplesmente deixar enfeitando o ar da sua casa. Camerata Brasil abrasileirando Bach! Quer coisa melhor? ;]


Camerata Brasil – Bach in Brazil (2000)





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>> Lembrando aque hoje, quarta-feira, tem coluna minha lá no Parada Lésbica!! :]
Quem puder dá uma passadinha por lá pra me fazer companhia, tá? :*

15 comentários:

Luna disse...

Ei amada!

Eu já ia indo dormir e como estou sem crédito no celular, resolvi vir aqui comentar logo... Não me contive de curiosidade de vir aqui e provar um pouquinho de você, mesmo que somente num dos teus belos textos.

Olha, esse seu amigo aí que tenta te amargar é um tolo. O que você tem de mais lindo é justamente isso, enxergar a beleza no meio do nevoeiro... E ela sempre, sempre existe.

Veja só, eu encontrei você não? E já passei por tantos nevoeiros...

As coisas ruins são obstáculos no caminho, são os tais muros que você falou numa postagem passada, ou você enfrenta, ou você se rende e vive a vida bobamente, amargada.

Você, eu e pessoas que apreciam a vida de maneira geral, enfrentam, sem nunca deixar de apreciar a paisagem ao longo do caminho e essa paisagem, seria a vida....

A vasilha de fato, nós preenchemos, nós podemos pegar toda a amargura da vida e jogar nela, ou podemos pegar tudo que nos faz bem...

I choose life.

Se é pra viver, que seja bem feito, se não semata logo que é melhor.

Amo você linda =*

Saudades ²²²²²²²²

Anônimo disse...

Ahhhh o que dizer.... só posso completar com IDEM, IDEM....rs
concordo com vc, eu sempre dígo:
Não sou avalista do mundo, então....vamos ser felizes!!!! rs
Apurar o OLHAR, e enxergar além das superficies,,,e aí, td é BELO!
E que criança mais fofa de meu Deuzinho! rs
Estava com saudades de tí, que bom que voltaste!
Beijos ternos com meu carinho.
mineira

Marcia Paula disse...

Hum...Helena: também passo por isso dos outros ficarem testando meu otimismo que de cego não tem nada.Tenho uma teoria: a felicidade é simples,mas apenas as pessoas simples são capazes de obtê-la.Beijo.

Duda disse...

E tem como não está sempre por perto Helena? Por acaso vc deixa? rs
E agora mais essa maravilha de te acompanhar também no Parada, que delícia viu?
Obrigada por retornar e saciar nossa sede com palavras que tocam profundamente nosso espírito, beijos!

Lorena disse...

Oh, mas que amor de bebê! Uma criança sorrindo já me faz sorrir; uma criança brincando me faz sorrir; uma criança brincando e sorrindo por minha causa (ou em meu nome, que seja), me deixa emocionada de tão feliz! Sendo a senhorita uma canceriana manteiga derretida, que eu sei, imagino seu coração na hora que leu a história...^^

Serendipity, minha amiga. Já ouviu falar, né? Estava eu lendo um livro da Rosamunde Pilcher hj e li essa palavra e esse conceito. E só isso já me fez sorrir. Primeiro porque é uma palavra linda de se pronunciar. Segundo que eu vivo o seu conceito dia-a-dia. Todo dia eu faço pequenas descobertas que me deixam muito, muito feliz. É como você mesma disse, todo fato alegre carrega em si o poder da beleza. Apenas temos que ter olhos para ver. Não é otimismo descabido, ser feliz não é uma ilusão a que nos submetemos. Ser feliz é um estilo de vida e está ao alcance de todos. Você já assistiu o filme Simplesmente Feliz? Assista, Lê. A personagem principal é simplesmente feliz. Assim mesmo. Não é boba, não vira a cara para as coisas feias e tristes do mundo, não ignora que elas existam; mas ela vê a beleza da vida, nas suas pequenas descobertas, e isso é o suficiente para que ela seja feliz. Você é assim, Helena. Eu sou assim também. Duas Pollyannas, Poppys, Amélies... =)

Vou baixar esse CD do Bach AGORA! Se eu te contar uma coisa vc não acredita, mas eu era a única menina de dez anos da minha escola que era fã de música clássica e sabia nome de compositores e peças, e serenatas, e concertos para violino... hahahaha! Eu sou apaixonada por música clássica!

E o Miguelito é um fofo, mas ninguém barra o Guile. Aliás, o Milos me lembrou ele. =)

beijos, minha amiga. Não suma mais que a gente fica com saudades.

Duda disse...

Helena,
Existe uma frase de alguém que não lembro quem, rs, que me lembra muito vc:

"A prova mais clara de sabedoria é uma alegria constante."

Lindo o relato do bebê, tão pequenino e já sabe o que é uma boa leitura, rs..
Fico imensamente feliz que esteja de volta, e não se preocupe que temos toda paciência do mundo quanto a sua internet.
Beijos flor!

Duda disse...

Ah, esqueci de dizer:
Sabe aquele assobio na canção: DON'T WORRY BE HAPPY?? Um dia li que cantar e/ou assobiar essa música deixa a gente feliz, já tentou? Parece loucura mas comigo funciona! rs

Kisses!

Anônimo disse...

Oi, Helena! Acabei de te ler no PL, maravilha, viu? E olha que legal, vc aqui hj!! Admiro pessoas que tem a capacidade de ver o lado bom da vida, apesar de tudo. Porque hj no mundo é mais fácil ficar de cara amarrada, com depressão, revoltados, temos todos os motivos do mundo para desanimarmos,neh? Mas, igualmente temos muitos motivos, aliás, gdes motivos para sermos felizes...a vida em si já é uma dádiva! E vc, Helena, tem essa capacidade e fé para viver intensamente tudo o que tem direito...mais ainda, sabedoria na forma de viver, parabéns!

Belisa

Maraysa Carvalho disse...

Ah, que delícia ler um texto tão bem escrito, poético... >.<
Sinto falta disso, sabia? =)
Deixa eu me apresentar, hehe..
Sou a Mara, visitante assídua do Parada Lésbica.
Já li várias coisas aqui e agora resolvi comentar, afinal, um blog tem como combustível os comments, né? Eu, como blogueira, sei bem como é. ^-^
quero elogiar aqui, além da qualidade dos posts, o modelo do blog, está super fofo. Queria saber como vc fez para colocar banners e selos, pq no meu eu n consigo, e tbm é blogspot! o.O Será por conta do layout escolhido?? :T
Se puder me ajudar, querida, ficarei infinitamente grata! Adoraria colocar o link do Sapatilhando lá no meu, mas n consigo! =\

Espero manter contato com vc!

Super beijo!!

Muita História para contar... disse...

Sabe Helena, faço dos momentos bons da vida, seja aqueles em que estou parada, seja aqueles de extremo intusiasmos e festa, o oxigênio para seguir caminhando. E o melhor é fazer isso mesmo, principalmente, quando se vê com pouco sacrifício, quando se está sensível a vida mesmo. Contudo, tenho medo de me embebedar dos momentos felizes, de perder a lucidez e por isso furtar-me a oportunidade de ver cruamente o que a gente participa como ativo ou passivo. Na semana passada eu estava lendo um livro do sociólogo Mike Davis("Planeta favela", o capítulo humanidade excedente?, a experiência do povos de Kinshasa, a cidade de Chennai-Madras- e Varanasi)e os sentimentos e as análises que me renderam foram salutares para me despertar, sabe.
É claro que antes de qualquer coisa que se deseje participar, o fundamental é estar sensível e disponível. Quando li não fiquei menos feliz com o que me rodeia, mas me senti ainda mais responsável e comprometida com o que meus semelhantes estam passando. Daí, depois que li o artigo,fiquei pensando no que fazer para não parcipar tanto: duas coisas, já não assisto caminho das Indias agora nem ponho os olhos e, a segunda, não compro nada que seja moda indiana.
Por fim, continuo sim pondo luz no que é bom, mas, decerto, quero está bem atenta.
Admiro a sensibilidade com que escreve, minha namorada adora o seu blogger e já me falou muito dele. Abraço.

Roberta disse...

Gostei muito do blog, pela delicadeza alegre da escrita, mostrando que há muitos motivos para sorrir, a despeito de tristezas e cinzas que também inspiram o dizer, tomado do desejo de felicidade. =)
Um abraço!

jessica h. disse...

helena , gostei muitíssimo do seu blog , quero que o meu chegue aos pés do seu , meus parabêns (:

Fanshas disse...

Helena, textos belíssimos que leio sempre com o maior prazer, estou "inaugurando" meu blog hoje e te favoritei, tudo bem? Beijos e parabéns

eva disse...

bom achar o teu blog.Bom ,pra cima,sensível,inteligente.logo eu que estou passando por turbulencias ler algo tão positivo anima.

Bruna B. disse...

Mais um texto que passa uma mensagem liinda :D
Pois é, a vida é assim mesmo...cheia de altos e baixos. Cabe a nós tirar lição e proveito dos dois lados e seguir em frente!
Como você sempre diz: SORRINDO! Rs'
Adorei!
bjo :*