domingo, 26 de julho de 2009

Manifesto: Sobre óculos, sonhos e igualdade

No mundo jornalístico há uma máxima: a notícia não é quando o cão morde o homem, mas quando o homem morde o cão.
Até aí, percebe-se algo que parece que nos é inato: o incomum nos fascina; desperta partes famintas de nós; traz à tona muitas vezes áreas nossas que não são nada nobres.

Entendo que sejamos seres fracos; entendo que cada um de nós tenha momentos mesquinhos, em que somos nada além de humanos: dos seres errôneos e bobos que realmente somos.
Entendo que nos interessemos pelos porquês do músico que mudou de cor e cara; entendo que todos corram para ver a foto da atriz que apareceu vinte quilos mais gorda; entendo que o mundo inteiro noticie sedento o escândalo sexual do casal de atores: a vida é verdadeiramente difícil, entende? E a desgraça alheia sempre chama atenção: seja para compadecer-se, seja para se ver que os outros também têm problemas; seja para dar graças por não se estar no lugar do azarento, seja para se ter um assunto sobre o qual opiniar...

Acontece que tudo é tão complexo... e há uma linha espessa e bem definida entre o observar e o julgar. entre o entender e o apontar.
Há um conceito moral que na verdade reside em todos os humanos e que, se usado, realmente separa o joio do trigo.

Esse, na realidade não está em voga: encontra-se escondido em preceitos humanos e filosóficos tão antigos quanto a nossa própria existência.
À ele, dá-se um nome que, ironicamente, é bem conhecido: RESPEITO AO PRÓXIMO.

Carlos Drummont de Andrade tem uma frase que acho a base de todo e qualquer entendimento humano: "Respeite a dor que os passantes levam consigo."

A questão é que o mais infame de nós é capaz de reconhecer a dor. Porque todo e qualquer ser humano em algum momento da sua vida a experimentou.
No seriado americano "Betty, a Feia", a atriz protagonista diz ao chefe rico que ele jamais poderia entender os problemas que uma família pobre passa. Ao que ele respondeu: "Posso não ter vivência dos seus problemas, mas tenho vivência dos meus".

O ponto é, queridas, que acho que é precisamente aí que cabe a questão do preconceito. Em especial, falo do preconceito que mais nos atinge: a homofobia.

Temos algo recorrente em nós: tememos o que não entendemos. e na maioria das vezes repudiamos o que tememos, o que desconhecemos.

No filminho animado "Os Sem-Floresta", quando um grupo de animais acorda da hibernação, acha um muro-sem-fim separando-os do que agora é um condomínio fechado. Uma das personagens, assustada e sem saber o que é aquilo, diz: "Eu teria menos medo se eu soubesse como se chama."

Eu divido a minha reação sobre as pessoas que têm preconceito conosco, homossexuais, em duas: as que me dão pena e as que me dão raiva.

As que me dão pena são geralmente pessoas que quero bem, pessoas que eu queria que pudessem enxergar além, pessoas que eu gostaria que transcedessem ao ponto de perceber a complexidade do ser humano. Que eu desejo que entendessem que o amor jamais teve uma só forma; que todo homem e toda mulher carrega em si a capacidade de amar um igual, e que esse amor apenas difere de cada um para cada um: às vezes se ama como amigo, às vezes como amante. Eu queria que eles fossem elevados o suficiente para celebrar o amor em qualquer forma que ele pudesse ter. Eu queria que eles entendessem que ser diferente não é uma ameaça, não é um pecado, não é nada além de uma característica, como o é ser alto ou baixo. Eu queria que eles tivessem tamanho entendimento por sobre a vida que os fizesse capazes de perceber que o que forma cada um é sua essência, não sua orientação sexual. Eu queria que eles me vissem pelo que sou, porque só assim eles me teriam por completo e eu os poderia ter por completo.

As que me dão raiva são as que, além de serem intolerantes, são rasas o suficiente para incitar o ódio, o desprezo, o julgamento e a injustiça. São esses indivíduos que soltam as frases mais vis, são eles que agem como falsos paladinos de uma noção absolutalmente errada sobre o que é certo ou não. São eles que vêm com tochas nas mãos e ódio na boca, são eles que julgam sem sequer olhar direito. São eles que machucam o mais indefeso. São eles que se juntam aos mis, para atacar apenas um. São eles que colocam lençóis nas cabeças e atiram pedras gigantes sobre os que não podem se proteger. São eles que se aproveitam de uma legislação pobre e extremamente falha para lançar seus direitos de ódio e de uma questionável normalidade. São eles que ousam falar em nome de um Deus que jamais nos castigou por sermos quem somos. São eles que são almas mesquinhas, absolutamente incapazes de saber o sentido da vida. Eles deveriam me causar pena, mas me causam raiva por ainda serem maioria, por convencerem os fracos, por liderarem os que não sabem direito o que pensam.

A verdade é que não sei por que sou lésbica.
Mas SOU LÉSBICA.
Não preciso entender isso. No entanto, precisei eu mesma aceitar.
Precisei eu mesma ficar em paz com essa realidade, assim como se precisa ficar em paz com o rosto que se tem ou com o corpo que se tem.


E realmente entendo que o mundo ainda não está no lugar ou tempo de perceber como iguais aqueles que tacharam de homossexuais.
Da mesma forma que o mundo não estava preparado para aceitar como iguais os negros na época da segregação racial.

A questão é que quando os brancos não aceitavam os negros, o mundo na realidade era extremamente mais burro.
Ele ficou um pouco mais inteligente, embora ainda vejamos exemplos cotidianos de preconceitos raciais.

Mas um longo caminho foi trilhado desde que Martin Luther King Jr. disse que tinha um sonho.
Ou que o Dragão do Mar ou os quilombos brasileiros lutavam por essa tão sofrida e esperada igualdade.

O que eu espero?
Eu espero que o mundo aprenda a ser ainda mais inteligente.
Que veja que quando apontamos diferenças como um defeito, que quando condenamos essas diferenças, estamos sendo na realidade absolutamente limitados e míopes.

Martin Luther King Jr. disse: "Eu tenho um sonho que um dia minhas quatro crianças viverão em uma nação onde não serão julgadas pela cor de sua pele, mas sim pelo conteúdo de seu caráter."

O sonho dele se realizou em parte, mas o mundo AINDA não é capaz de julgar pelo conteúdo do caráter.
É fato que são muitos os que precisam de óculos. São muitos os que precisam aprender a enxergar almas e não rótulos.

Eu também tenho um sonho: eu sonho com um mundo que seja capaz de ver que o que mais se precisa é do amor e que, quando acontece dele surgir, ele deve ser celebrado e não condenado. Eu sonho com um mundo que seja sábio o suficiente para reconhecer que o que nos define sequer pode ser nomeado: que é o que nos bate no peito que nos dá nossa verdadeira forma e essência.

Até lá, sejamos fortes e nos apoiemos uns nos outros: porque temos a missão de sermos exatamente quem somos e de nos orgulharmos disso.



sexta-feira, 3 de julho de 2009

Da série: sobre um mundo cor-de-rosa e um par de óculos

Olá meninas!!
Olhe... não tenho mais nem cara de pedir desculpas ou fazer promessas..
Sumi mesmo! :/

Mas foi, como geralmente é quando sumo, por um bom motivo.
Sabe aquele tempo interno que você precisa para organizar as coisas, colocar os pingos nos i’s e deixar tudo arrumadinho para poder então seguir em frente forte e decidida?

Pois foi por isso que me afastei um pouquinho.

Hoje decidi voltar porque o dia de hoje em especial marca um recomeço, uma nova Era, um novo ciclo: HOJE COMPLETO 30 ANOS!! :]

Pois é, oficialmente uma balzaquiana!!

E quando me lembro que no meu aniversário passado eu ainda estava reunindo forças para me assumir para mim mesma, eu vejo o quanto este último ano me trouxe!
Não só em relação a paz e maturidade, mas também ao fato de hoje eu estar casada com a mulher que amo.

A vida é assim, não é?
Temos os dias em tons de cinza. Eles são nublados, escuros, confusos, um tanto tristes. Aí a gente vai se concentrando, reunindo forças, ACREDITANDO, e de repente arrumamos um par de óculos que nos faz ver tudo em cor-de-rosa de novo!!

Eu acredito na vida.
Eu acredito nos caminhos que ela tem para te mostrar.
Eu acredito que carregamos todas(os) dentro de nós tudo que é mais sagrado e forte e que por isso mesmo a resposta de tudo está dentro de cada um de nós.

Já brinquei aqui ao dizer que somos um depósito: e é no que creio.
A tristeza, a alegria, a fraqueza, a força, o ódio, o amor: tudo bate no nosso peito.
Às vezes precisamos que a vida nos dê um empurrãozinho para vermos com clareza, mas quando vemos, ah, aí é encher o peito de ar e agradecer por estar viva!

Estou lendo um livro super interessante, e em um trecho dele a autora diz:

Certo dia, um alto executivo aposentado jogava golfe com um amigo. Enquanto atravessavam a pista, o amigo lhe perguntou se estava gostando de ser aposentado.

"Bem", respondeu o primeiro, "vou lhe dizer. Comecei no pé da escada e subi, degrau após degrau, até chegar ao topo. Só então descobri uma coisa terrível. Eu havia encostado a escada na parede errada."

E é isso, sabe?

A gente tem sempre que ficar atenta ao lugar em que está encostada a nossa escada.

Ainda há tempo de mudar.
Ainda há tempo de recomeçar.

É uma questão de reunir forças, se preparar internamente, respirar fundo e dar o primeiro passo!

O livro é O CAMINHO DOS SONHOS, de Marie-Louise von Franz (uma das maiores díscipulas de Jung).
Se quiser baixar, é só ir aqui.

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| Um projeto meu (que a minha esposa conseguiu concretizar!!) que por um tempinho também me manteve um pouco ocupada foi a PÁGINA DE CARTÓES VIRTUAIS DO PARADA LÉSBICA.

Pois é, quem disse qu
e não temos um site de cartões virtuais para nós?
Temos sim! :P

Dêem uma visitadinha lá e me digam o que acham, ok?















Quem gostar de fazer cartões ou quiser sugerir algum, é só escrever para contato@paradalesbica.com.br, ou para mim :]

As artes devem ter o tamanho de 709 x 482 pixels.

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No mais, queridas, muitos obrigada pelos recadinhos e e-mails, que sempre me enchem de felicidade e alimentam a alma!

Espero que me perdoem e que continuem por perto!

Deixo-lhes com um dos CDs mais perfeitos que existe!
E, aproveitando o aniversário, vai o detalhe de que ele foi gravado exatamente no ano em que eu nasci! :]

Miúcha e Tom Jobim (1979)






Para baixar, clique aqui.