sábado, 19 de março de 2011

Coisas que vibram por dentro

ou
Esse negócio que chamamos de Medo.

A questão é que vamos nos suprimindo.
Vamos aprendendo a calar a nossa voz.
Não apenas a voz que produz som externo, mas também a voz que vibra para dentro: que nos fala de nós mesmos, de quem somos e do que sentimos.

Essa voz interna, entenda, ela é crua: crua como o mais cru pode ser.

E, por isso mesmo, ela é brutal em suas revelações.

Tão brutal, tão completamente sem pudores ou cerimônias, que muitas vezes nos choca com suas verdades tão cruas.

Por isso, por medo de tanta verdade, vamos fazendo de conta que não escutamos essa voz de dentro.

Olhamos para o lado, mudamos de assunto, choramos sozinhas na calada da noite.

Ou simplesmente vamos vivendo uma vida que não é nossa – não porque somos covardes (como se pode chamar de covarde alguém que sofre e luta diariamente por não poder ser quem se é?), mas porque o medo é às vezes tão grande, tão maior que nós mesmas, que consegue sim nos calar.

Mas o medo, mesmo tão grande, mesmo tão assustador, esse próprio medo que te assombra é, perceba, a estrada para tudo o mais que existe além dele.

Mario Quintana poetiza:

Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A mágica presença das estrelas!

A verdade é que, sim, o medo é algo assustador.
É algo que nos limita – que nos impõe, sempre, restrições.

Essas restrições, no entanto, são da mesma matéria que nos forma, da mesma matéria que nos proporciona sorrisos e vitórias.

Entender isso, perceber isso, é também compreender que esse medo é nada mais do que uma estrada escura.

A luz dessa estrada, veja bem, é exatamente essa tua voz interna.

Aquilo que te dirá se esse medo deve ou não ser enfrentado, se essa estrada escura deve ou não ser trilhada.

Que te mostrará que essa coisa tão grande e assustadora, quando comparada ao que há dentro de ti, é, na verdade, tão, tão minúscula.

Esse teu sentir é exatamente a tua imensidão.
A tua grandeza.

Essa tua voz teimosa, que te fala de sonhos e de dias melhores, que te faz sonhar com novos sorrisos e com um coração cheio de paz, bem, essa voz é você no seu estado mais lindo.

Por essa mesma razão é que o medo deve ser visto apenas como uma cautela, como um aviso de cuidado, como um estado de consciência.

Ter medo é estar-se consciente.
Nada mais.

Mas da consciência – e do entregar-se aos avisos dela – podem nascer coisas espetaculares.

Às vezes esquecemo-nos disso: a vida deve ser espetacular.

E eu até diria que essa espetacularidade é, em geral, proporcional ao medo que temos.
Algo como quanto maior o abismo, mais lindo e fenomenal será o nosso salto.

Albert Einstein disse:

A felicidade não se resume na ausência de problemas, mas sim na sua capacidade de lidar com eles. 

E isso que categorizamos de problemas, esses medos e dificuldades que temos, bem, isso é nada mais do que a vida acontecendo conosco. Do que a vida nos pedindo respostas e decisões, do que o tempo nos oferecendo escolhas.

O que fazemos dessas escolhas é assunto nosso.
Mas justamente por ser assunto nosso é que o reflexo de nossa decisão de enfrentar ou não nossos medos reflete diretamente naquilo que conseguimos vivenciar na vida.

Por conta do teu medo, a tua consciência fará questão de te dizer que tudo pode dar errado.

Mas se a voz interna não for calada, se você aprender a respeitá-la e escutá-la, a tua consciência também sempre te trará a dúvida mais benevolente de todas: “Mas e se, no fim, der tudo certo?”

Na verdade, o segredo mais caro e precioso que você precisa entender já foi revelado:

Isso de querer ser exatamente o que a gente é, ainda vai nos levar além. 
(Leminski)