domingo, 17 de junho de 2012

As palavras de uma mãe

Logo depois de postar o vídeo "Pais que não aceitam a homossexualidade de seus filhos" me falaram do documentário "O segredo dos lírios", que conta a história de três mães cujas filhas são homossexuais.



Eu e a Del Torres vimos o documentário e achamos tão perfeito que começamos a divulgá-lo em todas as mídias do Parada Lésbica.

Algum tempo depois, uma das mães do documentário me escreveu.
Foi o primeiro sorriso que a Estela, mãe da Brunna Kirsch - que dirigiu o documentário "O segredo dos lírios" juntamente com a Cris Aldreyn - me deu de presente.

Ela disse que queria ajudar, que queria ser um pouco mãe dessas meninas cujas famílias ainda não aceitavam ou não sabiam da homossexualidade de suas filhas. Esse foi o segundo sorriso que ela me deu.

O terceiro foi um email lindo com o título "Sou parceira!", em que mais uma vez ela se colocou à disposição para ajudar como pudesse.

Resolvi fazer algo que sempre desejei: pedi o seu depoimento.
Pedi que ela escrevesse sobre o processo de aceitação da homossexualidade de sua filha Brunna.

Veja, assim como a mãe da maioria de nós, a Estela não aceitou prontamente o fato de sua filha ser homossexual. Por isso a Estela é tão importante para cada uma de nós, por isso que suas palavras, sua visão de mundo, sua aceitação é exemplo para nós. A Estela representa a esperança que tantas(os) de nós, homossexuais, sentimos em relação à não-aceitação de nossas famílias.

Como eu disse, a Estela já de meu vários sorrisos.
Agora é hora de dividir esses sorrisos com vocês.

Segue abaixo o texto que a Estela escreveu para cada uma de nós.

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“Dos mais belos sentimentos ao abismo.”
Foi o que senti no dia 31 de agosto de 2008, após uma inesperada declaração:
“Mãe, eu sou gay”.

 O que você disse? Está louca? Quer me magoar? Meu deus! Cadê a minha menininha?

Um abismo se abriu entre minha filha e eu, o mais sublime dos sentimentos se transformou em ódio, decepção, traição, vergonha.

O desconhecido me apavorou tanto que não pude reconhecer aquela menina que estava na minha frente e a tratei mal, muito mal. Chorei tanto que minhas lágrimas pareciam ter secado.

Ao mesmo tempo em que sofria, fazia questão de que ela sofresse também. Buscava incessantemente um culpado por aquela situação: destratei amigos dela, magoei pessoas, humilhei e desprezei minha filha, enlouqueci! Minha motivação para tudo vinha na esperança de que ela me dissesse que era mentira, que aquilo era uma fase e que não voltaria a acontecer.

 Que grande mulher foi a minha filha! Manteve-se firme e convicta, não cedendo um milímetro sequer em frente às minhas chantagens emocionais, apelos, ofensas e humilhações. Dias e dias se passavam e eu não conseguia mais me aproximar dela. Quis obrigá-la a procurar um tratamento psicológico e lembro exatamente da resposta que recebi: “Mãe, eu não preciso de ajuda. Talvez antes, quando eu escondia algo, eu precisasse. Agora, eu to curada! Sempre tive uma vida maravilhosa e, se tu quiseres, sento e te conto toda a minha vida de novo. Aí, quem sabe, tu lembras quem eu sou”.

Pois foi aí que me dei conta de quem realmente estava precisando de ajuda. Senti que estava correndo o risco de perdê-la e comecei a me questionar: Onde está o meu amor incondicional? Minhas obrigações de mãe? O ser humano que eu tinha gerado era até então tão integro, justo, honesto, amoroso, sempre me deu tanto orgulho, porque estou o vendo como um monstro agora?

Não deu outra: liguei e marquei uma consulta com um psiquiatra. Desabafei e chorei durante duas horas, mas valeu muito à pena. Ele me trouxe à realidade e desmistificou aquele “desconhecido”, me ajudando a perceber que minha filha era a mesma, que nada iria mudar, exceto às pessoas com quem ela iria se relacionar: outras meninas.

 “Somos insignificantes. Por mais que você programe sua vida, a qualquer momento, tudo pode mudar.” (Airton Senna)

Foi assim que eu e o meu “bebê” nos reencontramos. Ela por si só me ajudou muito a compreender o que estava acontecendo. Estava sempre pronta para conversar e impôs muitas conversas, mesmo quando eu dizia não querer olhar na cara dela. Manteve-se firme, entendeu a minha situação, teve calma, pesquisou bastante sobre o assunto e cada palavrinha dela começou a fazer efeito na minha cabeça.

Cresci como ser humano e vi que realmente nada havia mudado entre nós, pelo contrário, ficamos infinitamente mais próximas. “Adotei” como filhas/amigas todas as namoradas que ela teve nesse meio tempo, fazendo ainda o papel de boa sogra, que fica do lado delas na hora de dar uns bons puxões de orelha na minha cria.

Hoje sei que nem eu e nem ela temos culpa nenhuma. Ela nunca me julgou por ter sido sempre tão ocupada com o trabalho, não percebendo nada, durante dezenove anos. E eu, por outro lado, explodo de tanto orgulho que sinto.

Meu nome é Estela Freitas, eu sou mãe da Brunna Kirsch, que tem hoje 23 anos, faz cinema, é homossexual assumida e dirige o documentário “O Segredo dos Lírios”.


Estela e sua filha Brunna Kirsch


* Quer conversar com a Estela?
É só escrever para ela: estelamarisf@gmail.com
Que adicionar a Estela no Facebook? É só ir AQUI.


6 comentários:

Naiara disse...

Tudo neste ambiente é perfeito!
Nem sei por onde começar os agradecimentos. É tao bom observar que a consciência das pessoas esta sendo modificada.
Cara Estela, sua postura corajosa é mais que um presente em nosso meio, é um privilegio.. através de sua expressão de amor os corações de muitas de nós se enche de esperança e o meu, particularmente, de orgulho, por saber que existem mulheres nobres como você!
Helena querida, sempre trazendo luz, positividade e esperança aos nossos corações. Mais uma vez, meu muito obrigada cheio de carinho e admiração!

abraço

Vivi disse...

Estela, parabéns pela sua atitude maravilhosa e mil vezes OBRIGADA pelo exemplo... acho que se eu tivesse um pedido, seria pra que a minha mãe, a mulher que eu mais amo, pensasse como você, e entendesse que nada disso é culpa dela, que eu sou feliz assim e que a única coisa que noa afasta é esse preconceito. Um beijo enorme e que Deus continue sempre iluminando a sua vida.

Ana Isabella disse...

Helena,
nem tenho palavras para agradecer pelo que faz por todas nós. Obrigada por vc existir e compartilhar tudo isso. Esse vídeo é simplesmente maravilhoso. beijos e fica com Deus.

Isa disse...

Nossa, chorei!
Putz, é lindo ver a trajetória da Estela! *_*

Tava com tanta saudade desse lugar!
Bjoo

Bruna Araújo disse...

Adorei o blog, muito lindo, amei tudo. Parabéns mesmo, vou sempre estar aqui (:

ontendency.blogspot.com

Letícia disse...

Na primeira vez que vi o documentário e li o email da Estela, ainda não tinha me assumido.

Quase um ano depois, junto todas as minhas esperanças no desejo de que a minha própria mãe acorde assim como fez a mãe da Brunna.