sábado, 22 de junho de 2013

A conquista de um coração

É que sempre buscamos maneiras de nos sentir melhor.
De curar o machucado. De dizer que ‘tudo ficará bem’.

Tentamos, de novo e de novo, nos convencer de que aquela pessoa que tanto nos machucou verá o quão injusta foi, perceberá que não pode viver longe de nós e nos quererá por perto.

(Aqui, veja, a dor de cada um(a) fala:

para mim (e para muitos, infelizmente) são os pais que não aceitam ter uma filha homossexual; para você pode ser o amor a quem você tanto se dedicou e que, no fim, não deu certo; para outro(a) pode ser ainda a traição de um(a) amigo(a), de um irmão, ou de qualquer pessoa a quem você confiou o seu coração. Pode ser ainda o dolorido extremo de todas essas dores misturadas.)

A verdade é que não se pode sair imune da vida.
Ela cria marcas em nós: é sua principal e mais visceral característica.

A vida nos marca.

Às vezes essas marcas nos amarguram.
Às vezes, se seguimos a batalha, a amargura só chega em dias ruins.

No entanto, é justamente a brutalidade da vida – que nos atinge tão covardemente – que cava o nosso interior para aquilo que é mais bonito em um ser humano: a sua fragilidade.

Cada um(a) que esteve lá sabe: é aquele sentimento contínuo de desespero e angústia, aquela dor circular que não lhe deixa nem por um momento, por mais que você tente ocupar sua mente com outros assuntos.

É algo tão exaustivo que a vontade que se tem é a de correr de si mesmo, numa fuga frenética de não-ser você: e a também dor da consciência de que não há como fugir daquilo que te bate no peito.

Ainda assim é preciso inspirar fundo: veja: é nesse ponto de dor que está tua carne, teu sangue: aquilo que te faz, mais do que nunca, humano(a).

Superar-se é a coisa mais difícil que alguém pode fazer.
Justamente porque a superação-de-si dá-se nesse ponto interno tão profundo: nessa fragilidade tão dolorida que te consome.

E aí vem a grande questão: como se cala uma dor tão grande?

E a verdade você já sabe: não se cala.
Ela grita de tuas entranhas porque ela é tão grande quanto você.

Eis a questão: a intensidade do que tu sentes é a tua intensidade.
Você (que não sabe) é gigante de si mesmo(a).

Então a dor precisa, de fato, doer.
Ela te mostra teu maior medo: te joga na cara teus pesadelos: te rodopia – tonta – todo o teu caos.

E é aí que ela te ilumina: ao te mostrar teu caos.
Ao te apontar o ponto no qual precisa começar tua re-organização de si.

Coração dilacerado é coração que sangra: e sangue é mensagem.
Nada mais que isso.
Sangra-se para se saber que a tua edificação base precisa ser reestruturada.
Sangra-se para que você entenda que não é ali que está a tua base: que não é ali que reside a tua segurança ou a tua força.

Veja: o que você mais temia perder você já perdeu.

A vida permanece.
Quase como uma piada sem graça a vida te grita dizendo: “E aí? O que você vai fazer agora?”

Essa é a pergunta mais corajosa e cruel que podemos fazer a nós mesmos(as).

Corajosa porque, naquele exato momento, estamos enfrentando um tipo de solidão há muito temida: a solidão do não-amor.

Cruel porque a resposta dessa pergunta é e sempre vai ser a mesma: continuar andando.

Você pode dizer: “Não, vou ficar parado(a) aqui, não tenho porque continuar, estou cansado(a) e sem forças”.

Mas aí eu teria que te sussurrar uma afirmação que por dentro você já sabe: “Não escolher já é fazer uma escolha.”

Não há como fugir, entende?
Quando a carne viva do teu coração se faz aparente é justamente para te implorar que você enxergue (coragem!) algo que já estava ali: aquele desfecho foi construído.

Nenhuma realidade aparece magicamente: é fruto de meses, de anos, de escolhas e entendimentos feitos ao longo do tempo.

E não é uma questão de entender que teu coração não mais pertence àquele lugar: é justamente o contrário: é perceber que você tem que continuar SEM a parte do teu coração que ali ficou.

Agora é hora de soltar todo o ar dos pulmões e enchê-los com novo ar: é hora de digerir vagarosamente essa dor tão grande quanto você: de entender que a base da tua edificação precisa retornar ao seu ponto de origem: é hora de voltar-se para si.

Não há receita para isso.
É uma auto-aprendizagem cotidiana.
Um auto-confiar-se vagaroso e contínuo.

É conhecer cada pedaço dessa dor tão grande e ir administrando pedaço por pedaço: até que tudo tenha sido visitado, sentido e, por fim, conquistado.

Sim, tua dor precisa ser conquistada.
Como uma terra nova e brutal que precisa ser explorada para que se aprenda a sobreviver nela, para que se possa vencê-la antes que ela lhe vença.

A dor mais temida no fim é apenas isso: território que você precisa conquistar para, entre lágrimas e sorrisos, fincar sua bandeira vitoriosa.

E aí então você entenderá o que precisava ser entendido: são teus pés os responsáveis por teu caminho.

Vai.
Chora.
E, depois de chorar, seja feliz.
Um coração partido não deixa de ser um coração: há muita vida ainda a esperar por ti.
Vai.

10 comentários:

Anônimo disse...

Obrigado Helena,em um texto vi a descrição de tudo que estou sentindo.Só espero que os meus sentimentos passem e eu consiga reestabelecer a paz com todos ao meu redor e comigo mesma.

Naiara disse...

Excelente texto...veio de encontro com dores tão particulares. Obrigada por nos oferecer tanto. Um abraço!

lili disse...

como sempre consegues expressar oq muitas vezes não consigo expor...obrigada por ser minha voz muitas vezes.

Professora Rita discute disse...

Hoje mais uma vez navegando por aqui e seguindo teus escritos, mulher de palavra e educadora social.

Taynnara Gouveia disse...

Só para dizer, que amei o texto!

Fabiana Alvarez disse...

Menina
Que belas palavras , me sinto mas humana , mas compreendida.

Anônimo disse...

maravilhoso.

Anônimo disse...

maravilhoso.

Mila disse...

Chorar por tristeza, por medo é pq dói fisicamente e depois chorar um pouco mais

Carla Bako disse...

Quanta dor!