terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

O meu desejo para ti

É necessário encantar-se. Por toda uma vida. Por todas as vidas que cabem dentro da vida. Por todas as lágrimas que nos lapidam. Por todos os sorrisos que nos inspiram. Por todos os aprendizados que nos formam.

Há que não amargurar-se: tarefa mais árdua que há! Já que às vezes só amarguras recebemos; mas ainda assim há que olhar para frente, seguir o passo, lutar para transformar o incômodo em mudança.

E quando não der, quando a mudança for inoperável, mudar a nós mesmos, como matéria ímpar que somos, como ponto de nossa própria vista, como fato de nossa própria vida, como fala de nossa própria voz.

Há que crer: se não nos outros, em si mesmo, em si mesma. Não se sai ileso da vida. É impossível fazê-lo: pois somos nós mesmos criatura que se cria e desfaz-se, somos nós mesmos cirandas de um carrossel que não apenas gira, mas rodopia nossas noções, nossas (in)certezas, nossos referenciais.

Há que amar: a si e aos outros que são passíveis de receber amor. E, quando acontecer de amar sozinho, que ame sem peso: que ame apenas por amar, como uma admiração e encantamento por outro ser. 

Existe uma leveza no amor maduro: ele sabe-se. E por saber-se, entende que o amor é uma irradiação de nós mesmos, é uma luz que sai de nós e, assim, clareia nossa existência. 

No entanto há que entender o feio do mundo. É necessária essa compreensão. Para, consciente, saber ter empatia, saber ser um ser-no-mundo, saber do todo que compõe o existir. Há que reconhecer o não ideal para saber lutar pelo ideal. Há que entender a lágrima para esforçar-se por mais sorrisos. É preciso até conhecer a solidão: para se saber reconhecê-la também no outro e, assim, juntar solidões em companhia.

Há que se saber dar auto-abraços: porque às vezes os outros abraços falham. E há que se compreender que a sua trajetória tem uma razão sua de ser. É sua. Com seus significados e desafios, com seus labirintos e dores, com todo o crescer que lhe cabe. E, nos momentos de benevolência da vida, a sua existência cruza-se com outras existências: e a sua luz brilha mais forte por juntar-se a outra luz.

Mas é preciso guardar sorrisos internos: é preciso saber achar o caminho de volta para si. É preciso perde-se e (re)encontrar-se sempre. 

Doloridos, guardamos também amarguras: de nosso não pertencimento, das traições que sofremos, do não reconhecimento do tanto que temos em si. Dessas amarguras guardadas façamos conhecimento: porque toda cicatriz conta uma história e toda história leva uma moral. Há muito o que ser mudado sempre.

Da tua paz, te peço compaixão. Seja benevolente consigo mesmo, consigo mesma. Não é para ser pesado ser você. Quando tudo o mais pesar, seja você seu amor, seja você seu encantamento, seja você seu abraço. Não só porque tudo chega ao fim, mas principalmente porque a sua história é seu maior tesouro. É a sua razão de ser quem você é, é o motivo da sua existência, é a colheita do seu olhar.

E perceber a unicidade de tudo o que te compõe é a sua maior realização. Chega nela para que a vida fique mais interessante. Para que você entenda a real razão de viver-se: para que você exista com esta nova perspectiva: a de ser você. E então absorve tudo o que a vida pode lhe dar.  

Todas as suas experiências lhe compõem. Engrandecem-lhe. Fornecem-lhe os dados para a chave do tempo: a expansão interna.

Que a sua alma cresça. Que seu encantamento expanda-se a ponto de você não caber mais em si: pois só quando nos esparramamos da nossa experiência de estar-se vivo é que nossa existência toma um propósito maior que nós: e conseguimos, por sermos exatamente quem somos, tocar outras vidas.

Mas é necessário ser-se.
Abraçar as dores e os amores de tudo o que nos faz.

É necessário identificar o amor e o não amor. E aproximar-se do primeiro e distanciar-se do segundo. E a maior prova do amar é deixar ser. Não há amor na imposição: amar é a quietude do permitir ser. E, sendo, receber o aprendizado que existe no ser que se faz.

Tornarmo-nos quem nascemos para ser é o maior desafio que existe.
Poucos vivem para aprender a ser quem deveriam.
Muitos vivem para ser aquilo que lhes queriam.

Há que encantar-se por seus próprios olhos. 
Só assim nasce-se para si mesmo.
E pode-se, então, crescer.

Um comentário:

Vanessa Lima disse...

"É preciso até conhecer a solidão: para se saber reconhecê-la também no outro e, assim, juntar solidões em companhia."

A minha solidão agradece a sua. As melhores reflexões nascem da solidão não é mesmo? Na minha solidão em companhia da sua, agradeço aquele momento em que se tira os olhos os texto para não apenas ler e sim sentir as palavras. As suas palavras Helena, obrigada! =)