segunda-feira, 30 de julho de 2018

| Aprendendo a ser lésbica |

Para quem está chegando agora, deixa eu dizer: comecei este blog no ano de 2008 ao me perceber lésbica - perto de completar 30 anos de idade. Na época foi um desmantelo me descobrir homossexual! Até ali eu vivera uma vida hétero, veja bem - embora sempre tenha me sentido inadequada dentro daquela vida...

No passado, eu já escrevi sobre isso de estar aprendendo a ser lésbica (clica aqui e clica aqui), mas resolvi voltar a escrever sobre isso por alguns motivos:

1. continuo aprendendo a ser lésbica! ha-ha

Já casei, já me divorciei, já meio que me ajuntei, já tive filhos, já militei de tudo que é maneira possível, já falei para tudo que é público perto e longe, já amei e desamei e, olhe, moça, ainda estou aprendendo sim a ser lésbica!

Pelo mesmo motivo que já disse anos atrás: ainda estou aprendendo a ser ser humano!

Ademais, cada uma de nós sabe dos taannntos enfrentamentos diários que temos que fazer por sermos quem somos.

2. Somos ainda incrivelmente invisíveis!

Aonde estão as lésbicas? Aonde vivem? Do que se alimentam? Como copulam (ops, não, essa resposta eu sei SIM! hahaha). Que idioma falam? Como se comunicam? Aonde se encontram?

Há muito mais do que o cheiro de couro nessa história toda! kkkk

Veja: há MUITO ainda a ser conquistado por nós, filhas de Lesbos!

A primeira conquista é que amemos!
Amemos MUITO!


Não apenas à distância (óh minha nossa Senhora da sapatice!), mas que não censuremos a nossa própria vida!

Que sejamos exatamente quem devemos ser! Que ousemos as ousadias possíveis e que lutemos muito para que as impossíveis um dia também possam ser vividas!

Há toda uma nova geração aí de sapinhas que não sabem aonde ir porque nós, que viemos primeiro, ainda não construímos nossos palcos.

Precisamos seguir vivendo TUDO.
Cada uma de nós que se permite ser feliz constrói um pouco do mundo seguro para todas nós.

3. Precisamos falar sobre ser lésbica!

 Lésbica! Lésbica!
Grito ao mundo sim: SOU LÉSBICA!

"Mas, Lana, para que essa necessidade de divulgar isso? Por acaso os héteros chegam nos cantos dizendo que são héteros?" -- exaustivamente me perguntam isso.

Eu respondo:

Ninguém precisa dizer que é hétero porque TODO MUNDO é automaticamente entendido como hétero! Em especial se o nosso jeito de ser for "passável" no mundo hétero.

Eu, que sou até bem feminina, sempre recebo um cair de queixos quando digo que, na verdade, sou sapatão. SAPATÃO, SIM!

Ainda brinco: Sou sapatão até nos pés mesmo, porque calço 39!

Ora veja, no dia em que eu entrar em um ambiente e não automaticamente presumirem que eu sou hétero, aí sim, eu deixarei de anunciar que sou lésbica! Porque já não será mais necessário conversar sobre isso. Já teremos evoluído à ponto de entendermos que eu, ser humano, posso me apaixonar por outro ser humano qualquer.

Até lá, falemos tudo.

Isso também vale para o racismo e para todas as fobias e preconceitos sobre a diversidade humana - seja ela corporal, de gênero, de classe, estética, funcional ou o que for.

Tudo o que oprime a existência precisa ser discutido.

Então, ora veja, continuarei aprendendo a ser lésbica.

Continuarei anunciando que existo e que outras como eu também existem.

Continuarei achando um absurdo que pais e mães não acolham seus filhos homossexuais e transexuais.

Continuarei conversando o que acho que deve ser conversado porque acho que a comunicação é o que mais se aproxima da cura.

E continuarei dizendo para outras sapatãs que venham, venham dar as mãos! 

Porque juntas, filhas de Lesbos, juntas somos muito mais fortes!

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O Sapatilhando está de volta!
E terá sempre novos textos às segundas e às quintas!
Espalha aí pras sapinhas de todas as idades, tá? :)

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segunda-feira, 23 de julho de 2018

Sobre conflitos, pessoas e vida

Há um presente constante em minha vida: as pessoas me escrevem para falar o que sentem, para me contarem suas histórias, para me falarem sobre algo pelo qual estão passando e como estão se sentindo a respeito.

Uma das frases de Clarice Lispector que mais amo está em seu livro Água viva. 
Ela diz: "Esta é a vida vista pela vida".

Esta é a vida vista pela vida.

Escute: uma vida é pouco. 
É pouco para aprendermos tudo o que poderíamos aprender sobre a vida. Então, ao ouvir outras pessoas, me sinto presenteada porque ganho novos pares de olhos.

Saio de minha própria perspectiva e entro na perspectiva de outra pessoa.
Vejo a vida pela vida dela.
E, assim, ganho vida.
Ganho experiências. Ganho contextos de reflexão sobre o existir.

De vez em quando me perguntam:

Por que as coisas não podem ser mais fáceis?
Por que há tantos conflitos?
Por que é tão difícil encontrar alguém que nos entenda como queremos ser entendidas? Que nos alcancem como queremos ser alcançadas?

Olha, eu sou uma das que acha que viver é mesmo difícil.
Não há nada de fácil em existir porque o simples fato de estar viva e de conviver com outras pessoas já nos traz tantos desafios a serem superados que parece mesmo que não há muito espaço para simplesmente relaxarmos.

No entanto, relaxar é também um dos exercícios, entende?

Lembro-me da passagem que há anos atrás postei aqui no Sapatilhando: 

"Disse o mestre ao discípulo: 
— Limpa o jardim! 
O discípulo varreu limpo o jardim. 
Disse o mestre: 
— Não basta. 
O discípulo espanou limpo as ramagens e os troncos das árvores. 
Disse o mestre: 
— Não basta!
O discípulo lavou limpo as pedras ao longo do caminho e disse:
— Nada mais resta a fazer.
O mestre sacudiu as árvores. Suaves, caíram folhas sobre a areia. Disse o mestre ao discípulo:
 — Limpar é deixar ser"

-- Mestre do Tao

Essa frase de vez em quando pulsa forte em mim como uma lembrança do movimento da vida:

"Limpar é deixar ser"

Entenda: cá estamos para SEMPRE fazermos a nossa parte.
A vida exige de nós engajamento.

No entanto, engajar-se ou não, é uma escolha sua.
Sempre tudo será uma escolha sua.
Para cada uma dessas escolhas, claro, haverão consequências.

Que consequências você escolherá para si?
É aí que está a questão.

Penso que o "deixar ser" consiste em trabalharmos em nós a sabedoria de identificar em quais momentos devemos nos engajar e em quais devemos apenas "deixar ser".

(aqui coloco em destaque o "apenas" porque francamente não é uma ação fácil. Deixar ser requer uma confiança muito grande na inteligência da vida, requer fé na ação do tempo. Confiar nem sempre é fácil ou simples)

No outro dia alguém postou uma frase da Clarice que eu não conhecia:
"Tudo é perfeito, porque seguiu de escala a escala o caminho fatal em relação a si mesmo".

Até onde sei esse é um princípio zen-budista: as coisa serão. A vida será. 

Façamos parte ou não disso tudo. Aí está o paradoxo da nossa existência.

A vida está para além de nós.
Mas viver é algo que só pode se dar por meio de nós mesmos.

Você é o seu instrumento de vida.

Para Joseph Campbell o sentido da vida é a experiência do estar-se vivo.

É sentir o sabor da tua própria língua, olhar o que vêem os teus próprios olhos, é encantar-se e deixar-ser ser transformada por aquilo que for capaz de te transformar.

Isso é engajar-se com a vida.

Quando nos poupamos da vida, a negamos.
Quando evitamos experiências por medo de nos machucarmos, negamos oportunidades de vida.

Não, viver não é simples.
As intenções das outras pessoas em relação à nós nem sempre são boas.
E infelizmente é muito mais fácil que outras pessoas nos machuquem do que saibam de fato ser por nós, sair de seus próprios olhos e tentar enxergar as coisas pelos nossos é algo raro.

Em geral a maioria de nós caminha míope e tonto pela vida.
Tentando sobreviver. Tentando ser entendido. Tentando achar alguém que lhe dê senso de segurança e que lhe ame como acha que merece ser amado.

E, em face de conflito, é muito mais fácil achar quem se arme inteira, quem entre no modo da defensiva, cheia de defesas e preparada para o contra-ataque, do que quem se dispa da agressividade e vá de fato ao encontro da outra pessoa.

A vida é feita de ação e reação.
Talvez se parássemos para pensar mais sobre isso, perceberíamos que cada uma de nós tem mais poder do que o que supomos para encerrar conflitos e modificar desfechos.

Mas, olha, cada idade que ganho é nova para mim.
No momento, estou com 39 anos.
Nesta vida, pelo menos, essa é primeira vez que tenho 39 anos.
Estou aprendendo ainda.
Mas uma das lições que guardei até aqui é que de fato tudo passa e tudo se transforma.
Pessoas vêm e vão.
Pessoas não são ideais.
Pessoas pertencem a um tempo do qual compartilhamos - às vezes mais longamente, às vezes apenas por um período.

Eu cá penso que é necessário achar nosso próprio caminho.
É necessário pensar sobre o que nos importa.
É necessário saber quem nos faz bem e quem nos faz mal.
É necessário saber quem nos ajuda a crescer e quem nos quebra e aprisiona.
É necessário saber quem é bálsamo e quem é veneno.
É necessário saber quem sabe cuidar e quem só quer ser cuidada.

"Esta é a vida vista pela vida"

E  nada é tão sério quanto saber com quem dividir seu tempo, seu afeto e sua vida. 

Não, não há ninguém perfeito.
Mas que a soma do bom seja sempre maior que a do ruim.

Dor e caos não podem ser naturalizados em nenhuma relação.
Que você saiba se retirar daquilo que não te alcança.
Que você saiba se afastar daquilo que não te gera muitos e tantos abraços de paz.
Que você saiba deixar ser para que aquela pessoa siga o seu próprio curso das transformações que lhe são necessárias.


Lana Nóbrega (Helena Paix)
Peço que quem for usar este texto, que não esqueça de citar a autora.

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PS: o Sapatilhando está de volta! :)
Por favor, venham sempre e divulguem o blog.